Domingo, 7 de Setembro de 2008
"Simplesmente Nini": Tragédia logo no primeiro capítulo.
Domingo, 07 Set, 2008

À terceira pisadela o gato bufou, estridente, a sua indignação. D.Vanália logo se chegou ao bichano num tal vendaval de festas que eu cá estava capaz de apostar que o gato votava na pisadela, sem hesitar, se pudesse escolher naquela hora. «Meu lindo, meu lindo, meu lindo», repetia flautando a voz, na cadência do movimento da mão que corria o gato de cabo a rabo, no sentido do pelo, provocando arrepiozinhos de prazer que o bicho assinalava com umas miadelas muito dengosas e prolongadas; «Já passou, pronto, já passou», suspirava, enternecida.

 

Estava por esta altura mais ou menos a meio a manhã, sempre das melhores alturas do dia na "Cabana", por uma infinidade de pequenas razões. Na sala, arrumada e pronta para receber 'o pessoal dos almoços', como diz D.Vanália, respirava-se ainda aquele ar lavado que fica depois da limpeza matinal e a tranquilidade do local parecia reflectir-se na freguesia, ou talvez fosse o contrário, não sei. Os únicos clientes àquela hora estão ao balcão e praticamente são da casa. É Libaninho quem beberica o seu café, acabado de se levantar e com 'um humor de cão de fila', como ele próprio avisa, todos os dias há mais de vinte anos. Foi o primeiro a chegar, quase de seguida chegaram o Lopes da papelaria e o Pereira oculista, sempre juntos e à mesma hora para dois copinhos de moscatel. Para cada um, evidentemente, a empurrar uns peixinhos-da-horta fritos na hora por especial deferência de D.Vanália para com o 'Pinguço', alcunha carinhosa do Lopes, que ela conhecia de garoto e mimava com um desvelo que deixava Jean Pierre (agora ao telefone mas de olho nos pastelinhos) doido de ciumeira.

 

É neste ambiente de calmaria que acontece a chegada de Nini, sempre um momento de grande emoção, hoje a aparecer carregada de sacos e saquinhos e embrulhos e embrulhinhos que até parecia que "a rapariga anda nas compras de Natal", como prontamente observou D.Vanália entredentes, danada com a reacção do "Pinguço", logo corado como um pimentão e prontamente perfilado ao ver chegar Nini. «Bom dia, meus queridos», gemeu a diva naquele tom de voz lânguido e arrastado que "dá vida aos mortos", como costumava dizer o Pereira oculista entre risinhos de malícia, outro fã incondicional da mulher de Jean Pierre (ainda ao telefone mas sempre com um único pensamento nos pastelinhos, agora mais que nunca, com aquela excitação toda) e que também já se debruçava sobre os sacos e embrulhos, todo prestável, para a aliviar do carrego. «O amigo que não se incomode que está aqui quem trata desse assunto», trovejou o Lopes, em tom que não admitia qualquer discussão e dando já dois passos firmes em frente na direcção de Nini, olhos em bico postos no decote redondo e generoso do vestido onde saltitavam aqueles seios fartos, quase mais famosos na vizinhança que o próprio restaurante, embora menos e pior frequentados, há que reconhecer. «Ai, senhor Lopes, posso sempre contar consigo, é o que vale», concedeu Nini com voz quente, envolvendo-o num sorriso cheio de promessas que quase matava do coração o pobre que arfava na pressa de agarrar todos os volumes de uma só vez. «Vê lá se te dá uma coisinha má com o esforço, ó Pinguço», disparou D.Vanália da cozinha, sem se conseguir conter e fazendo com que o Lopes deixasse cair um dos sacos, com a atrapalhação. «Pois, depressa e bem não há quem», sentenciou a velha, para quem estava ali um sinal de ajuda divina à sua causa.

