Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008
Rehab Amy, the wine house.
Quarta-feira, 10 Set, 2008

Amy Winehouse foi a grande vencedora da noite dos Grammys, ontem em Los Angeles. Cinco, nada menos. O pior que lhe podia acontecer, digo eu. Amy tinha recebido seis indicações para os Grammy 2008, incluindo as quatro principais (Revelação do Ano, Álbum do Ano, Gravação do Ano e Música do Ano). Ganhou cinco estatuetas, saboreadas pela televisão já que não pôde recebê-las pessoalmente. O governo dos EUA negou visto à artista para cantar no Staples Center, sede da 50ª edição dos Grammys, atendendo aos escândalos habituais na rapariga. A pedido dos organizadores, Winehouse só poderia cantar numa performance televisiva em directo de Londres, onde mora e cumpre seus tratamentos anti-drogas. E assim foi.

 

Foi assim que uma perturbada garota de 24 anos acabou ontem premiada com cinco dos mais importantes galardões do show business mundial, numa noite que qualquer deslumbrado acha o sonho de uma vida. Mas que eu receio ter sido a pior coisa que poderia ter ocorrido à pessoa que veste o boneco de Amy, agora levada em ombros a ocupar uma residência no condomínio dos deuses, mas sem a mais que improvável lucidez que lhe diga ao ouvido (muitas vezes por hora, minuto, segundo) que se trata apenas de uma cedência de espaço, um aluguer caro, não uma compra definitiva de lugar vitalício. Que é preciso batalhar pelo lugar, dar mais e melhor de si a cada momento. Ou será o mesmo público que hoje lhe paga a renda a despejá-a na rua de todas as amarguras: o beco do arrependimento.

 

Aos ouvidos de Amy sopram agora as mesmas vozes que sempre se encontram ao redor de um vencedor, os que dizem só o que sabem ser do agrado de quem ouve, sem risco de contraditório. Take it for granted, dir-lhe-ão. E ela vai gostar de ouvir, pelo que if they want to send me for rehab I'll say no, no, no. Em volta de uma Amy já em desequilíbrio estão agora os pesos mortos, rapaziada do elogio, pessoal da lingua no coiso, mestres da graxa e sugadores de luxo em qualquer palhinha que se ponha a jeito. O peso de todos, num equilíbrio já de si precário, fará cair o chão e desabar o tecto do sucesso. Depois pôr-se-ão a milhas. E só na solidão do abandono das sanguessugas e dos cínicos, dos lacaios e dos bobos, dos falsos e dos merdas, é que Amy Winehouse vai encontrar um dia o seu caminho da glória. Ou não, quem sabe fica pelo caminho, como tantos outros fenómenos que não se souberam gerir enquanto tal. Que só deram pelo valor do seu talento quando já toda a gente tinha secado as lágrimas por este se ter suicidado. Será uma pena se assim for também com esta garota, pouco mais, brinquedo nas mãos das bruxas que batem palmas ao petisco da rentável novidade. E que querem tanto rehab como ela, alucinada. Amy Winehouse sem drogas? Podia até ser engraçado, mas não vendia. Amy é mais que a pessoa que canta, é o boneco escandaloso que pisca o olho à moda, que é quem paga as contas. Do encanto do espectáculo faz parte a sua própria degradação, que o público paga para ver como quem vai ao circo ver o leão comer o prior, neste moderno freak-show global.

 

Amy Winehouse é um fenómeno da pop, uma genuína alma de artista perdida numa embalagem de sofrimento e desespero. Uma voz de timbre único, uma sensibilidade selvagem e um ritmo original, próprio, inventado, criado, seu de berço. Uma eleita, inocente dessa culpa. O que ela tem que a faz genial ela não domina, não compreende, não vê e não valoriza. Para ela, tal como está, a felicidade ainda mora no nevoeiro e o amanhã não existe. Aos 24 anos, Amy segue em rota de colisão com o seu próprio futuro, embalada na asneira por não conseguir chegar com o pé ao travão da maturidade. A noite de ontem, ao carregá-la com mais cinco pesos de estrelato, só chamou mais gente para ajudar a empurrar a tragédia. Só deu velocidade ao inevitável, suspeito. Porque o espectáculo, esse, tem que continuar sempre, custe o que custar. E custe quem custar no caminho.


(11 de Fevereiro 2008, aqui)



publicado por Rui Vasco Neto
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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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