Quarta-feira, 17 de Setembro de 2008
"Simplesmente Nini": O Caldinho
Quarta-feira, 17 Set, 2008

O silêncio era absoluto, total, rigoroso.  Um rigor que refulgia nos olhares dardejados por D.Vanália na direcção de Nini, sentada na mesa do fundo, trocando segredinhos com a 'Amelinha do 48' (ela mora é no 27, que até é rés-do-chão e tudo, mas já não sei quem soube o número de soutien da moça e pronto, ficou até hoje) entre risadinhas cúmplices e algo provocatórias. Jean-Pierre nem se mexia, olhos colados ao écran do televisor, bebendo as palavras do Presidente, tal e qual a mãe, parecidos até no pezinho, sempre a bater, ‘do nervoso miudinho’. Cavaco falava durante a cerimónia do 175º. aniversário do Supremo Tribunal de Justiça, em Lisboa, e pedia aos políticos que  «escutem atentamente o que dizem aqueles que aplicam as leis e vivem a difícil realidade do quotidiano judiciário».

 

D.Vanália acenava com a cabeça, olhos em alvo. Ao seu lado no sofá, Libaninho fingia ler a TV7dias mas não perdia pitada do discurso presidencial. Achava a voz de Cavaco “muito sexy, por acaso”, repetia, sempre que o Presidente falava, já ninguém o podia ouvir dizer aquilo, vezes e vezes sem conta. «Ó Libaninho, caramba, o homem é belfo e tudo», picava o Fernando da drogaria, «Ele é sopinha de massa, ó pá, é sopinha de massssssa», sibilava, feito  provocador. Libaninho esticou o dedo médio da mão direita na sua direcção e a coisa já morria ali, por entre as gargalhadas dos restantes, quando Nini deu um gritinho lá da mesa do fundo, toda excitada e aos pulinhos: «Olhem, olhem ali, ele está a falar dos juízes, deixem ouvir, ai por favor deixem ouvir, deixem lá..». D.Vanália estava estupefacta e já ia perguntar “que diacho quer esta agora ouvir dos juízes”, mas o Presidente seguia o seu discurso no salão nobre do Supremo Tribunal e a hora era de silêncio. Cavaco salientava agora que se exige «um alto sentido de responsabilidade» aos juízes e lembrava que «os magistrados dispõem de um imenso poder sobre a vida dos cidadãos e, além disso, gozam de um prestígio social que os torna modelos de comportamento para todos nós». Nini gritou outra vez, mais alto agora: «Ouviram, ouviram? Ouviram? A mãe não ouviu?», perguntou na direcção da sogra, que lhe respondeu de pronto: «P’ra eu não sou tua mãe, ó lambisgóia, cruzes, credo, Deus me livre e guarde de tal sorte, olha-me esta agora!!», saltou logo a velha, toda enxofrada e benzendo-se três vezes, de polegar esticado; «Mas olha lá, ó rapariga, o que é que uma desmiolada como tu quer agora saber da vida dos juízes e lá das obrigações que têm ou deixam de ter, tu não me dizes?» Nini fez um olhar perdido e um sorriso lânguido para explicar, compondo um beicinho de falsa vergonha: «Ora, (ai Jesus!), eu sempre sonhei casar com um juiz, eles é que mandam e têm todo aquele poder, toda aquela autoridade e tudo e tudo… é tão sexy... e as tochas, ai as tochas, tão elegantes que eles ficam, todos de preto e com aquilo a esvoaçar lá atrás, a dar-a-dar, tão giros, sei lá...».

 

