Terça-feira, 26 de Agosto de 2008
Uma ficção anunciada
Terça-feira, 26 Ago, 2008

É raro, mas acontece. Às vezes a melhor vantagem é só ter uma vantagem, uma única: ter tudo, mas mesmo tudo contra si. Ser uma hipótese sem qualquer hipótese. É bem o caso de Barack Obama (Barack Hussein Obama, pelo amor de Deus!). Seria difícil um começo menos indicado que ter um nome destes, sobretudo quando a juntar ao resto, nem por isso poucochinho. Se não, vejamos.

 

Era negro mas não era bem um brother, pelo menos para o resto dos brothers, já que é filho de mãe branca e cresceu no Hawai e na Indonésia, longe das dolorosas realidades da América negra. Branco é que ele também não era de certeza, embora também não tenha sido isso que o impediu de obter a sua primeira vitória eleitoral no Iowa, um Estado com 96% de brancos. Um nome muçulmano como o seu, sobretudo Hussein, estaria também longe de ser considerado um dado a favor, numa qualquer análise fria e racional que fosse feita, há quatro anos atrás, sobre aquele político desconhecido que durante sete anos servira o país no Senado Estadual do Illinois. Tudo, mas mesmo tudo contra, aparentemente. Eis a receita do vencedor.

 

Em Novembro de 2004 Barack Obama é eleito para o Senado Federal, ao arrepio de todas as expectativas dos analistas políticos, para apenas dois anos depois repetir a graça ao anunciar a sua decisão de se candidatar à Presidência dos Estados Unidos. Isto quando ao tempo já existia Hillary Clinton no horizonte democrata, a candidata 'natural' do partido, chamemos-lhe assim, em função de tudo aquilo que Hillary tinha e Obama não: um nome feito na alta-roda da política norte-americana, experiência governativa por contágio entre-coxas (num contexto de cabeça-de-casal), senadora pelo terceiro maior Estado, apoiada por toda a máquina partidária democrata e com financiamento mais do que assegurado à partida para uma longa e desgastante campanha eleitoral. Enfim, tudo e os olhos azuis.

 

Batidos que estão todos os recordes de improbabilidade por este homem que insiste em contrariar todas as lógicas, (incluindo as lógicas habituais dos mercados financeiros, que fazem o mundo girar) vários caminhos se afiguram possíveis para Barack Obama. Pode ser derrotado por Jonh McCain, o que seria ponto final para já, mas tudo em aberto, apenas uma questão de tempo. Pode derrotar McCain e tornar-se Presidente dos Estados Unidos da América, o que seria apenas ponto, parágrafo e haja papel para a História que ele poderá escrever se assim for. E pode não chegar à eleição, como terá insinuado Hillary quando há pouco mais de uma semana recordou o assassinato de Bob Kennedy, deixando no ar a inevitável associação de ideias com a possibilidade real de Barack Obama ser assassinado. E essa hipótese, se pensarmos bem, não é nada que não possa acontecer nesta América duvidosamente preparada para ver na Casa Branca o neto daquela simpática velhota negra que vive no Quénia. Na linha do longo historial do assassinato político na história da Humanidade, o pior de todos os sinais será o dia em que Obama olhar em redor e só vir apoiantes entusiásticos ao seu lado, nem um detractor, nem sombra de crítica ou oposição visível. Esse será o dia indicado para começar a procurar as adagas escondidas debaixo das túnicas senatoriais. Ou eu muito me engano ou esse dia já passou. E ninguém espreitou as túnicas.

 

Numa visão de argumentista de Hollywood, neste momento e daqui para a frente, Barack Obama pode ser muito mais rentável morto, enquanto mito, do que vivo enquanto homem mais poderoso do mundo e com vontade própria. Na alta roda do poder mundial, o excesso de protagonismo, quando não totalmente atrelado e sob controle, é definitivamente um desporto a evitar. É por demais sabido que o grande capital apoia toda a democracia desde que possa controlar os resultados das eleições, de uma forma ou de outra. Imagine-se que este homem começa a ficar maior que o mito. Imagine-se que o povo começa a levar a sério aquela coisa da mudança, yes we can, e isso tudo, e de repente esquece a mão que de facto o alimenta. Imagine-se que o próprio Obama começa a acreditar que 'Yes we can' e desata para aí a querer acabar com as guerras e com a fome no mundo (Deus nos livre), ou pior, que se mete a sério a querer acabar com as drogas, sei lá, por exemplo! Imagine-se por um instante que Obama, ele mesmo, se começa a levar a sério e deixa de ser um team player, condição primeira para se ser, no poder na América. Já pensaram?

 

Imaginemos tudo isto e recuemos por um instante até uma tarde de Novembro, 22, em Dallas, Texas, quando uma só bala entrou e saiu sete vezes nos seus alvos, que passavam num carro aberto e escoltado pela melhor segurança do mundo. Quando uma evidência destas fica oficialmente registada no relatório final da mais polémica comissão de todos os tempos, a Comissão Warren, reunida debaixo dos olhares expectantes do mundo inteiro, então percebemos finalmente que não é necessária imaginação por aí além para entender as motivações que possam existir num ror de gente importante e poderosa para por um ponto final, de calibre 38, no discurso deste homem nascido com uma estrelinha de especial refulgir. Talvez seja o brilho da glória, talvez seja o brilho das lágrimas, quem sabe, como aquelas que a América já chorou um dia sobre o caixão de um homem parecido com este, mas em branco. O mundo inteiro recorda-o pelo sorriso de esperança que lhe abriu as portas da Casa Branca e lhe ditou o cognome que ficaria para a História: forever young. Também ele simbolizava a mudança, também ele arrastava multidões. Hoje vive no panteão dos mitos, lado a lado com Elvis. É assim a América.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Pirate a 26 de Agosto de 2008 às 18:40
Com ou sem Obama o império já não é o que era...como sucedeu no Romano Império a queda mesmo que paulatina é já bem evidente. Não é por acaso que Obama defende a refundação da diplomacia norte-americana na base do multilateralismo deixando cair a visão unilateral do nós e eles...o mundo está muito diferente e a América do "american dream" ou muda ou transforma-se num "american nightmare". Há muito que esse mundo está multicêntrico mesmo aos olhos do clã Bush. A ver vamos se o "yes he can" se vai transformar no "well, he could"...


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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