Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008
A prima Vera
Segunda-feira, 08 Set, 2008

Por aqui segue a dança das comemorações do aniversário do 7Vidas (até dia 6 de Outubro vai ser assim, a Festa do Avante é que são só três diazitos) hoje com o passo que já estava a faltar neste programa das festas: as palavras dos amigos. Aqueles cuja presença, ao longo deste primeiro ano, foi o apoio e incentivo sem os quais teria sido infinitamente mais difícil chegar até aqui. E muito menos interessante, decerto, mais pobre. Fernando Venâncio, escritor, professor universitário e blogger sénior com produção vasta e de rara qualidade é um desses amigos de quem falo. Ele faz parte, juntamente com Daniel de Sá e Valupi, de um escol que há um ano atrás se juntava no Aspirina B e que este mês se vai encontrar pontualmente aqui, no 7Vidas, por força de uma amizade em comum. Eu cá bato palmas, festa é festa. E convidados como Fernando Venâncio fazem do meu modesto aniversário a grande festa da língua portuguesa. Ora leiam só o inédito que ele me trouxe de prenda.

Em baixo: "A prima Vera"

Sete vidas mais uma: Fernando Venâncio

 

 

De todas as muitas primas do Simão, a Vera foi sempre a mais querida. Percebia-se. Era a mais bem feita, a mais bem dada, a mais bem disposta. E cantava como um rouxinol. Como um rouxinol? Ui, muito melhor.

 

A prima Vera casou. Acontece aos melhores, não é pecado, ninguém lho poderia levar a mal. Mas o Simão não gostou. Era mais novo, bem mais novo, que ela. Uns bons dez anos. Parecendo que não, naquelas idades, faz a sua diferença. E a diferença era, neste caso, desfavorável ao Simão. Sejamos sucintos, e um pouco cruéis: a prima Vera nunca reparou no Simão. Gostava dele, gostava mesmo muito dele. Era, ele também, o seu primo querido. Mas reparar nele, o que se diz reparar, olhá-lo como homem, passar-lhe a ela pela cabeça, e pelo resto, o corpo daquele fedelho, ná... nem um segundo. Ele era-lhe, sejamos agora um nadinha pulhas, era-lhe anatomicamente impensável.

 

Não era esse, já nós percebemos, o caso dele. Não que na cabeça, e no resto dele, as coisas tomassem formas, digamos, rígidas. Aquilo era platónico de cima a baixo. Mas não subvalorizemos os enleios platónicos. Eles podem ser seriíssimos, e mesmo arrastar à desgraça, como se verá. Quem a prima Vera levou ao altar não é coisa que nos interesse. Ela também não estava assim muito, muito, muito doida por ele. E, pior, nem era tanto ele quem enraivecia o Simão. É triste, mas as pessoas às vezes têm muito pouca importância. O que pôs inconsolável o miúdo foi a prima Vera, que até ali tinha sido dele – da voz ao sorriso, dos folhos da saia à palha do chapéu, dele só –, ter ela deixado de pertencer-lhe. Como, ‘pertencer-lhe’? Não lho perguntassem, ele não saberia dizê-lo. Mas a mágoa, o sentimento de abandono, nem por isso eram menos opressivos.

 

Uma noite, estão Vera e o anónimo esposo, no antigo quarto de costura agora acomodado a ninho de amor, entretidos em qualquer inocente festividade, irrompe-lhes por ali o Simãozinho. Vinha armado. Com a faca de trinchar, mas de longe não se distinguia. Até porque tudo banhava em conveniente penumbra.

 

A Vera ocupa ainda o quarto de hospital, incapaz de ver-se a si mesma, perguntando dia e noite que rosto estará agora por debaixo dos pensos. O Simão foi internado numa unidade correccional – sítio errado a mais não poder –, convencido de que não vale a pena, para ‘isto’, estar uma pessoa vivo. E o milagrosamente ileso e, agora para sempre, anónimo consorte, esse considerou que o quarto da costura, um priminho assim e uma cônjuge desfigurada não estavam absolutamente no programa.

 

História tristíssima, hão-de dizer-me, a da prima Vera. Concordo. Mas tenha-se em conta que esta foi, ainda e só, a versão atenuada, que tentou não ferir os espíritos sensíveis.

 

Fernando Venâncio



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Daniel de Sá a 9 de Setembro de 2008 às 01:45
Um blogue que possa contar com o Fernando Venâncio, ainda que de vez em quando, será pelo menos de vez em quando o melhor blogue que se escreva em Portugal.


De mpc a 9 de Setembro de 2008 às 15:56
Muito me alegra ver o Fernando Venâncio a escrever neste blog que é uma surpresa constante. E sempre uma boa surpresa, digo mesmo. Os meus parabéns ao Rui Vasco que tem mostrado a força e a qualidade das suas sete vidas!!! Vamos em frente, meus queridos, um beijo enorme ao Fernando de quem sinto tanta falta no AspirinaB!! Mas vê-lo aqui já me consola um bocadinho, oxalá venha mais vezes, muitas muitas!!! E para o meu querido Rui Vasco um beijo também, que eu gosto muito daquilo que escreve, mostra uma inteligência e um humor que merecem um lugar de honra. Parabéns.


De Samuel a 9 de Setembro de 2008 às 20:55
Esta festa tem classe, ou o quê?!


De Trigo Ferreira a 13 de Setembro de 2008 às 17:42
Ora viva quem é uma flôr! Temos mestre na avenida, está visto... O Rui Neto bem merece a distinção, é bom que se acentue. A sua maneira de escrever é cativante e revela inteligência e humanidade. Mas - perdoará que lhe diga - a escrita de Fernando Venâncio tem um brilho superior cuja falta se nota um pouco no Aspirina B.
Para os dois vai um grande abraço de um admirador incondicional.

TF


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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