Domingo, 7 de Setembro de 2008
Eterno descanso, pois sim.
Domingo, 07 Set, 2008

A família de Manuel Correia chega num vendaval de emoção ao IPO do Porto. O caso não era para menos, que o seu Manuel estava por lá na morgue, cadáver, a aguardar nada mas ali. Descem ao frio e pedem o seu morto, "é este?", terá perguntado o funcionário das gavetas, "é sim senhor", terá respondido a família a meio do desvio de olhos de quem tenta em vão escapar à verdade suprema da Vida. 'Siga, então!', terá sido o veredicto do entregador de corpos. E seguiu mesmo, foi para Vidago, onde já estava até a ser velado e chorado quando finalmente disseram àqueles vivos que aquele morto também estava morto, sim senhor, mas não era o morto que lhes tinha morrido, tenham paciência, desculpem e muito obrigado. E desculpas ao falecido, evidentemente, para a próxima vez correrá tudo melhor, muito obrigado e desculpe.

 

Com a família de Manuel Correia ainda a derramar lágrimas em Vidago no corpo presente do seu morto ausente, a família de Joaquim Moreira vai procurá-lo defunto ao mesmo IPO de onde saira Manuel Correia a caminho de Vidago. Conhece o mesmo funcionário generoso nos congelados, mas é mais atenta no enfrentar da morte cara a cara. E encontra quem, o seu Joaquim? Claro que não, conhece Manuel, o mesmo por quem os sinos dobram em Vidago. E pronto, lá vem o IPO dizer àqueles vivos que aquele morto também estava morto, sim, mas não era o morto que lhes tinha morrido, tenham paciência, desculpem e muito obrigado. E desculpas ao falecido, evidentemente, para a próxima vez correrá tudo melhor, muito obrigado e desculpe.

 

Confrontado com esta sua interpretação sui generis de eterno descanso, o IPO já mandou dizer que o funcionário terá sido culpado e que foi já transferido de funções. Que foi uma chatice, sim, sabem, coisas que acontecem a quem está vivo. Mas não deixa de apontar o dedo aos familiares de Manuel Correia, a quem o IPO atribui a culpa maior nesta situação, por terem sido 'demasiado emotivos'. E por não terem sabido escolher o morto certo no self-service da sua morgue. Tudo isto esta noite, no Jornal Nacional. 

(31 de Janeiro 2008)



publicado por Rui Vasco Neto
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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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