Nini embalava agora, entusiasmada com as próprias palavras, fazendo um esforço notório de raciocínio, por demais evidente no franzir da testa e na sua expressão concentrada, laboriosa. «Ainda agora o Cavaco estava a dizer que os juízes têm muito prestígio, não ouviram? Prestígio, que é coisa que por aqui falta e não é pouco… cala-te boca! Eu é que sei..», atirou, olhando de soslaio para o marido, que folheava entretido a revista de Libaninho, pouco interessado nas ideias da mulher, que continuava, imparável: «E eu nasci para ter prestígio, uma mulher como eu não veio ao mundo para andar para aqui da cozinha para a sala e da sala para a cozinha, com os homens todos a olharem para mim daquela maneira, daquela maneira… sabes, querido, 'daquela' maneira?». Jean Pierre nada, nem ai nem ui, olhos em baixo e presos nas fotos de Ronaldo e Nereida numa praia de Espanha. «Ai!, que é tão boa, caralho!», saiu-lhe de repente, sem consciência que pensava em voz alta, nem que a mulher tinha falado antes e com ele, ainda por cima. D.Vanália arqueou as sobrancelhas, mas não moveu um músculo na sua expressão impassível, que mulher séria não tem ouvidos. Mas Nini, que bebia um copo de água, engasgou-se de tal maneira que cuspiu tudo, de jacto, para cima de Libaninho, coitado, que deu um grito tão histérico e tão alto que até o gato de D.Vanália saiu disparado pela janela da cozinha julgando que chegava a ASAE. «Ai, mulher, tu olha lá isso que me encharcaste toda, filha», gemia Libaninho inconsolável, ruminando “Grande vaca!” de si para si, enquanto Cavaco finalizava na televisão: «Qualquer ofensa à dignidade e ao prestígio do poder judicial constitui uma ameaça grave para a democracia de qualidade a que aspiramos».

 

D.Vanália meneava a cabeça, mais uma vez, já indiferente ao episódio da água e com expressão pensativa. «Que foi, mãe?», aproveitou logo Jean Pierre, que já lhe conhecia aquele olhar e gostava de discutir política com a mãe, que tinha sempre todas as respostas que ele gostava. «Olha, filho, o que foi é que está-se aqui a preparar um caldinho que fachavor, tu vais ver se não», começou a velhota, contando pelos dedos: «Repara, já anteontem foi o Procurador, aquele Pinto Monteiro, que veio dizer quase a mesma coisa: «Oiçam quem aplica as leis, porque quem aplica as leis é que sabe os resultados», não te lembras, que até tu disseste que ‘aplica’ lá nos Açores era outra coisa, que já não me lembro, não foi?» Jean Pierre tossicou, logo vermelho. A velha continuava, sempre a contar pelos dedos que ia encolhendo; «Aquele das polícias, aquele com cara de fuinha, como é que ele se chama, ai…o Pereira, não é Pereira, esse também está sempre a queixar-se e a queixar-se, até o Cavaco já se zangou e tudo, não te lembras?» Nini sabia aquela, e também queria entrar na conversa, estava farta de estar de fora: «Foi, querido, lembra-te lá, foi por causa daquele atraso..» Libaninho, que tinha saído por uns instantes para tentar secar as calças à frente, porque a humidade o incomodava, chega mesmo a tempo de ouvir as últimas palavras de Nini. «Outra vez, caramba? Mas vocês não fazem mais nada? Parecem coelhos, sinceramente! E agora vais fazer o quê, ó minha parola, não sabes enrolar-lhe ‘aquilo’ naquelas camisinhas? Vê lá, se nunca ouviste falar de preservativos, se calhar…», disparou, deixando Nini à beira de outro engasganço, mesmo a seco. «Ai, rapariga, está já calada pr’aí!», riu D.Vanália, consolada de ver a nora à nora. «Isto está para aqui a armar-se é um grande caldinho, oiçam o que vos digo que isto é sério e eu já sou velha, já vivi muito, já vi muito», insistiu, ainda concentrada no seu pensamento. «Deus nos livre se houvesse agora um crime daqueles violentos, sabem?, um daqueles assaltos, ou a um banco ou assim, mas que (salvo seja, Deus me perdoe e a Virgem Santíssima!) sei lá, fosse assim mesmo muito, muito grave, sabem? Pois olhem que eu tenho a certeza que esta gente está toda tão doida que aconteça uma desgraceira dessas que iam aproveitá-la até ao tutano, filhos, até ao tutano! Não querem eles outra coisa, está tudo ansioso para dar ao gatilho como nos filmes de cóbóis. E a gente acabava era numa ditadura num instantinho, isso é que era, mas só depois de muito morto, muito morto, muito morto. Oiçam o que esta velha vos diz! Está para aqui a armar-se um grande caldinho em Portugal. Oiçam bem o que esta velha vos diz.»

 

(lá continuar continua, não se sabe bem é quando, nem como, mas pronto)

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De vovó Maria a 17 de Setembro de 2008 às 08:39

lindo! corrosivo! brilhante!...

:))))!!!!...

está a ver Rui, voltei ! daqui não saio, daqui ninguém me tira :)!
beijocassss


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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