Domingo, 14 de Setembro de 2008
Caso morto e enterrado
Domingo, 14 Set, 2008

Para mim foi dos episódios mais terríveis e horrorosos da nossa história recente. Um caso com todas as características que fazem a grande miséria nacional, ontem como hoje e, por este caminho, como amanhã e depois de amanhã, nada a fazer. Aquela miséria culturalmente entranhada de que se evita falar, já que não tem remédio, dizem, é assim mesmo. Aquela espécie de sub-gente que vive no esgoto, como os ratos. Gisberta era um desses, um marginal, e isso não mudou nem com a sua morte. "Já não sofre mais", dirão os que não disserem 'Que se lixe", ou pior. De qualquer forma já passou, foi há três anos, o assunto está morto e enterrado. Não vai voltar a acontecer, se Deus quiser. Talvez.

 

Em baixo: "A primeira pedra"

 

 

Pergunta: quanto tempo leva a matar um homem a soco, ao pontapé e à pedrada? Resposta: depende. Se forem precisos treze rapazes entre os 13 e os 16 anos e se eles estiverem assim meio a brincar, sem se aplicarem por aí além, leva um fim de semana. E ainda sobra tempo. De sábado para domingo passado, um homem de 45 anos foi morto a soco, ao pontapé e à pedrada por uma besta descontrolada composta por treze garotos, os mais novos com 13 anos e apenas um, o mais velho, com 16. A besta era uma só, a besta do preconceito e do ódio, desta vez com treze cabeças, vinte e seis braços e vinte e seis pernas, números exactos. Recorde-se que a exactidão aqui é importante, já que cada um desses membros foi um instrumento activo neste massacre. Os pés pontapearam, as mãos deram os socos e atiraram as pedras, as cabeças deram o tempero do veneno desta besta que é a vergonha de todos nós.

 

Às vezes a besta tem mais cabeças, mais braços e mais pernas. O seu corpo muda e adapta-se a cada clima que encontra favorável, já desde a memória dos tempos. Esta é a mesma besta, do preconceito e do ódio, que matou judeus em Auschwitz, pretos na África do Sul, amarelos na China e vermelhos na América. É esta mesma besta que explode cafés e supermercados na Palestina, estações de metro em Londres e torres em Nova Yorque, tortura árabes em Guantanamo e queima mesquitas no Iraque. A mesma força, a mesma ignorância, a mesma crueldade, o mesmo motivo. A besta do preconceito e do ódio esmaga todo e qualquer sinal de diferença com o calcanhar pesado da bota gigante da estupidez humana. Da estupidez de todos nós.

 

Para muitos portugueses, quem morreu espancado e apedrejado no passado fim de semana no Porto não foi bem uma pessoa. Foi um maricas que era travesti e prostituto. Era um paneleiro, dirão. E era um drogado, o gajo. E dormia na rua, não se lavava, era porco. E era brasileiro. Como se vê, não era bem um dos nossos, ninguém nos pode comparar ou misturar com esse tipo de gente, com certeza, a nós ou aos nossos filhos. Este era um filho da outra, há aqui uma diferença, já se sabe. E depois isto é o tipo de coisa que só acontece com os filhos dos outros. Os tais garotos que fizeram isto, por exemplo, mesmo com treze anos, também não são iguais aos nossos filhos. Estes eram na maioria pretos, para começar. E vadios, delinquentes, com antecedentes criminais e internados numa instituição do Estado. E com certeza que eram drogados também. Como se pode ver, vista com outros olhos a coisa fica bem diferente. Tudo é relativo.

 

É uma sociedade hipócrita e criminosa esta que cada vez mais se divide entre aqueles que não dizem merda e aqueles que vivem enterrados nela todos os dias das suas miseráveis existências. É uma sociedade hipócrita e criminosa esta que tem governantes que agora se dizem ‘chocados’ com o linchamento de um travesti drogado, mas que no entanto vão mantendo zonas vermelhas de submundo dentro das nossas principais cidades, onde é possível o tráfico de droga e a prostituição, o crime e o vandalismo, a violência e até o homicídio, sem que a polícia lá entre, interfira ou queira descobrir o que quer que seja que se passa dentro dos seus limites. É uma sociedade hipócrita e criminosa esta que diz ter centros de acolhimento e recuperação para ‘menores em risco’, que continuam em risco quando confiados à guarda de um Estado que não tem a mais pálida ideia sobre o que há-de fazer com o seu presente, como se vê, quanto mais com o seu futuro.

 

É uma sociedade hipócrita e criminosa esta que sabe tudo isto, vê tudo isto e vive bem com tudo isto todos os dias de todos os tempos. Que permite bolsas de miséria onde se desenvolvem todas as doenças sociais que são verdadeiramente cancerosas para a evolução da espécie humana e nada faz para as erradicar, convicta que nada daquilo acontece aos seus filhos dilectos. Só aos filhos dos outros e aos filhos da outra como Gisberto Silva, brasileiro, travesti, drogado, prostituto, homossexual e sem abrigo, que foi assassinado no passado fim de semana na cidade do Porto. O seu corpo, em estado de adiantada decomposição, foi encontrado no edifício onde morreu, que está abandonado há 15 anos e é terra sem lei, conhecida e reconhecida como centro de múltiplas actividades criminosas. Gisberto foi morto por treze adolescentes, com 13 a 16 anos, a soco, ao pontapé e à pedrada. As investigações sobre o que realmente aconteceu ainda não começaram mas já se sabe quem atirou a primeira pedra. Fui eu. Foi você. Fomos todos nós.

