Terça-feira, 14 de Outubro de 2008
Crónica moderna
Terça-feira, 14 Out, 2008

O homem moderno  é esperto. A mulher moderna é esperta. Ninguém se deixa enganar assim às boas, nos dias que correm, nem homens nem mulheres nem os outros. A vida moderna é assim, gente informada e atenta, olho vivo e sempre mais aberto que o do vizinho do lado, essa besta ignorante. Para isso temos regras que nasceram, criaram-se sozinhas, enfim, praticamente, caíram do céu das coisas pela boca dos iluminados, como um passe de aceitação social que nos orienta e abre portas neste vale de lágrimas, a caminho de um final mais luzidio e confortável, tipo forro de caixão. Também mais caro, naturalmente, não se estranha. Mas também quem vai ligar a despesas, numa altura dessas e com a crise que vai para aí? Afinal, ninguém compra nada que não seja de marca, para começo de conversa. E a questão nem está em se é melhor ou pior o que é mais barato, nada disso, o ponto é outro. A questão é que vale ouro, para a maioria das pessoas, a diferença de poder ter aquilo que a maioria das pessoas não se pode dar ao luxo de sonhar com, sequer. E eis quanto basta para a maioria das pessoas, algo tão fantástico que vale bem aquilo que se paga a mais e que a maioria das pessoas não pode pagar. Só se vive uma vez, caramba.

 

Terão os mais atentos talvez reparado que estamos aqui aparentemente em presença de um todo com duas maiorias, de compatibilidade verdadeiramente embasbacante, convenhamos. Há a ideia generalizada de que os todos se dividem, quando não equitativamente, em duas ou mais partes desiguais cuja soma nunca excede o todo original, nunca. Enfim, quase nunca, não quando o assunto é o dinheiro gasto naquela qualidade de vida que vem com marca na etiqueta, guito esbanjado nesse conforto interior que nos dá poder comprar a inveja dos outros, no doce prazer de levar para casa a cobiça alheia naquilo que é nosso e é caro e por isso é bom, muito bom, o melhor dos melhores. Porque aí a realidade está à vista e não tem discussão: a maioria das pessoas exibe uma vida que a maioria das pessoas não tem vida para ter nem nunca terá. Ponto final. Mas apenas parágrafo, que graças aos milagres do crédito, esse deus recente, o homem moderno faz com o dinheiro aquilo que só Cristo fez com os pãezinhos mas pouco, que os tempos eram outros, mais dificeis. Menos modernos, digo eu.

 

Entusiasmado, eu cá estava até capaz de ir um pouco mais longe na matemática saloia desta breve análise e acrescentar aqui uma terceira maioria, de semelhante compatibilidade neste aferir social: a maioria do mau gosto, essa imensa, imensa maioria dos nossos semelhantes, salvo seja, evidentemente. O que se explica sem grande dificuldade, estou em crer. Indefesa perante a quantidade e diversidade da oferta que existe neste céu das coisas que é o viver moderno, a esmagadora maioria das pessoas desenvolve um tão apreciável grau de estupidez que, na esmagadora maioria das situações, não distingue a qualidade sem que a avisem primeiro em três vias seladas e com antecedência, se faz favor. Eu cá apostaria sem medo que uma larguíssima maioria das pessoas que alimentam o comércio internacional em geral (e o chinês em particular) seria bem capaz de passar três dias e três noites numa fila de dez quarteirões, depois de uma boa campanha publicitária, para comprar uma genuína e fumegante poia de merda caseira que ostentasse a etiqueta dourada da moda e fosse, claro, uma edição limitada e assinada pelo autor. Vale a aposta? Eu se fosse a si pensava antes de aceitar o repto. Ou, melhor ainda, aproveitava para ver este video que lhe resolve de vez o assunto e as dúvidas.

A história conta-se em poucas palavras. O Washington Post teve uma ideia curiosa, "um debate sobre valor, contexto e arte". Depois veio a experiência, genial. Joshua Bell, o mesmo violinista que dias antes tinha actuado no Symphony Hall of Boston para uma plateia esgotada, a 1000 dólares por cabeça, tocou no metropolitano durante 45 minutos as mesmas peças musicais consagradas, no mesmo Stradivarius de 1713 avaliado em mais de 3 milhões de dólares. Ninguém lhe ligou porra nenhuma, a mínima atenção. E ninguém é ninguém, que eu cá vi o video todinho, tudo até ao fim, outra genialidade do Post que não foi em cantigas e gravou tudo, todos e cada um dos quarenta e cinco minutos de clamorosa indiferença ao que de belo e sublime ainda se vai encontrando de vestígio de glórias d'alma humana, pequenos rastos aqui e ali, sempre a nascer, teimosamente. Mas não no metropolitano de Boston naquele dia. Pouca dessa alma passou por lá, a caminho da vida moderna. Tal como pouca teria talvez passado pelos talvez poucos que vissem a cena no You Tube mas sem legendas, sem os nomes e os 1000 dólares e os 3 milhões, mais o 'esgotada',  'consagradas', 'famoso', StradivariusSimphony Hall. Agora nunca saberemos, não é? É assim a vida, é assim o mundo. Somos assim nós, eu e você? Só aqui entre nós? Cá nada, somos diferentes, relaxe, ora pois. Vê-se logo, pá.

