Sábado, 13 de Setembro de 2008
O dia em que Portugal foi às aulas
Sábado, 13 Set, 2008

No registo diário da actualidade nacional destes últimos doze meses, aqui no 7Vidas, o episódio da Escola Carolina Micaelis tem um lugar de evidente destaque. Não é todos os dias que acontece, afinal. Portugal inteiro foi de fininho espreitar uma sala de aulas no Porto para ver e ouvir o drama de D.Adozinda, professora de Filosofia, de ponta com uma aluna que queria à força o seu telemóvel, apreendido mas pouco pela 'setôra'. «Dá-me o telemóvel já!!», gritava uma tu-cá-tu-lá, «Olha, a velha vai cair!!», gargalhava o outro que gravava tudo à socapa para o país ver e opinar. E eu cá fui um deles, também piei a propósito, sou dado a gorjeios, como sabem. Pois aqui fica o respectivo piu, escrito a quente, mal saído da caminha onde é bom de manhã segundo o Pinho atleta. Sem ouvir os outros, sem ouvir ninguém, a não ser aquele rapaz que repetia «Olha a velha vai cair!» nas vezes sem conta que aquele filme foi visto por toda a gente. Eis a crónica que saiu.

 

Em baixo: "Olha a velha vai cair! (2)"

 

A primeira notícia que vi hoje, acordado anormalmente tarde para a informação do dia, foi este video do incidente escolar na Carolina Micaelis. Vi, revi, comentei e postei, a frio. Não fiz análise dos factos, limitei-me a expô-los e a chamar a atenção para a sua importância e oportunidade. Mas a reflexão é importante. É essencial tentar ver para além do óbvio, esmiuçar o pormenor daquilo que também está lá, sim, mas em segundo plano. É que a justa indignação gerada pela atitude da aluna, que faz o primeiríssimo plano desta situação, induz uma visão redutora do muito que aconteceu. Uma leitura que é, na circunstância, uma verdadeira tentação para este país insatisfeito com o actual panorama educativo e ansioso por um qualquer pretexto que faça saltar a tampa governamental. E já agora a ministra da Educação, claro. Ora este episódio está longe de ser um pretexto qualquer, é um argumento de peso em qualquer discussão séria sobre a realidade das nossas escolas. Que faz saltar inúmeras questões para cima da mesa, todas pertinentes e importantes, e que por isso deve ser visto e analisado sem paixão, num esforço de objectividade.

A situação filmada centra-se em duas pessoas, a professora e a aluna. Não está em causa, penso eu, qualquer dúvida quanto à incorrecção do comportamento desta aluna. Ela foi total e por demais evidente, não tem desculpa ou atenuante à primeira vista. Tudo parece começar como uma brincadeira que foi longe demais, um desafio assumido a uma autoridade que evidentemente já não era respeitada, logo à partida. Uma exibição tola de afirmação perante a turma e um exercício de cumplicidade com os colegas, que correu mal por ter sido levado longe demais. O comportamento desta adolescente de 15 anos foi mais do que impróprio: foi aberrante, nem bom nem mau. Toda a situação é em si aberrante, aliás. Os termos em que a aluna se dirige à professora, o seu tom de voz, o que diz e como diz, a postura gestual que assume logo à partida, tudo nesta garota é revelador de uma evidência que se perde no meio da algazarra: o problema tinha já começado antes de começar naquele dia. Muito antes. O problema vem de raiz e é um problema composto, são vários problemas juntos, todos graves, nem todos referentes ao universo escola. Na circunstância, não tendo sido capaz de fazer parte da solução, esta professora fez, também ela, parte do problema.

Não é dispensável um olhar crítico à actuação da professora naquela circunstância em concreto. A forma como ela lidou com a situação, como geriu o problema, a atitude que escolheu tomar (ou aquela única de que foi capaz), foi correcta? E em caso afirmativo, terá sido a mais indicada? Um duplo não seria a minha resposta, sem hesitar. Esteve longe da sensatez esta senhora, profissional do ensino, há que reconhecê-lo. Atrevo-me a especular se não terá sido um pouco vítima de si própria, também, mais que só dos outros. A sua postura, visível nas imagens, não cumpriu os mínimos de autoridade necessária para ter mão numa turma de alunos. Há nela um déficit de firmeza que se nota sem engano, alguma demissão da função disciplinadora do professor enquanto tal. Veja-se o ambiente em que tudo aconteceu, para começar; tinha tudo o que não deve existir numa sala de aulas, desde o barulho à desatenção, toda a gente de pé, risos e bocas, comentários e indisciplina geral. Sobrava confusão, faltava carisma de professor.

Logo no início, às primeiras palavras da aluna, não se viu a esperada, necesssária e correcta atitude de firmeza da parte da professora que, sendo firme e autoritária naquele momento como lhe competia, teria posto um ponto final e imediato em toda a questão. E o que vimos, em vez de firmeza e autoridade de professor? Assistimos a uma professora visivelmente intimidada e insegura a fazer o que faria qualquer coleguinha da mesma idade da garota: puxar mais, empurrar mais, discutir no braço o que devia estar resolvido na voz, ponto assente e não passível de discussão. E assim fragilizada e em queda de autoridade se expôs ao gozo generalizado da turma, um gozo que estava já presente no início, antes de tudo começar, como se pode de resto constatar pelo visionamento das imagens daquele ambiente indisciplinado, favorável ao tipo de evolução a que se pôde assistir. Confrangedor, convenhamos.

O episódio é triste mas não é para esquecer; pelo contrário, entendo que deve ser recordado este incidente. Mas só quando puder ser recordado numa análise serena. Só quando acalmar a indignação geral e baixarem quer o tom sindicalista da revolta, quer os dedos acusadores que agora se erguem todos num só movimento nacional. Com toda a politiquice rasteira que infecta de momento a questão educativa em Portugal, toda a reflexão sobre este incidente parece-me para já comprometida. Há que aguardar melhores dias. Quando o calor dos argumentos e a paixão dos queixumes derem finalmente lugar à razão e objectividade necessárias para, mais do que ver este video, se conseguir compreender de facto o que ele representa na vida de todos nós.
 
(Veja o vídeo AQUI)

 

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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