Terça-feira, 28 de Outubro de 2008
E tudo o vento levou
Terça-feira, 28 Out, 2008

Sim, está vento. Está vento com’a porra, diz-se por estas bandas onde o soprar divino vem batendo os noventa e cinco quilómetros por hora, noventa e cinco quilómetros por hora, vai por extenso e duas vezes para que melhor sintam a ventania que me leva o chapéu e estraga a pose dez vezes por dia, contas por baixo. Já cá se sabia que Deus tem sentido de humor, afinal criou a mulher, era por isso desnecessário pandegar com o meu chapéu. Mas sempre areja as ideias, dirão os mais engraçadinhos. E digo eu que sempre faz notícia da desgraça, quase sempre de dor anónima, o que também é um ponto de vista. E assim dizendo coisas vamos conversando, o que vem sendo raro nos últimos tempos, lamentavelmente. Bons ventos tragam então os bons hábitos também de volta.

 

Regresso a Portugal mesmo a tempo de conhecer uma nova estrela dos telejornais, cintilante e emergente na galáxia ‘Cláudio Ramos’ das celebridades nacionais (há outras galáxias, montes delas, são  quase mais do que as celebridades propriamente ditas). Trata-se de um tal Gonçalo Amaral, ex-inspector da PJ que se distinguiu por numerosos insucessos de investigação (com natural destaque para os casos Joana e Maddie McCann) prestação que, junta a umas quantas chapadas nos interrogatórios que não foi possível ocultar, ditou a sua guia de marcha daquela força policial com carimbo ilegível, qualquer coisa algures entre a incompetência e o abuso de poder, tudo mais o desbocanço arrogante que lhe apura o estilo caceteiro e o revela nascido para a fama.

 

Ambos agora à solta, ele e a língua, deram entrada no estrelato civil pela porta já usada pelo insubstituível Moita Flores, esse comentador 3,4,5,6 em 1, espécie de Black&Decker do gorjeio especializado, sequim d’oiro do bitaite que vai à televisão. Pois Amaral para lá caminha a passo seguro, distinguindo-se já pela prosa esmerada onde julga e condena sumariamente tudo e todos, numa abundância de bílis que se mistura com o sangue habitual nas páginas do não menos mau 24Horas, numa parceria que ameaça piores dias, quase garantidos. Antes porém publicou um livro que traz o desaparecimento de Maddie contado às crianças e aos estúpidos que fazem o Estado português, uma edição com o sucesso comercial que se adivinhava. E hoje, como ontem e desde que começou a ser julgado por ter espancado e/ou autorizado e ocultado o espancamento de Leonor Cipriano nas instalações da PJ de Portimão que supervisionava ao tempo, fez a abertura dos telejornais desde a manhã.

 

Com ele sentam-se no mesmo banco dos réus mais quatro elementos da PJ envolvidos nas agressões brutais. A estratégia da defesa, comum aos cinco acusados, é que Leonor mente como terá mentido antes sobre a morte da filha. Quanto às fotografias que documentam as agressões, onde a mulher que cumpre prisão pelo homicídio da filha Joana aparece negra e moída de pancada, alegam os advogados dos réus que se tratam de falsificações e ao fazê-lo conseguiram que a acusação se veja obrigada a provar o contrário, diligência que esta se apressou a prometer cumprir. Eu cá já nem falo na subversão total da responsabilidade do ónus da prova que representa este advogar circense, nem discuto a possibilidade da falsificação porque outros o estarão a fazer, abundantemente. Só gostava que alguém me explicasse se a directora da cadeia de Odemira, que ordenou a sessão fotográfica e apresentou queixa dos responsáveis pelo interrogatório de Leonor na mesma hora em que a viu chegar da tal sessão de perguntas naquele estado, também está a mentir. Isso eu gostava de perceber, não só por não gostar do estilo de Gonçalo Amaral mas sobretudo por não gostar de olhar para o banco dos réus, de um lado, e para Leonor Cipriano, do outro, e ver afinal a culpa tão mal sentada naquele tribunal.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Saci a 28 de Outubro de 2008 às 21:52
Provocação:
e às vezes os fins não justificam os meios?



De Samuel a 28 de Outubro de 2008 às 22:34
Deve fazer parte da "falta de condições" dos tribunais. Anda por lá imensa coisa e muita gente mal sentada p'ra caraças.


De é que já me está chegando a mostarda... a 29 de Outubro de 2008 às 12:53
Ó coitada! Afinal, ela só matou a filha!
E os polícias, uns brutos!
( até que é verdade mas às vezes nunca as mãos lhes doam....
.... e, se calhar, a receita fez falta aos mc cann !...)


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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