 



publicado por Rui Vasco Neto
link do post | comentar

Comentários:
De Cristina a 15 de Setembro de 2008 às 17:10
Meu amigo Rui
...uma pausa para respirar. Essa é minha luta querido,devo ser louca por andar na contramão.
Eu acordo cedo e venço muitos quilometros para estar com estes travestis, drogados, aidéticos,sem rumo,ou qualquer tipo de amparo. Eles são reflexos sociais,não são o mal,são resultados,mas faz se necessário compreender as sequelas para conhecer o caminho. Juntos, também estão estes jovens,temos um numero alto de crianças drogadas aos 9 e 11 anos, e nenhum centro de reabilitação para esta nova realidade.
Uma grande farsa meu querido, um jogo de faz de conta, todos sabem onde estão, e negam a realidade.
Muitas vezes sinto-me impotente diante da situação,mas não perco a vontade de lutar ,por acreditar em sementes.
O valor de uma vida está associado nos dias de hoje a um copo descartável. Vivemos a era dos descartáveis.
Possa falar com autonomia por viver esta realidade.
Lamentável meu querido, dolorosa...
Beijos no teu coração e que venha uma proveitosa semana.


De Once a 18 de Setembro de 2008 às 10:46
passei da raiva à comoção .. passei do negar o que lia ao acreditar que sou tão responsável quanto .. passei da "indiferença" à pura admiração pela coragem com que escreve, no que escreve.
Parabéns ..
e obrigada.

(cheguei via corta_fitas)


Comentar post

Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
mais sobre mim
vidas passadas

Piu

Crónica do Brufen

Eu, pombinha.

Falando com o meu cão

Chove, eu sei, mas tenho ...

Maria da Solidariedade

Hum, daí o meu dói-dói...

Portugal sem acordo

Não fui eu que escrevi ma...

Um dos

Abençoados 94, Madiba!

Sôdade

Não vás as mar, Tòino... ...

Ofertas FNAC: pare, escut...

Reflexão de domingo, perg...

É preciso é calma, já se ...

Definição de sacrifício n...

A questão

E pronto, eis que descubr...

.......

Bom dia. Se bem me lembro...

O princípio do fim

E, de repente.

Um azar nunca vem só

Diz que é uma espécie de ...

Força na buzina!!

Bom dia. Hoje chove em Li...

Depois do homem que morde...

Bom dia. É hoje, é hoje!!...

Boga ou Beluga?

arquivos

Junho 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Abril 2010

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Restaurantes para fumadores
Consulte aqui a lista de restaurantes onde os fumadores também têm direito à vida.
sete vidas mais uma: Daniel de Sá
Um Nobel na Maia
Lagoa
Ribeira Grande
Vila Franca do Campo
Do Nordeste à Povoação
Dias de Melo, escritor livre
E se a Igreja se calasse?
O outro lado das tragédias
O meu Brasil português
A menina amarga (II)
A menina amarga (I)
Pelas cinzas de uma bandeira
O caso da Escola do Magistério
Uma confissão desdobrável
O gato e o rato
Contra a Inquisição
D.Diogo
Uma carta de Fradique Mendes
Acróstico
Monotonia
Maia (II)
Maia
Um nome acima de todos os nomes
Um palhaço de Deus
A ópera em Portugal - Conclusão (VIII)
A ópera em Portugal - Um novo estilo, Alfredo Keil (VII)
A ópera em Portugal - O Teatro de S.Carlos (VI)
A ópera em Portugal - Os Intérpretes: Luísa Todi e os Irmãos Andrade (V)
A ópera em Portugal - Marcos Portugal: vida e obra (IV)
A ópera em Portugal - Primeiros tempos / o triunfo (III)
A ópera em Portugal - Introdução da ópera em Portugal (II)
A ópera em Portugal - As origens da ópera (I)
Dois sonetos à maneira de Natália Correia
Duas garrafas de Macieira
As esponjas das lágrimas
Lição de Português
500 000 soldados
Depois do portão da casa
Auto da Mazurca
Auto da Barca de Bruxelas
Malino
Romance da Bicha-Fera
A Casa
Tremor de terra, temor do céu.
Cântico da mãe escrava ao filho morto
Passos Perdidos
A Lenda dos Reis
Daniel de Sá
Um sítio chamado Aqui
O protesto do burrinho
Sete vidas mais uma: Soledade Martinho Costa
Poema renascido
Sete vidas mais uma: Pedro Bicudo
RTP, Açores
As vidas dos outros
subscrever feeds
Sete vidas, sete notas