 

Com a atenção de todos centrada nas compras agora espalhadas pelo chão do restaurante, Jean Pierre, que tinha acabado de desligar o telefone, vai chegando mais perto da travessa dos peixinhos-da-horta sem que ninguém dê por ele e é no exacto momento que estende a mão para o maior, assim a olho, que se torna a ouvir a voz de D.Vanália naquele tom inconfundível que usa para falar com o filho. «Olha lá, rapazinho, quem era ao telefone? Nem dizes? Era para ti, se calhar?» Jean Pierre, de costas, retira a mão vazia da travessa antes de se virar. «Era lá do blogue das sete vidas do gato ou lá o que é, por causa da blogonovela..». D.Vanália fica à beira de uma apoplexia com o tom casual e desinteressado de Jean Pierre, escapando-se-lhe o drama dos pastelinhos: «Mas já me viram este rapaz, eu não sei a quem é que ele sai, sinceramente, então ligam por causa da blogonovela e ele nem diz nada, digam-me se já viram uma coisa destas, Deus seja louvado!». Nesta altura é já a sala toda que está atenta ao desenrolar da conversa, até Libaninho volta a sentar-se sem um pio, ele que já saía enfadado com a chegada de Nini, "aquela vaca", como lhe chamava entredentes nas muitas, muitas vezes em que pensava no 'pobre Jean Pierre, que deve ser tão infeliz, tadinho'. O bom do Lopes apanhava as compras e o Pereira oculista aproveitava para emborcar o copinho de moscatel do amigo, 'seja pela ajudinha', brindou para dentro, mas os dois estavam de ouvido alerta na conversa já desde que a palavra 'novela' tinha sido dita pela primeira vez.

 

Na verdade até Nini estava agora bem atenta ao diálogo entre o marido e a sogra, que "isto da novela pode ser uma grande oportunidade", pensava de si para si. D.Vanália ainda continuava a ladainha: «Está uma pessoa para aqui a matar-se a trabalhar e nunca vai a lado nenhum, a um teatro, a um cinema, não saio de casa nem desta cozinha, lá fui há dois anos à Avenida ver as marchas porque a vizinha Lurdinhas me levou, porque se estivesse à espera de vocês nunca lá punha os cotos, e agora querem fazer uma novela cá no restaurante e o meu filho, o meu próprio filho, sabendo que eu estou para aqui mortinha há quase uma semana que aquilo comece e eles telefonam e o meu filho nem me diz nada, uma triste é aquilo que eu sou, uma desgraçada que ninguém quer saber se vive ou morre..». Durante a tirada da mãe Jean Pierre tinha finalmente logrado fazer mão baixa de dois pastelinhos, pelo que foi com a boca ainda cheia e a mastigar que lá conseguiu interromper o desabafo materno: «Mas ó mãe, eles ligaram exactamente para dizer que começava hoje a novela, parece, lá no blogue dos gatos ou lá o que é...». D.Vanália ficou muito séria de repente: «Hoje, filho?». «Hoje, mãe!», «Hoje, filho?». «Hoje, mãe!», confirmou Jean Pierre. «Ai, filho, louvado seja Deus, eu sabia, eu sabia que um dia ia ser famosa!! Diz-me filho, e o nome, como se chama a novela, já sabes? É "A Casa da Vanália", não é meu filho? O senhor lá da internet disse-me que ainda não tinha a certeza do tíntalo, mas agora já tu sabes qual é, meu filho, não sabes

 

.............................

 

Pouco passava das três quando a ambulância se foi embora e a pequena multidão que se juntara à porta d''A Cabana' começou finalmente a dispersar. Entre o 'pessoal dos almoços', espalhado pelos restaurantes das redondezas, a história do dia era contada e recontada com todos os pormenores que tinha e com mais uns quantos que passava a ter a cada nova repetição. Alguns deles absolutamente descabidos, como aquele que dizia haver um 'lanho enorme' na cabeça de Nini, que teria levado dez pontos e tudo. Um manifesto exagero, já se sabe, aquilo que o que o médico disse foi para ela pôr gelo e 'ficar deitadinha', pronto. E sim, terá levado dois ou três pontitos, vá lá, quatro ou cinco, se tanto, que aquelas frigideiras ainda são pesadas. Mas daí até dizerem que 'a velha quis matar a nora' vai uma grande distância, um enorme exagero, está bom de se ver. Invejas, é o que é.

