Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008
Justiça para monstros
Quinta-feira, 30 Out, 2008

Existe uma imensa margem, feita do equívoco mais grosseiro, entre estar absolutamente contra o legitimar da tortura enquanto instrumento de interrogatório e estar a favor de Leonor Cipriano, absolutamente ou não. A defesa dos cinco acusados de Portimão está a usá-la toda a seu favor, na esperança de que, ao lembrar quem está a acusar, consiga fazer esquecer quem é acusado, nem que apenas pelo tempo suficiente para garantir a absolvição do tribunal. O truque é fazer Leonor brilhar, dar todo o espaço à sua queda natural para cair e de caminho puxar pelo sebo da sua pessoa, onde há muito ranço por onde escolher, do biológico ao psicológico, onde tudo é ilógico e por isso lógico. Se Leonor for uma chapada para o país o país passa a perceber as chapadas dadas em Leonor, tem lógica ou não tem? Pergunte ao seu coração, só para si e guarde a resposta. Eu não a quero saber. «Quem pode defender uma pessoa assim?», perguntará o preconceito. «Mas quem diabo está a defender uma pessoa assim ou assado?», responderá quem pensar um instante apenas, dois para os lentos, até três é recuperável. Vejamos.

 

É legítimo usar tortura para arrancar confissões a suspeitos de crimes, por mais suspeitos que sejam os suspeitos e por mais horríveis que sejam os crimes? E é o critério do investigador que decide quem é quem, fazendo escola na aplicação do mesmo barro à parede do mais culpado dos culpados, tal como à parede do mais inocente de todos os inocentes, pela lei da vida? Ou o investigador nunca erra, é infalível? Ele sabe, ele cheira, ele tem a certeza, ele sente? Ele aposta que é culpado, deixem-no só trabalhar? Então e se errar só uma vez, como é, conta ou não conta? Tenha paciência? E se forem só duas? Duas vezes paciência? Por ano, por mês, por dia? Quanto é muito, em tortura? E até lá, até ao muito, é nada? Onde se traça a linha, à quarta, quinta, vigèsima chapada? Ou ao terceiro pontapé? Pronto, vamos já directos à pergunta do milhão de dólares. Digam-me, por favor, que eu quero, preciso compreender: a partir de onde passa a ser aceitável, desejável, permitido soltar o Gonçalo Amaral que há em nós quando e se deixados a sós com alguém muito, muito mas apenas suspeito de ser o autor da violação sádica de uma criança? Que até onde eu sei: até confessar.

 

Olho para Leonor Cipriano e controlo a náusea. Entrevistei criminosos em meia dúzia de cadeias, que me lembre, (com especial destaque para Vale de Judeus onde um chefe de guardas foi alegadamente suspenso porque eu entrei vestido de freira para ver o Padre Frederico, dizem, uma das histórias mais deliciosas da minha vida profissional e que um destes dias conto, está prometido) e poucos ostentavam um ar tão culpado como estes dois que acabei de citar, Leonor e Frederico. Os dois nasceram com ar de culpados, cara de culpados, pose de culpados, vida de culpados e seguramente o serão, se o forem, no mais tenebroso dos patamares do pior dos infernos na terra: a alma humana quando nasce podre. Devem pessoas assim ser confessadas a soco pela polícia? Tem mesmo que haver justiça para monstros?

 

Acredito que na falta de provas e perante uma convicção profunda, apenas comprovável por confissão do próprio suspeito, muito interrogador perca a cabeça e erre, uma vez, várias vezes até. É humano que assim seja, perfeitamente humano. O que é desumano é aprovar o erro e ainda bater pala e palmas, mesmo que ambas discretamente e em nome da Justiça. Porque essa, nesse dia, simplesmente deixa de existir.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Daniel a 30 de Outubro de 2008 às 02:06
Rui, perguntas bem do princípio ao fim. Demasiado bem para quem, como eu, veio aqui ver se acabava o dia com uma das tuas brilhantes tiradas de bom humor. Hoje estavas do outro lado, que a vida também se representa com personagens destas.
Enredaste-me na tua teia de palavras e ideias. Por isso te perdoo a pergunta fatal. Que seria a de pedir a tua opinião emocionada e não cerebral.


