Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008
O vento nas asas
Quarta-feira, 10 Set, 2008

Se há festa cá na loja eu convido o Cantigueiro, pois claro, não tem que saber. Porque ele canta e toca, a grande pecha dos artistas que nunca sabem quem é o convidado, se ele se o estojo da banza? Nada disso, porque ele é seguramente dos primeiros visitantes, clientes, comentadores do 7Vidas e um dos mais fiéis, valha a verdade, até ao dia de hoje, isso sim. Mas (não há bela sem senão) se não toca tem que escrever, é isso ou votar PSD nas próximas eleições, ou então não entra, foi assim que eu pus a coisa ao meu amigo Samuel (às vezes temos que ser duros, mesmos com os amigos). Ele resolveu em três tempos;  «Ainda um pouco apardalado com o convite, resolvo, antes que caia em mim, responder rapidamente com este pequeno texto que cometi quase a correr e ainda sob o efeito da vaidade.», começa por me escrever. Depois oferece-me esta pérola de sinceridade que vão ler, dupla entrega, texto mais coração. E ainda termina como quem pede desculpa por dizer que sim: «Atendendo a que não sou escritor e a última coisa que quero é descer o nível da escrita na festa do "sete vidas como os gatos" (a sério), farás desta espécie de história o que entenderes melhor.» Pois é. É assim que os pequenos são grandes, é o que é.

 

Em baixo: "O vento nas asas"

Sete vidas mais uma: Samuel

 

 

A sua vida preparava-se para mudar para sempre, mas isso ele não tinha como saber naquela altura. Por esse tempo era um miúdo franzino, calado, de cabelo grande e encaracolado, uma barba meio improvável e uma tendência já provada para não dar os passos mais convenientes. Os últimos anos passara-os a dar alguns desses passos largos que o levavam para o desconhecido, mas que tinham a vantagem de o afastarem do lugar em que não queria estar, a igreja evangélica de que o pai era pastor, profissão que se preparava para lhe deixar como (única) herança. Era, decididamente, uma idade um pouco “parva” para assumir a aventura de ficar sem Deus, sem Igreja e na prática, sem família (“Antes quero ver-te num caixão...”), mas foi o que fez.

 

Ainda em casa dos pais, nova cidade, nova repetição de ano escolar, no íntimo a certeza de que desta vez não ia repetir os anteriores chumbos por faltas (com notas para dispensar), cenário magnífico, os Templários, a roda do Mouchão, empatia instantânea com meia dúzia de novos colegas extraordinários, a começar pelo poeta apaixonado por Allen Ginsberg, que lia os versos das cantigas de Bob Dylan muito mais vezes do que as ouvia e finalmente, um grupo de professores absolutamente sem precedentes.

 

Foi a altura da descoberta, pela mão de alguns desses professores, de cantores até aí desconhecidos, temas nunca antes ousados, a surpresa da Filarmónica Fraude (produto local), a temeridade de começar a cantar nas escadas da românica Igreja de Santa Maria dos Olivais algumas das cantigas desses cantores, sobretudo de um deles (vício que manteria para o resto da vida), ainda olhando mais para os dedos da mão esquerda que tropeçavam em acordes descobertos na véspera, do que para o generoso público de amigos e amigas.

 

Alguns desses recitais começaram a ter lugar noite fora, em casa de alguns desses estranhos professores, que de uma forma surpreendente o convenceram  de que estavam genuinamente interessados em saber o que ele pensava, coisa que nenhum outro adulto fizera até então. No dia seguinte, vestiam novamente a formalidade obrigatória numa escola dirigida por um deputado da Assembleia Nacional “marcelista”, mas já nada apagava a cumplicidade gostosamente clandestina que fazia correr mais depressa o sangue em cada cruzamento pelos corredores, em cada troca de olhar na sala de aula.

 

Com uma professora desse grupo, cultivou uma relação verdadeiramente inaudita, que incluía, por exemplo, o hábito de dar grandes passeios de automóvel. Por vezes, duravam todo o fim de semana. Num desses passeios, cujo itinerário foi mantido em rigoroso segredo, depois de muitos quilómetros que pareciam ir acabar numa visita ao forte de São Filipe para ver de uma assentada Tróia e Setúbal e ouvir histórias de Fenícios e Romanos, pararam num prédio com um ar vulgar, subiram uma escada e ela tocou a uma campainha, com ar de mistério. Abriu a porta uma senhora bonita e pequena, que com ar cúmplice disse lá para dentro “É a tua amiga de Tomar...”. Apareceu então à porta aquela figura informal, de cabelos revoltos e óculos colados com adesivo, cujos olhos riam antes do resto do rosto, e a professora, com ar de genuíno gozo “Pronto, aqui está! Este é que é o Zeca Afonso que tu cantas!

 

Ficou embasbacado (até hoje, parece...) e sentiu um frio bom nas costas, igual ao que devem sentir as gaivotas quando o vento certo resolve soprar no momento exacto em que abrem as asas.

 

A sua vida mudou para sempre.

 

Samuel

(do blogue "O Cantigueiro"



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Daniel de Sá a 10 de Setembro de 2008 às 02:15
Samuel, "esse" rapaz mereceu tal encontro. E tu cantaste-o (não é gralha) deliciosamente.


De Samuel a 10 de Setembro de 2008 às 17:36
Daniel
Obrigado! Foi de facto um encontro fundador...

Abraço


De vovó Maria a 11 de Setembro de 2008 às 10:49

pois :)!!!
mas eu sou suspeita... :)...
beijocasssss


De Ana Loura a 12 de Setembro de 2008 às 12:13
Samuel escreve tão bem como canta ou vice-versa. Ando a descobrir coisas boas nas ondas da rede...(o sete vidas, já que do Cantigueiro sou "cliente" mais ou menos assídua) graças às recomendações do Daniel.

Beijos


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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