 

(continua, naturalmente, que remédio)



publicado por Rui Vasco Neto
link do post | comentar

Comentários:
De vovó Maria a 8 de Setembro de 2008 às 05:59

ah! pois continua, continua :)!...
brilhante!!!
beijocassssss


De Saci a 8 de Setembro de 2008 às 23:17
Rui

Também vai ter final do género "o público decide"?


De Daniel de Sá a 9 de Setembro de 2008 às 01:53
Pois é, Rui, e tu é que tiveste a culpa dessa frigideirada. Claro que deverias ter chamado à blogonovela "A Casa da Vanália", está-se mesmo a ver.


Comentar post

Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
mais sobre mim
vidas passadas

Piu

Crónica do Brufen

Eu, pombinha.

Falando com o meu cão

Chove, eu sei, mas tenho ...

Maria da Solidariedade

Hum, daí o meu dói-dói...

Portugal sem acordo

Não fui eu que escrevi ma...

Um dos

Abençoados 94, Madiba!

Sôdade

Não vás as mar, Tòino... ...

Ofertas FNAC: pare, escut...

Reflexão de domingo, perg...

É preciso é calma, já se ...

Definição de sacrifício n...

A questão

E pronto, eis que descubr...

.......

Bom dia. Se bem me lembro...

O princípio do fim

E, de repente.

Um azar nunca vem só

Diz que é uma espécie de ...

Força na buzina!!

Bom dia. Hoje chove em Li...

Depois do homem que morde...

Bom dia. É hoje, é hoje!!...

Boga ou Beluga?

arquivos

Junho 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Abril 2010

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Restaurantes para fumadores
Consulte aqui a lista de restaurantes onde os fumadores também têm direito à vida.
sete vidas mais uma: Daniel de Sá
Um Nobel na Maia
Lagoa
Ribeira Grande
Vila Franca do Campo
Do Nordeste à Povoação
Dias de Melo, escritor livre
E se a Igreja se calasse?
O outro lado das tragédias
O meu Brasil português
A menina amarga (II)
A menina amarga (I)
Pelas cinzas de uma bandeira
O caso da Escola do Magistério
Uma confissão desdobrável
O gato e o rato
Contra a Inquisição
D.Diogo
Uma carta de Fradique Mendes
Acróstico
Monotonia
Maia (II)
Maia
Um nome acima de todos os nomes
Um palhaço de Deus
A ópera em Portugal - Conclusão (VIII)
A ópera em Portugal - Um novo estilo, Alfredo Keil (VII)
A ópera em Portugal - O Teatro de S.Carlos (VI)
A ópera em Portugal - Os Intérpretes: Luísa Todi e os Irmãos Andrade (V)
A ópera em Portugal - Marcos Portugal: vida e obra (IV)
A ópera em Portugal - Primeiros tempos / o triunfo (III)
A ópera em Portugal - Introdução da ópera em Portugal (II)
A ópera em Portugal - As origens da ópera (I)
Dois sonetos à maneira de Natália Correia
Duas garrafas de Macieira
As esponjas das lágrimas
Lição de Português
500 000 soldados
Depois do portão da casa
Auto da Mazurca
Auto da Barca de Bruxelas
Malino
Romance da Bicha-Fera
A Casa
Tremor de terra, temor do céu.
Cântico da mãe escrava ao filho morto
Passos Perdidos
A Lenda dos Reis
Daniel de Sá
Um sítio chamado Aqui
O protesto do burrinho
Sete vidas mais uma: Soledade Martinho Costa
Poema renascido
Sete vidas mais uma: Pedro Bicudo
RTP, Açores
As vidas dos outros
subscrever feeds
Sete vidas, sete notas