Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008
Portugal e o medo
Segunda-feira, 08 Set, 2008

Lá pelos idos de 1979, (em pleno século passado, portanto), estava eu em Tel-Aviv, Israel, mais um grupo de três amigos, todos armados em homens. O mundo era nosso e de mais ninguém. A vida sabia a rosas e sempre a pouco. A felicidade estava à mão em qualquer parte, a novidade era constante. Poupo-vos os detalhes da aventura, porque fomos, como fomos, onde estivemos e os meses de tropelias por terras de Moshe Dayan e Golda Meir. Conto-vos um episódio apenas, porque a propósito da actualidade deste Portugal que é de todos.

 

Mal teria talvez passado um mês e já sabíamos as regras da casa. A primeira lição práctica tivemos na própria noite da chegada. Poucos minutos depois de estarmos os quatro sentados na esplanada do 'Café do Francês', ponto de encontro ao tempo dos portugueses em Israel, em plena Ben Yehuda, a principal avenida de Tel Aviv, vazia áquela hora, pára um tanque bem na nossa frente, do outro lado do passeio. Cena de filme, juro. Abre-se aquela escotilha em cima e sai um militar, que desce do tanque em três pulos e entra numa lojeca para comprar tabaco. Sai, a abrir o maço, entra para o tanque e arranca, numa normalidade que nos fez cair o queixo, chegadinhos do Portugal das revoluções com flores. Lição número um, convenhamos.

 

Pois cerca do tal quase mês depois, eu e o meu amigo Dinis Queiroz (vivinho da costa e ainda hoje uma peça de artilharia, digo, de antologia) embarcamos num autocarro, sete e pouco da manhã, percurso Ramat/Tel Aviv. Uma viagem de pouco mais de meia hora até terminar na central de camionagem cujo nome já me escapa à memória (era qualquer coisa diferente de Arco do Cego, isso eu sei, mas o sítio era parecido só que maior). Dormitámos no caminho, os dois. Acordados à chegada, saímos ainda ensonados e só despertamos para a realidade quando, depois de ter saído do autocarro e andado umas boas dezenas de metros, percebemos que se junta uma pequena multidão em redor do machibombo onde tínhamos viajado. Curiosos, voltámos para trás. Num ápice apareceu a polícia, muita polícia, grupo de intervenção com coletes e viseiras, uma escandaleira de se lhe tirar o chapéu. Tudo calmo, sóbrio, profissional, rotineiro.

 

Ficámos para ver, claro. Nunca tinha visto um robot daqueles que eles meteram no autocarro, equipado com camera e detector de explosivos, manejado por controlo remoto por uma data de polícias deitados no chão no lado de dentro do perímetro de segurança. Nós, eu e o impagável Dinis, estávamos do lado de fora, suficientemente longe para estarmos seguros mas perto o bastante para vermos todos os pormenores. Quando finalmente sai uma das viseiras com colete e com um saco na mão, esquecido no autocarro, o meu coração gelou. Mas não tive tempo de dizer ai. O meu amigo Dinis, essa peça de antologia que não falava uma palavra de inglês, salta o cordão de segurança e corre aos gritos até ser detido: «Ize máine! Fachavor... ize máine..lanche...ize máine!!».

 

Não fomos presos, é certo, embora eu tenha passado a primeira de uma longa lista de vergonhas. Fomos expulsos de um Kibbutz, dois meses mais tarde, por aquela praga (de quem sou amigo ainda hoje) ter gasto as senhas de comida de um mês numa festa para uma namorada, gira e soldado do exército, que arranjou. Mas presos nunca fomos. Como acredito que não será o dono da mochila que hoje fez parar o metro de Lisboa por suspeita de ataque terrorista.

 

Pensei em Israel a manhã toda. Em como eram diferentes as nossas realidades enquanto países, na altura. E em como se vão tornando perigosamente semelhantes, nos dias que correm. Passaram vinte e oito anos, quase vinte e nove, pelas minhas contas, até eu ver parar o metro em Lisboa por medo legítimo do terrorismo internacional. Nessa altura, há vinte e oito anos atrás, eu sentia-me cidadão de um mundo que queria meu. Queria igualdade de respeito pela grandeza pátria e orgulho luso, o que ainda me parece razoável e legítimo. Mas hoje, muitos mortos depois, dei por mim a querer ser apenas um provinciano que mata o porco no quintal, bate palminhas no vira, faz cacholeira em casa, vai de cana por fumar e cozinha com colheres de pau à revelia do nunes. E que não se importa de estender a mão à gorjeta da civilização, do Algarve aos Açores, desde que façam o favor de deixar os meus fora dessa guerra que nos rouba a vida simples do dia a dia, numa explosão de nojenta crueldade, em nome de ideais que não aumentam a minha reforma nem reformam a minha saúde.

 (22 Janeiro de 2008)



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Daniel de Sá a 8 de Setembro de 2008 às 02:22
Pois é, meu Caro Rui, é por estas e por outras que eu antes quero ser português do que outra coisa qualquer. Bem sei que a malta por cá poderia andar um pouco melhor, se não houvesse uns quantos com direito à Forbs ou candidatos a ela e uns muitos mais, enfim, a gente sabe, pois é, não sei como dizer, já percebeste, vou mas é deitar-me que se faz tarde.


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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