Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008
Dias de Melo, escritor livre
Sexta-feira, 26 Set, 2008

Os amigos adivinham-se, cada vez me convenço mais. Seriam umas cinco da tarde de ontem quando recebi o curto escrito do meu amigo Daniel de Sá: «Não vais dizer nada acerca da morte do Dias de Melo?», queria saber. Saiu-me um palavrão irrepetível. É que eu estava há horas e horas à roda da cauda, folha em branco, sem saber o que fazer e dizer. Desde que vi a notícia, anteontem. Não porque me faltem palavras, arranjam-se sempre; e juntando uns espargos frescos até compõem um raminho decente e a coisa passa, que eu sei. Mas havia dois factores inultrapassáveis. O segundo é a vergonha na cara que vou tendo, enfim, mais ou menos, não me passa pela cabeça alinhar no Manchester na vez do Ronaldo. E o primeiro, razão de ser do segundo, tem a ver com o respeito que é devido à verdadeira amizade entre dois seres, não aquela da palavra fácil, mas a outra, das (muitas) horas difíceis. Como era a de Dias de Melo e Daniel de Sá, dois nomes grandes da literatura nacional nada e criada nos Açores. Chutei de volta, disposto a implorar. Mas não foi preciso. É grande, o meu amigo Daniel. E sabe que eu choro com ele a perda comum a nós quatro, minha, dele, da nossa terra e da nação imensa da língua portuguesa.

 

Em baixo: "Dias de Melo, escritor livre"

Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

O remo que Dias de Melo não usou por profissão não terá feito falta na vida dos baleeiros do Pico. Alguém o terá manejado por ele. Mas a sua escrita não poderia ser substituída por nenhuma outra, por nenhuma de outro.

 

A minha admiração por ele vem do tempo em que eu era ainda um rapaz a sonhar que haveria de escrever umas coisas. Depois, na idade adulta, o destino juntou-nos numa grande amizade. Eu disse-lhe um dia que, felizmente, a literatura não era como o desporto, em que só há um vencedor. E lembrei o combate de Rocky Marciano com Joe Louis, em que, depois de Rocky ter vencido, voltou as costas ao adversário tombado no chão. Alguém o censurou por essa atitude deplorável. Mas ele, para quem Joe Louis fora um ídolo, respondeu que o fizera para ninguém ver que chorava. 

 

Dias de Melo nunca teve de provar que era mais forte do que eu. E eu nunca tive de sentir a angústia de sair derrotado ou de tentar derrotar um bom amigo. Ele fizera de mim seu confidente. Nas muitas horas que passávamos ao telefone, contava-me e recontava-me histórias do seu Pico, dos seus baleeiros, de trancadores lendários, de mares embravecidos, de vidas em risco constante. E falava-me dos livros que ia escrevendo e dos que pensava escrever. Dizia-me, nos últimos tempos, que só queria conseguir mais um. Não conseguiu. 

 

Dias de Melo ficará para sempre conhecido como o escritor das baleias e dos baleeiros. Nenhum baleeiro de Dias de Melo será jamais enterrado no chão do esquecimento. Ele garantiu a todos a perenidade da vida na memória das gentes. E, tal foi a força da luz que lançou sobre o palco da vida dessa gente do seu Pico, que como que se fez uma espécie de penumbra a respeito da baleação que houve em todas as outras ilhas dos Açores.

 

Mas Dias de Melo foi muito mais do que isso. Onde houvesse uma causa justa a defender, uma injustiça a combater, aí estava presente com a sua palavra iluminada e iluminadora, com o seu talento de escritor reconhecido como grande, enorme, sem precisar de peregrinar pelas “capelinhas” onde se decide o mérito na capital da Pátria e da cultura portuguesa.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Samuel a 26 de Setembro de 2008 às 12:53
Vir agora eu (pretenciosamente e de ouvido) acrescentar uma palavra que fosse, seria uma grande parvoíce.
Belo texto, Daniel!

Abraço


De Samuel a 26 de Setembro de 2008 às 19:05
Pretensiosamente, pretensiosamente, pretensiosamente, pretensiosamente, pretensiosamente, pretensiosamente, pretensiosamente, pretensiosamente, pretensiosamente, pretensiosamente, pretensiosamente, pretensiosamente, pretensiosamente, pretensiosamente, pretensiosamente, ad nausea.
Há cada uma!...


