Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008
Outra viagem começa agora, com partida do fundo do mar
Quinta-feira, 28 Ago, 2008

Vila de Santo Amaro, ilha do Pico, arquipélago dos Açores. Começara há poucos dias o ano de 1796 quando, a 29 de Janeiro, a fragata francesa «L'ástrée» naufraga à vista da costa norte da ilha. Não mais foi encontrado qualquer vestígio do navio. Até esta semana, quando, pela primeira vez em mais de dois séculos, uma equipa de investigadores da Direcção Regional de Cultura dos Açores (DCRA) localizou os destroços da fragata e prepara agora o resgate possível do que restar da embarcação. «A fragata encontra-se a oito metros de profundidade numa zona de orografia difícil com rochedos e abismos próximos que vão a mais de cinquenta metros de profundidade», diz  Catarina Garcia, arqueóloga da DRCA; «É um sítio difícil e até mesmo assustador o que leva agora a compreender porque foi difícil encontrar os vestígios do naufrágio». É outra viagem que começa, a do conhecimento.

 

A história do naufrágio da «L'ástrée» ficou escrita para a posteridade logo na altura, com todos os pormenores da tragédia num registo meticuloso e preciso. «Vinha da Ilha Guadelupe, para França, carregada de asucar, e café da Convençaõ, trazendo 18 peças d`artilharia de guarniçaõ, e 180 pessoas», especifica uma carta do Juiz de Fora da Ilha do Pico, escrita a 26 de Março desse ano a dar conta da ocorrência e hoje parte integrante do acervo da Biblioteca Publica de Angra do Heroísmo. Nela o juiz Luiz Correia Teixeira Bragança faz o balanço do desastre especificando que «de toda aquella gente somente se salvaraõ 57 pessoas; a saber 7 Inglezes (de 12 que vinhaõ na Fragata como prizioneiros de guerra), e 50 Francezes, tudo Marinheiros, e alguns officiais de manobra, morrendo 123». O magistrado explica mesmo as providências que tomou, sublinhando que foi logo ordenar «enterrar os mortos, por evitar algum contagio e depois de dár as providencias, que me pareseraõ necessarias, para se pôr a salvo tudo aquillo, que pudese sahir; recolhime para esta Villa».

 

Acontece porém que a situação na ilha terá ficado algo complicada para os sobreviventes: «por espaço de des dias, que aqui se demoraraõ, trateios com homanidade, sem os meter em prizaõ e ainda que o quisesse fazer naõ há nesta Villa cadeas, porque se demoliraõ, (palavra ilegível) inteiramente», explica Luiz Bragança. Para além disso a ilha tinha falta de alimentos, dizendo o juiz que «contribuilhe o seu necessario sustento, quazi tudo á minha custa, athe emfim vendo que elles naõ podiaõ subsestir nesta Ilha, pela falta que há nella dos generos da primeira necessidade estive para os remeter para essa Capital». É ainda de acordo com este relato, feito e acompanhado pelo seu escrivão, um tal Joaquim José da Rosa, que ficamos a saber que «a Fragata se tinha feito em pedaços e que o mar (por ser neste Sitio o tempo muito tromentoso) logo levou consigo a mayor parte da dita Fragata deixando unicamente hum grande monte de Cabos e algumas vellas envoltas com huns bocados de mastros». Assim se escreve, assim se faz a História.

 