 

Não há dúvida, só o algodão não engana. O homem moderno  é esperto, a mulher moderna é esperta, ninguém se deixa enganar assim às boas, nem homens nem mulheres nem os outros nos dias que correm. Eu sei, eu sei, eu sei. Mas pronto, pelo sim, pelo não, faça-o por favor e como quem não quer a coisa, mas verifique sempre, mas sempre, a marca na etiqueta. Faça isso, sempre que puder, não se esqueça. Verifique a marca na etiqueta. Seja moderno.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Anónimo a 14 de Outubro de 2008 às 20:13
Não me importa o stradivarismo do violino mas, já agora, tenho pena de não saber que peça ou que autor está a ser interpretado? É que pareceu-me barroco. E, para que conste, interrompi a leitura do texto e nem sequer me apercebi do vaivém distraído dos transeuntos para me quedar a ouvir o violinista. E a arte barroca( pois estou certa de que dela se tratava) está longe de ser a minha preferida, sobretudo no que toca ( hum, "toca" parece-me oportuno) a música.
Pessoas diferentes? Pois sim. Há-as. Stravidarius à parte.


De Anónimo a 14 de Outubro de 2008 às 20:54
Há aqui mesmo, neste texto, muito desse belo e sublime de que fala.
Parabéns, sinceramente.

E.S. (?)


De Saci a 14 de Outubro de 2008 às 22:40
Rui

O texto está sublime mas isso não é novidade.

Como também, para mim, não foi novidade o resultado da experiência do Washington Post. Lembro-me de meia dúzia de justificações para isso ter acontecido mas prendo-me apenas por duas mais óbvias. Primeiro é preciso estar predisposto a apreciar algo para realmente o conseguirmos fazer. Uma paisagem, um momento, uma pessoa, um livro. A música não é diferente, certamente. Aquelas pessoas não estavam predispostas para apreciar o Stradivarius. A segunda razão que me ocorre (e está relacionada com a primeira) é que cada momento tem o seu tempo e nunca se deve atropelar um momento com outro. Para aquelas pessoas, aquele era o momento do corre-corre não era o de pararem para apreciar música. Fora de contexto, no timming errado.

Novidade para mim foi o que ouvi hoje e que até corrobora com o seu texto. Depois de terem distribuído, no meu local de trabalho, a agenda cultural da Câmara anunciando concertos gratuitos, uma colega disse: "Isto não deve ser grande coisa. Não se paga."

Claro que o homem moderno e a mulher moderna são espertos. Mas depois há os Chico-espertos.


De thaina rodrigues a 10 de Abril de 2012 às 18:14
voce esta completamente certa


De Teresa a 15 de Outubro de 2008 às 13:19
Obrigada por este post, Rui!

Li o artigo do WP todo, aos bochechos, em alguns momentos já com um princípio de lágrimas nos olhos (o ex estudante de violino que ficou nove minutos a ouvir e deixou timidamente cinco dólares), só logo à noite, em casa, poderei ver o filme.

Um beijo. Olha que temos jantar em casa do João Nunes no dia 21 de Novembro, o grupo todo, marca já na agenda.

Ao comentador de cima: todas as peças tocadas ao longo do filme estão identificadas no artigo do Washington Post. A não ser que aqui esteja apenas um excerto (não posso ver), já que na página do jornal o filme aparece fragmentado em várias secções.



De Once a 15 de Outubro de 2008 às 15:29
fabuloso texto .. análise, humor e tudo mais com que nos brinda.
Ass: alguém que não perde um concerto gratuito ;)



De sinhã a 16 de Outubro de 2008 às 16:29
crónica moderna de coisas de gente de sempre: gentalha: modernalhas. :-)


De Victória Souza Santos a 30 de Abril de 2010 às 12:52
Eu achei horrível.....eu queria saber uma cronica moderna...naum o que um autor fala de uma cônica....naum estou achando em lugar nenhum uma crônica moderna e ainda por cima tenho que achar uma crônica clássica...alguem me ajuda?????????????????


De Lara Neves Alves Silva a 30 de Abril de 2010 às 12:53
Vic eu tb naum estou achandooo nada desse negocio...q raivaaaaaa.


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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