De Rui Vasco Neto a 30 de Outubro de 2008 às 02:17
daniel,
pois eu não te perdoo a resposta fatal a essa tua pergunta não menos: eu não sou inspector da polícia judiciária em exercício de funções num interrogatório. não me compete a emoção que me pedes.
penduro-lhe um abraço e atiro-ta daqui, arranja lá uma perguntita de jeito para cá voltares, não faz mal, pronto.
gosto de ti na mesma, afinal.


De jv a 30 de Outubro de 2008 às 19:27
Percebo a dificuldade de se assumir uma posição assertiva, mesmo preconceituosa. Mas quantas vezes neste país, infelizmente a única justiça que se faz não passa senão por umas «bolachas» aplicadas nalguma esquadra?


De ira que já chateia tantos paninhos quent a 30 de Outubro de 2008 às 21:15
Vistas as coisas em termos absolutos, nada funciona.
A apreciação dos vectores crime ( que crime?) e tortura ( que tortura?) parece-me indispensável bem como a correlação entre ambos.
O mesmo se aplica no que se refere ao "quem"( quem cometeu o crime? quem interroga?) .Não há arquétipos absolutos. Aliás, não há sequer NADA absoluto. O ÚNICO ABSOLUTO QUE HÁ É O NÃO-ABSOLUTO . Não pode, portanto, o homem fugir à sua condição de falibilidade ou, sequer, contorná-la pois que a ela está inexoravelmente condenado.
Assim , se se fizer depender todas as decisões de um processo meramente intelectual, enquanto os iluminados da razão submetem o seu e o alheio intelecto aos maiores malabarismos, continuarão a proliferar por aí muitos monstros, continuando a fazer muitas vítimas.
Perante uma onda de proporções gigantescas, serve-nos melhor a razão ou a intuição?
Fiquem a cismar nas leis da física e vão ver como depressa vão servir de alimento aos peixes.
Já ouviram, por acaso, falar de inteligência emocional, já?
Experimentem-na. É que costuma resultar!

E sim, preferia dar umas bofetadas valentes na Cipriano do que ficar com a mais pequena dúvida de que ela matou a filha.
É que, para se chegar a essa suspeita, depois de activados os tais filtros da razão e do entendimento e do esclarecimento, suspeito que muito pouca suspeita resta. E, se não há certezas absolutas ...


De Daniel a 31 de Outubro de 2008 às 01:12
Irra, que já chateia haver tão pouca gente que fale assim. Pena não vir assinado com um nome a quem eu pudesse dedicar o meu aplauso. Mas este vai, seja para quem for.


De a de cima a 30 de Outubro de 2008 às 21:16
corrigindo:
de irra que já chateia tantos paninhos quentes


De seja quem for a 31 de Outubro de 2008 às 14:06
Daniel

Aceito e agradeço com uns laivos de vaidade justificada por vir de quem vem.
A máscara, essa continua.
[Error: Irreparable invalid markup ('<br [...] <a>') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]

Daniel <BR><BR>Aceito e agradeço com uns laivos de vaidade justificada por vir de quem vem. <BR>A máscara, essa continua. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Fôra</A> o que eu escrevi insultuoso ou digno de insulto, asseguro-lhe que a tiraria. <BR>Abraço. <BR>


De só sei que não sei como o fiz a 31 de Outubro de 2008 às 14:15
Ó Daniel, aí foi uma involuntária charada.
( Vingançazinha subconsciente por aquelas trocas de letras? Hum , talvez. Mas juro que não sei onde carreguei para assim ter saído! )


De bagunçeira a 31 de Outubro de 2008 às 17:00
minha cara : não se esqueça que a escrita é um BI ou uma impressão digital ou lá que diabo é !!! LOL


De deixa-me então adivinhar a 31 de Outubro de 2008 às 17:14
Bagunceira

( e não se esqueça que quem fala assim é gago, ou encosta ).


De olha que gaita a 31 de Outubro de 2008 às 19:56
bagunçeira é sem cedilha !!!!!! Gaita !!!!!

Não encosta não senhora
E veja, também não gagueja,
Já vejo é chegar a hora
Disto acabar em peleja

ihihihihihihihihihihihih


De grrrrrrrr a 1 de Novembro de 2008 às 00:22
Pois se vai haver peleja
Que venha já sem demora
Que eu tenho pra quem deseja
Ambas as garras de fora.


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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