Agora, duzentos e doze anos passados, terá aparentemente chegado a hora de colocar um ponto final na viagem original da «L'ástrée», sepultada em àguas açorianas em local finalmente encontrado. Outra viagem começa agora, com partida do fundo do mar. Recolhendo e estudando estes vestígios que agora foram localizados e inventariados pelos investigadores da sua Direcção Regional da Cultura, os Açores dão o primeiro passo de uma nova e excitante viagem ao passado daqueles nove pedaços de chão que são Portugal no meio do oceano imenso.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Pirate a 28 de Agosto de 2008 às 16:50
Mais um wreck a enriquecer a arqueologia náutica dos Açores ! Feliz achado este da fragata francesa l' ástrée...
Presumo que o que resta do naufrágio, cavername peças de artilharia, embora em mau estado poderá ainda ser resgatado, recuperado e eventualmente exposto ao público interessado.
Quanto ao wreck propriamento dito e a bem do turismo subaquático nos Açores, deveria ser bem assinalado - batimétricas, localizações, etc... - e posto à disposição da cada vez mais vasta comunidade subaquática mundial para que pudesse ser visitado preservando sempre os restos do naufrágio se os houver. É isso que se costuma fazer nos países ditos civilizados...
Estou em crer que a DRCA juntamente com outras entidades, nomeadamente Marinha e Universidade dos Açores fará o melhor trabalho possível.
Ainda não tive o privilégio de mergulhar nos Açores, mas com estes patrimónios - históricos e biodiversidade - a vontade de pegar no equipamento e bater asa para os Açores é cada vez maior !
Talvez em Outubro na Graciosa e S. Jorge para onde já me desafiaram...


De Azoriana a 28 de Agosto de 2008 às 21:10
Os laços que me ligam a Santo Amaro da ilha do Pico fizeram-me vir aqui e ler este artigo histórico. Se continuar assim a falar desta riqueza açoriana, voltarei à visita da saudade e agradeço-lhe esta preciosa informação.

Cumprimentos


De Alexandre Monteiro a 28 de Agosto de 2008 às 22:01
Anno do Nascimento de Nosso senhor Jesus Christo de mil sette centos noventa e Seis aos trinta dias do mez de Janeiro do mesmo anno neste Lugar de Santo Amaro termo da Villa de Sam Roque desta Ilha do Pico, e Sitio do porto do mesmo Lugar onde o Doutor Luiz Correia Teixeira Bragança Juiz de Fora em toda esta Ilha veio comigo Escrivam por lhe constar que no dia de ontem que se contaram vinte e nove do corrente mez tinha dado á Costa huma Fragata Franceza, para ver e examinar o Sucesso, (...) achamos que a Fragatta se tinha Feito em pedaços, por ter dado em humas baxas, que ficam da parte do Nascente deste porto, e que o mar (por ser neste Sitio, e tempo muito tromentozo) Logo Levou consigo a mayor parte da dita Fragatta.

Começa assim um espesso maço de documentos, intitulado Treslado dos Autos de Inventário a que mandou proceder o Doutor Luiz Correia Teixeira Bragança Juiz de fora em toda esta Ilha do Pico na ocaziam do Naufrágio da fragata franceza, que deu a Costa neste lugar de Santo Amaro e datado de 5 de Julho de 1796. Esquecidas durante mais de 200 anos, as páginas amarelecidas pela humidade e pela passagem do tempo narram, vivida e graficamente, a catástrofe que durante meses abalou a pacata aldeia de Santo Amaro, na costa da ilha do Pico, Açores.

mais aqui:

http://alexandre-monteiro.blogspot.com/2004_03_01_archive.html

e a documentação toda, aqui:

http://nautarch.tamu.edu/shiplab/indexacores.htm




De Daniel de Sá a 29 de Agosto de 2008 às 01:35
Rui
Havia fome no Pico no século XVIII? Vê este depoimento de um ancião de 88 anos, de Santa Maria, dado a Arsénio Puim em 1988, a propósito dos moinhos, e agora publicado no seu belo livro “O Povo de Santa Maria, Seu Falar e Suas Vivências”:
“No tempo em que havia dezasseis morgados em Santa Maria era tudo deles; os pobres trabalhavam para eles de graça, só lhes pagavam com os farelos que restavam de deitar aos porcos e com os carrilhos do milho, que os pobres metiam no forno para secar bem, depois eram malhados com uma maça de madeira em cima de uma pedra viva e eram moídos no moinho de mão, juntos com os farelos para dali fazer papas ou bolos.”
Depois dos porcos, percebeste? E eu conheci gente que tinha comido farinha feita de tocas de fetos.


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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