Quarta-feira, 17 de Setembro de 2008
Postal Portugal (3)
Quarta-feira, 17 Set, 2008

A mulher era irritante, convenhamos. E o puto era uma peste de encanto, hiper activo, lindo de morrer. Contei trinta e dois 'tá quieto' e doze 'apanhas!' em poucos minutos, mais um menos um. Ele saltava para aqui, mexia ali, gritava acolá e aporrinhava o juizo daquela mulher vestida nem bem nem mal, penteada nem bem nem mal, quase camuflada na selva dos dias. O garoto saltitou no passeio à minha frente uns bons metros, de um lado para o outro, de trás para a frente ao ritmo do aviso constante da mãe. Com o jardim à vista não resistiu e atravessou sem dar tempo ao grito materno. Já tinha chegado ao outro lado quando o grito se fez ouvir, tão alto que o fez estacar. E bateu-lhe por certo a enormidade do erro, tantas vezes repetido, não se atravessa a rua sozinho. Hesitou nas pernitas bambas, mas a obediência veio com a consciência. Largou a correr de volta para junto da mãe.


O carro apanhou-o de raspão, mas bateu forte. Partiu-se contra o lancil do mesmo passeio onde queria chegar. Veio a vizinhança, veio o INEM, veio a polícia e veio o fim da tarde com aquela mulher enrolada num canto, perdida em si mesma, ausente da vida, casaco e chapéu do filho na rodilha das mãos e a repetir a mesma frase, vezes sem conta e a todos os que se chegavam. «Nunca fiz nada de jeito, nunca. Nunca fiz nada de jeito nesta vida». Ouvi duas vezes, que não tive tempo de fugir da segunda. Mas ainda lhe vi, de relance, os sapatos velhos e cambados, e o olhar com um vazio de mil mundos.


A mulher era irritante, convenhamos. E o puto era uma peste de encanto, hiper activo. Lindo de morrer.

(26 Janeiro 08)

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Daniel de Sá a 19 de Setembro de 2008 às 01:42
Rui, este texto foi um daqueles que nunca esqueci. Mas voltei a lê-lo. Quando ouço a "Romaria", da Elis Regina, também faço isso: repito quase sempre. Sobretudo para ouvi-la dizer isto:
"Como eu não sei rezar
Só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar,
Meu olhar."


De vovó Maria a 19 de Setembro de 2008 às 16:46

Rui!

estou como o Daniel de Sá. este post, foi dos primeiros que li aqui no "sete vidas...". ficou gravado para sempre!
passei a visitá-lo religiosamente.
obrigada!
beijocasssss


De vovó Maria a 19 de Setembro de 2008 às 16:50

queria dizer: ficou-me gravado... e se calhar até queria dizer mais coisas, só que não sei... :)!...


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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