Terça-feira, 2 de Setembro de 2008
Corridinha matinal
Terça-feira, 02 Set, 2008

Tropeço na obrigação de escrever logo quando já alçava a pernita e esboçava o passo por cima para discretamente me pôr a milhas. Bolas! Azar, quem me manda deixar uma coisa destas no caminho, também? A obrigação de escrever não é como o Marquês de Pombal, que se pode contornar ou passar por baixo. É assim mais como Alfama, chão velho com ruas estreitinhas e muitas paredes, onde por mais voltas que se dê se acaba sempre no mesmo larguinho muito bonito mas que não leva a lado nenhum e onde o tempo parou há séculos. Pelo que às tantas o melhor é sentar e despachar o assunto de uma vez por todas para poder seguir viagem descansado, caramba. Pena o tempo perdido às voltas, já a coisa estava feita e mais que feita, lá vem a sabedoria popular e os ditos proverbiais de carqueja, «quem se mete por atalhos mete-se em trabalhos» e outros parecidos. São referências de pedra, antiga, marcos espalhados pelas bermas dos caminhos de cada um. São o b-a-ba da auto-disciplina, imprescindível ao homem moderno, não saia de casa sem ele. 

 

Penso numa amiga minha que faz as suas corridas matinais na ditadura do seu mp3, uma canção e vai a passo, na canção seguinte a passo de corrida e assim vai alternando sucessivamente, até ao fim do circuito ou das pilhas. Segue a direito, não contorna as regras, vai quase acabada e de língua de fora na vez da corrida até que o baterista finalmente encerra o tema com a batida final. Pum pom: tchaaam. Nem um micro-segundo antes. E atenção que os ecos também contam, se o mp3 não corta a faixa à faca, também ela não dá por terminada a sua obrigação e mais depressa se quebra no asfalto que aceita torcer nos derradeiros instantes. Julgo que terá a ver com o facto, tão incontornável como Alfama ou a minha obrigação de escrever, de ser perfeitamente possível aparentar um perfeito cumprimento das nossas obrigações iludindo assim os outros com a competência que nos faltou na execução da tarefa. Será talvez relativamente fácil, até, se levarmos em conta que os outros têm mais que fazer com as suas vidas do que perder tempo na nossa, a conferir se lavamos os dentes e pagamos a luz a tempo e horas, ou se fazemos obra asseada quando cedo ou tarde deitamos mãos à dita. O problema estará em conseguirmos enganar-nos a nós próprios fingindo o fôlego necessário para manter a corrida, suspeito. Deve ser um grande problema, de facto, não há dúvidas, uma bela chatice. Ainda bem que não tenho que me preocupar com essa aborrecida eventualidade. Afinal, com esta história do túnel do Marquês e da corrida da amiga, sem a gente dar por isso a prosa ficou feitinha e despachada, não há nada para contornar. Não é fantástico? Sigo a direito, feliz.

 

Por agora, claro.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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