De Rui Vasco Neto a 26 de Setembro de 2008 às 19:38
sam,
quando pensares recorrer ao cilício avisa, hombre! Tenho um chicote de três pontas que faz o mesmo efeito e está novo em folha.
pretenciosamente teu

rvn


De Ana a 26 de Setembro de 2008 às 15:20
parabéns pelo blog. excepcional :)


De Rui Vasco Neto a 26 de Setembro de 2008 às 19:39
ana,
dois obrigados, um meu e um do Daniel, estou certo.


De Azoriana a 26 de Setembro de 2008 às 15:44
Não somos obrigados a conhecer toda a gente nem toda a gente é obrigada a conhecer-nos. O que importa é que nos vamos conhecendo e "morrendo" cada vez que a morte trava o viver de cada um.
Por via da internet vim cair nesta prosa e mesmo que não conheça bem os intervenientes basta-me saber que escrevem bem seja por vida ou morte.
O que seria, hoje, de mim se não fossem estes encontros que, infelizmente, já foram muito tardios. Da morte saímos para outra Vida quando a de cá é bem cumprida. Há pessoas que a cumprem bem nem que seja pela doçura dos escritos que podem (ou não) corresponder à plenitude.
Feliz daquele que tem tempo de ter tempo de ler o que dele se escreve ou diz, mesmo que contem muitos anos...
Bem-haja quem assim escreve de uma forma que nos impele a comentar.
Cumprimentos


De mpc a 26 de Setembro de 2008 às 15:49
daniel de sá,
não sou lamechas e não raras vezes discordámos no aspirina, se bem se lembra. Hoje, a magnífica introdução do Rui e o seu texto sentido e doce fizeram-me chorar como uma criança. Que par extraordinário de sensibilidades!! E de grandes homens de letras.


De Cris a 26 de Setembro de 2008 às 16:22
Diante do dito com perfeição, silenciamos ,porque a voz ,pensamentos e sentimentos estão embargados. Apenas um comentário: "Dias Mello, homem sensível e inteligente, não poderíamos duvidar que soubesse escolher como ninguém seus amigos."Abraço-te Daniel.

PS. Beijos querido Rui.


De Rui Vasco Neto a 26 de Setembro de 2008 às 19:42
cris,
muitos, na volta.


De Corrêa Simões a 26 de Setembro de 2008 às 19:53
Senhor Daniel de Sá: os meus parabéns sinceros por mais este artigo impressionante e revelador da sua enorme estatura literária. Sigo a sua participação aqui no blogue do senhor Rui Vasco Neto, que eu muito admiro também, como ele sabe. E não é a primeira vez que digo que é um prazer assistir ao resultado final do trabalho dessa dupla.
Cá estarei para a próxima de muitas, espero.
Os meus respeitosos cumprimentos aos dois.

A.Corrêa Simões


De Anónimo a 26 de Setembro de 2008 às 21:22
grande, grande texto!!!


De Daniel de Sá a 26 de Setembro de 2008 às 22:41
Ó meus amigos, sinto-me deveras embaraçado. Mas com um embaraço "gostoso", como diria qualquer brasileiro, a Cristina, por exemplo. Mas, sinceramente, (vinco o sinceramente) creio que prestastes demasiada atenção à "pintura" esquecendo que o mérito maior foi do "modelo". Se eu tive o privilégio de ter a amizade incondicional do Dias de Melo, poderia acaso ser menos do que sincero ao recordá-lo? E o que mais contribui para a beleza de qualquer texto, pintura ou canção (já o disse aqui uma vez) é o tema e a nossa relação de amor com ele.
Obrigado a todos. Abraços.
Daniel


De Saci a 27 de Setembro de 2008 às 22:53
Daniel

Nada de agradecimentos precoces. Faltavam os meus parabéns. Está excelente.

Pronto, agora pode ir para o palco agradecer :-))


De Daniel de Sá a 29 de Setembro de 2008 às 01:31
Amiga Saci
Para palco, basta-me uma espectadora só. Ou um espectador. Tê-la a si é um privilégio, pode crer. Por isso a minha vénia vai neste momento para si somente. Muito reconhecido.
Daniel


De Claro que o texto está Ana Loura a 3 de Outubro de 2008 às 23:13
Claro q o texto está...pois se é do Daniel. Dias de Melo foi a minha primeira paixão açoriana, faz agora 28 anos, outras paixões assolaram o meu coração, Daniel é uma das últimas. Leiam Dias de Melo, é a única homenagem coerente que lhe poderemos fazer, lê-lo e divulgá-lo. Leiam, também, Daniel de Sá. Estes pequenos textos são apenas amostras de como é bom lê-lo.

Abraços marienses


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