Sábado, 4 de Outubro de 2008
Pacheco Pereira e o círculo quadrado
Sábado, 04 Out, 2008

Ouvi-o com toda a atenção. Ouço-o sempre com muita atenção. É até onde vai a minha reverência por qualquer personalidade que produza pensamento de valor disponível para a apreciação dos meus sentidos (definição possível para 'intelectual', na circunstância, palavra que tanta ameaça parece carregar quando a si aplicada, tamanha a pompa, prosápia que irradia o seu carisma pessoal). Ouço e penso no que ouço. Com aquilo que diz vou concordando ou discordando, o normal com toda a gente, mas consigo tem um mas: a habitual fiabilidade da sua música faz com que eu queira sempre ouvir a letra, a cada canção nova que o senhor lança no mercado opinográfico. Hoje não foi excepção.

 

Acabei de ouvi-lo, aqui, numa colectânea que juntou 'Casas da Câmara' (não, não dos Câmara fadistas), 'Blogosfera' e 'Crise internacional', tudo acompanhado à virtude em repetidos trinados, ad nauseam. Para mim, ao ouvi-lo, é Deus no céu e o senhor na terra, os dois limpos de pecado. O que não me choca por aí além, cada um tem que ser de alguma maneira, o senhor é assim e pronto. Eu cá tenho um amigo que pesa dez arrobas e usa um casaco verde claro porque jura que fica mais magro com ele, puxa-me para conferir ao espelho e tudo, 'tás a ver? tás a ver?' E eu, que até nem vejo, nem por isso gosto menos dele. Não emagrece um grama o respeito que lhe devo. Na boleia desta imagem devo dizer-lhe que, à luz do acabei de ouvir na SIC, o meu caro Pacheco Pereira já esteve bem mais magrinho aos meus olhos. Deixe-me acabar, não me interrompa já. Esse seu impulso é bengala batida, permita-me antena que chegue para me explicar ou seguirei fatalmente na conta dos que o 'insultam de tudo na blogosfera', como acabou de dizer na SIC. Não é essa a minha intenção, e nem lhe peço que acredite: proponho-me demonstrá-lo, aqui e agora, com a irrefutabilidade que me nega o meio audiovisual onde tudo é fugaz e já passou, ninguém se lembra exactamente como foi. Deixe-me blogosferar, sem favor.

 

Vou começar por poupá-lo a uma pergunta idiota, não me agradeça que posso ter outras. Não vou querer saber se pertenço aos 99% que não prestam ou ao umzito que se aproveita desta blogosfera que assim dividiu porque sim, suponho. A menos que disponha de mais um 'insite', como os que citou, que lhe permita esse pesar a olho. É-me tão indiferente o lado em que me coloca nesse partir, como a si lhe será indiferente o que eu penso do seu cabelo, casaco ou óculos, se usasse. Que não usa, quando fala. Mas já não me é indiferente, nada mesmo, a opinião que emite sobre a blogosfera, o meio que uso neste momento para lhe dirigir estas linhas, nem o tom que usa para o fazer. É que é graças a ele que eu tenho o país a espreitar por cima do meu ombro e a ler o que agora lhe digo  -   alto, que digo eu? Tenho o mundo inteiro a poder fazê-lo. Sabe? Aquela coisa de usar isto como janela? Pois é, isso mesmo, queira o senhor ou não esta é a minha janela. Aqui sou o abrupto que posso, enfim, raramente, tento. Mas sou, aqui. Tanto quanto o senhor, por princípio. O ajuizar do bairro, do país, do mundo, em função da obra feita e aqui exposta  é que faz o resto e decide onde pousar mais vezes os cotovelos para ler a vida que passa. Não o senhor, nem outro ser superior qualquer. Ao contrário de si, eu acho que sempre tem mais poder o secretário de Estado.

