Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008
Fim de festa
Segunda-feira, 06 Out, 2008

E pronto, acabou-se a festa. Deste ano, que para o ano há mais, espera-se. Neste fim de luzes, para o bicar das migalhas e toda a má-língua que der tempo, ficou um dos da casa. Não desta casa blogosférica, apenas, esta peça é de outras artilharias, coisas mais antigas, quando ainda se lutava à chapada e toda a tecnologia de ponta tinha que levar uma pinga de óleo de vez em quando, senão chiava e não fazia pum. A nossa amizade vem da única tropa que eu fiz, um exército de amigos, todos da mesma arte, um batalhão pequeno e só de generais, (tudo sem álcool, não fumadores, digo, anacoretas, cenobitas, ascetas) que reinventou o conceito de tropa macaca ainda antes da ASAE, o que é notável, eu acho. Pois foi  exactamente um desses artistas que se deixou ficar para o final, diz ele porque só agora "me dá prazer e vontade de escrever", calculem. Quando o que ele quis na verdade foi olhar-me nos olhos e dizer-me um mundo de palavras que ninguém mais vai ler, ficam como vieram, "nos esconderijos de luxo das amizades vividas". Mas que eu vi e bebi com a contenção de sempre, que ele tão bem conhece. É o jornalista Nuno Miguel Guedes o meu convidado de hoje, nesta hora do fecho, neste fim de festa que foi rija. Não chegou atrasado, ele esteve por cá sempre, como uma banda sonora ou um par de olhos azuis. Só conseguiu foi pô-lo para fora agora. O texto, claro.

 

Em baixo: "Fim de festa"

Sete vidas mais uma: Nuno Miguel Guedes

 

 

Gosto, gosto desta hora do final de festa, cadeiras por arrumar, um ou outro folião náufrago e desesperado, à procura de uma felicidade que acabou na última música, no último copo. Gosto desta hora incerta, num limbo feliz entre o que foi e a nostalgia provável da lembrança. Gosto desta hora, as luzes e os sorrisos a apagarem-se devagar na memória, os rescaldos serenos e afectivos.

 

Só nesta hora portanto, com os vestígios dos confettis de palavras ainda espalhados pelo chão, me dá prazer e vontade de escrever. Só agora, meu amigo Rui, blogger de sete vidas e mais que venham, me apetece carregar as linhas de amizade, que é tudo o que mais me diz. Podia falar-te da realidade, do mundo feio feito por nós, podia escrever sobre a natureza humana de que ambos desconfiamos mas para a qual tu, suspeito, ainda entrevês salvação. Oxalá tenhas razão.

 

Não. Neste fim e começo de festa – o primeiro aniversário do blogue – só me ocorre egoisticamente escrever sobre o amigo que regressou estampadinho nas letras que dedicadamente põe por ordem todos os dias, para gozo dos nossos sentidos, para que muitas vezes possam mesmo fazer sentido. Porque há gente a sério atrás dos teclados, e nestas vidas «ponto-com», onde escolhemos fazer-nos passar de vez em quando, neste sete vidas reconheço uma, inteirinha e sem corantes ou conservantes – a de quem a escreve. Não sei que maior ambição se possa ter.

 

Podia falar de mil histórias, amigo Rui, amigo leitor. Mas essas permanecerão nos esconderijos de luxo das amizades vividas. Mas para que ninguém fique com inveja, eu garanto: quem passar por aqui e se deter no que é escrito fica a conhecer quem o escreveu.

 

Quanto a mim, e antes de me expulsarem da sala: parabéns pelo blogue, e muito prazer em reconhecer-te. 

 

Nuno Miguel Guedes

(blogger do Tradução Simultânea)

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Daniel de Sá a 8 de Outubro de 2008 às 02:08
Podemos esperar alguma das outras 999 histórias? É que o aperitivo fez apetecer mais.


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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