Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008
'Bora lá conversar, então.
Quarta-feira, 24 Set, 2008

Não foi ontem. Foi cedo demais que dei por mim a palmilhar carreirinhos atrevidos de dúvida permanente, mais e mais distantes da estrada da razão a cada zig neste entroncamento de tentação, a cada zag naquela encruzilhada do dever, depois outra, e outro, e outra e muitos e muitas mais sem ver uma única tabuleta, que fosse, a dizer 'Vai por aqui, lembra-te do Régio!', ou simplesmente 'Razão: sempre em frente, boa viagem', por exemplo. Nada, nem uma para amostra, há kilanos sem fim. Só aquelas do 'Se conduzir não beba', kompensans no Biafra, úteis e alimentícias como tremoços, na circunstância. E lá estou eu à toa, aqui e ali, que é como quem diz aqui e aqui, hoje como ontem a ponderar seriamente se não estarei perdido de vez desta vez, mais uma vez, longe do longe da razão. E pior, muito pior: irremediavelmente perdido da fé. Bem fodido, em resumo.

 

Quem achar que a fé não é perdida nem achada em assuntos da razão está pior que eu e perdido de todo: é tolo sem regresso. Para muitos e mais sábios que eu e esses, o critério supremo da verdade, determinante em todo o decidir, não é outro senão o dogma, a revelação divina, a vontade de Deus. Acima das exigências próprias da razão está uma instância meta-racional, cuja autoridade se aceita porque sim e não se discute. A razão serve como afirmação de fé e pronto. Ora eu e a fé andamos como que desavindos, se ela ziga eu zago, no mais das vezes, dorido de múltiplas expectativas frustradas. Culpa minha, seja, não dela ou d'Ele. Logo, se é por aqui a razão, está visto que estou em trabalhos.

 

Longe dos altares, o racionalismo puro e duro também não me ajuda grande coisa, diga-se de passagem. Espalho-me logo ao imaginar o meu raciocínio como um processo discursivo e lógico que analisa por etapas e com pinças, carimbando 'verdadeiro', 'falso' ou 'provável' através de um mecanismo de rodas dentadas que chiam no Verão, secas e sofridas do calor. É que a imaginação é o oposto da razão, para os racionalistas. E a fatiota cartesiana fica-me curta nas mangas, que todo eu sou tentativa e erro, tentativa e erro, idem, idem, embora me recuse nesta altura a comentar as percentagens de sucesso desta minha queda empirista, que tanto me faz cair. Mas é mais forte que eu, esta minha razão tão pouco razoável que me faz olhar e representar tudo não pelo que em si é óbvio mas sim pelas suas qualidades secundárias, dadas aos sentidos. E foi com esse jeitinho primoroso, com esse olho clínico apurado para avaliar as incontáveis pedras calcorreadas na calçada da minha existência que cheguei agora aqui, a este largo estreito onde se me aperta a tal dúvida de que vos falava, isto para fechar então esta nossa pequena conversa.

 

Terá sido desta, afinal, que me perdi da razão? Aceitam-se apostas, que respostas ninguém as tem dignas de ouvir. Se nem eu sei, não serão os mirones que vão saber com certeza absoluta. Por isso obrigadinho, vão para dentro, não se macem. Isto era só mesmo a gente a conversar.

 



publicado por Rui Vasco Neto
link do post | comentar

Comentários:
De Anónimo a 25 de Setembro de 2008 às 11:53
A fé, mesmo que superficial, ajuda; acreditar nos "amigos VERDADEIROS", poderia ajudar; deixar de fumar, faz bem aos pulmões; fazer amor, faz bem ao coração, mas é preciso acreditar no amor e não achar que "não é nada" ; amar e ser amigo das pessoas é bom; ajuda; ter carinho, muito carinho, abraços, beijos, é um consolo que se deve procurar e não afastar sistemáticamente; não ter vergonha de fraquejar, também é óptimo; corrigir os erros, na medida do possível, ou esquecê-los, se não tiverem correcção, alivia; trabalhar, ajuda; não é vício, é necessidade; não desconfiar das pessoas que nos rodeiam, é essencial; procurar quem gosta de nós, é URGENTE.


Comentar post

Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
mais sobre mim
vidas passadas

Piu

Crónica do Brufen

Eu, pombinha.

Falando com o meu cão

Chove, eu sei, mas tenho ...

Maria da Solidariedade

Hum, daí o meu dói-dói...

Portugal sem acordo

Não fui eu que escrevi ma...

Um dos

Abençoados 94, Madiba!

Sôdade

Não vás as mar, Tòino... ...

Ofertas FNAC: pare, escut...

Reflexão de domingo, perg...

É preciso é calma, já se ...

Definição de sacrifício n...

A questão

E pronto, eis que descubr...

.......

Bom dia. Se bem me lembro...

O princípio do fim

E, de repente.

Um azar nunca vem só

Diz que é uma espécie de ...

Força na buzina!!

Bom dia. Hoje chove em Li...

Depois do homem que morde...

Bom dia. É hoje, é hoje!!...

Boga ou Beluga?

arquivos

Junho 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Abril 2010

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Restaurantes para fumadores
Consulte aqui a lista de restaurantes onde os fumadores também têm direito à vida.
sete vidas mais uma: Daniel de Sá
Um Nobel na Maia
Lagoa
Ribeira Grande
Vila Franca do Campo
Do Nordeste à Povoação
Dias de Melo, escritor livre
E se a Igreja se calasse?
O outro lado das tragédias
O meu Brasil português
A menina amarga (II)
A menina amarga (I)
Pelas cinzas de uma bandeira
O caso da Escola do Magistério
Uma confissão desdobrável
O gato e o rato
Contra a Inquisição
D.Diogo
Uma carta de Fradique Mendes
Acróstico
Monotonia
Maia (II)
Maia
Um nome acima de todos os nomes
Um palhaço de Deus
A ópera em Portugal - Conclusão (VIII)
A ópera em Portugal - Um novo estilo, Alfredo Keil (VII)
A ópera em Portugal - O Teatro de S.Carlos (VI)
A ópera em Portugal - Os Intérpretes: Luísa Todi e os Irmãos Andrade (V)
A ópera em Portugal - Marcos Portugal: vida e obra (IV)
A ópera em Portugal - Primeiros tempos / o triunfo (III)
A ópera em Portugal - Introdução da ópera em Portugal (II)
A ópera em Portugal - As origens da ópera (I)
Dois sonetos à maneira de Natália Correia
Duas garrafas de Macieira
As esponjas das lágrimas
Lição de Português
500 000 soldados
Depois do portão da casa
Auto da Mazurca
Auto da Barca de Bruxelas
Malino
Romance da Bicha-Fera
A Casa
Tremor de terra, temor do céu.
Cântico da mãe escrava ao filho morto
Passos Perdidos
A Lenda dos Reis
Daniel de Sá
Um sítio chamado Aqui
O protesto do burrinho
Sete vidas mais uma: Soledade Martinho Costa
Poema renascido
Sete vidas mais uma: Pedro Bicudo
RTP, Açores
As vidas dos outros
subscrever feeds
Sete vidas, sete notas