 

Dirá o senhor que ontem não disse o contrário, com dois pigarros disparará que disse até que 'não sacrificaria esse um por cento por causa dos tais noventa e nove'. E se a coisa ficar feia (nunca com um pixote como eu, mas imaginemos assim um peso-mais-pesado) puxará dos galões que não lhe faltam, justíssimos.  E com olhar matador matará a discussão com argumento eficaz, porque literalmente verdadeiro. Foi de facto isso mesmo que o senhor disse, usando essas exactas palavras para que todos nós percebêssemos bem que era o exacto oposto o que queria que recordássemos. Chapeau, maestro. Mas de palha, barata, não autêntico e de feltro. Quim Barreiros faz o mesmo a cantar a garagem da vizinha.

 

Eu vi e ouvi o que o senhor disse. Eu sei e o senhor sabe que eu sei que o senhor sabe que eu sei o que o senhor disse. E os dois sabemos que estas coisinhas ditas, aparentemente compostinhas, letra e música, são a razão pela qual são os bons comunicadores que se fazem ouvir e não as grandes inteligências, que no mais das vezes são gagas ou fanhosas, nasceram assim, coitadas, como o tal meu amigo das dez arrobas nasceu gordo. Nem por isso merecem menos respeito, carinho, louvor, o que quiser, mas apesar disso raramente parecem aquilo que o espelho da verdade mostra serem de facto. Haverá casos em que  até coincidem, a capacidade e a capacidade de mostrar capacidade em tempo contado ao frame. São esses os artistas da comunicação. E é por ser esse o seu caso que me parece lamentável o que ficou dessa sua demonstração de ontem à noite, sobre a blogosfera.

 

Assistir a alguém que se arroga democrata plantar a semente da insídia neste terreno onde cresce a opinião, base de toda a democracia, sem o controle que no fundo lamentou faltar, é ver o próprio rei dizer que vai nu e ainda bricar com o pirilau num espectáculo grotesco. Assistir a António Costa a fazer o mesmo, ao classificar de submundo este mundo onde já procurou suporte com o seu Costa do Castelo é pior, quase. Mas há muito que o Dr. António Costa provou ser um conhecedor da ciência do pão com manteiga, que é como quem diz a ciência de saber de que lado está a manteiga no pão que se denta à vezinha, até que chegue o almejado bife do lombo. A dentes com boa alcatra, de momento, António, o Costa do castelo alfacinha, canta de galo porque no poleiro. Triste, confrangedor, mas outros tempos virão, estou certo. Só há que aguardar, que ele vai passar por aqui.

 

Por isso já vê o meu caro Pacheco que assistir a esta quadratura do círculo para ver emergir democrata, entre os três que não vêem nem ouvem mas falam, o que se senta à direita e ontem riu da esquerda com toda a razão, é cair de quatro na pior das realidades do pensamento e da opinião crítica nacional. E não é que foi na televisão e não na blogosfera?  E não é que foi com três homens bons e não com uns quaisquer maníacos do submundo do lixo? Foi uma quadratura diferente, esta, para mim. Aquela que deixou provado, sem sombra de dúvida, que o meu caro é o círculo mais quadrado que eu algum dia vi na pele de um auto-proclamado democrata. Com excepção provável no Dr.Mário Soares.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Samuel a 4 de Outubro de 2008 às 13:53
Rui

Obrigado por teres escrito este texto!
Poupaste-me a uma enorme e inglória trabalheira... que resultaria, é mais que certo, num texto mal humorado e nunca tão bem escrito...

Abraço


De Daniel de Sá a 4 de Outubro de 2008 às 17:12
O chato do Harold Bloom decidiu quais eram os livros "ocidentais" que valia a pena ler. Mas não consta que tenha posto o seu próprio no "Cânone".


De LNT a 4 de Outubro de 2008 às 21:13
Pois é, Rui Vasco

Eles não gostam do que não controlam mas esta é a nova vida a que estão sujeitos os "pigs" e os do "submundo".

Como diria o Vitorino (António, não o cantor), habituem-se!

Abraço


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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