Sábado, 8 de Novembro de 2008
Coelhix, o novo herói!
Sábado, 08 Nov, 2008

Há uma lógica perversa no recurso à exibição da suástica nazi no parlamento regional madeirense. Incide e reside na necessidade imperiosa desse recurso, na circunstância sem alternativa ou fim à vista. Um tipo de lógica que subverte, revolve, escangalha e esmigalha toda a lógica que se usa no lidar político e social de todo o território português. De todo o território português? Bem, temos a aldeia dos irredutíveis, como a de Astérix, lá longe no meio do mar, terra de Jardinix, eterno herói. E em terra de Jardinix impera a lógica de Jardinix e nenhuma outra, é por todos e demais sabido. Não há pingo de fantasia nisto que vos digo, ix's à parte, evidentemente. Porque o resto é exacto, factual. E compactuado por toda a classe política, vizinha do poder, sem honrosas excepções. Se a grande força de Jardim está na originalidade calhorda do seu perfil, o seu maior mérito foi conseguir fazê-la passar por estilo e ainda pôr tudo e todos a bater-lhe pala à conta do seu estatuto de Estado. E assim também ao seu reinar.

 

Nunca houve oposição na Madeira, é um facto, mas a pouca que tem existido nunca teve um interlocutor à altura de Alberto João, ou sequer lá perto. Com duas risadas e meia charutada Jardim despacha três debates e ainda vai desfilar na marginal vestido de sultão, com o Funchal em peso a bater palmas e todos os secretários regionais atrás, com fatiota alusiva mas mais modesta. Razão mais que suficiente para explicar esta evidência sem lógica: só pela loucura se pode combater a loucura. José Manuel Coelho terá visto isso mesmo e assumiu a tarefa, dispondo-se a ocupar esse cargo difícil e original, único na História: ser o bobo da corte do bobo. É o Coelhix de Jardinix, o anti-herói que vem animar a trama e fazer a história.  Vem refrescar o elenco da novela, por assim dizer. Com esse objectivo fez o programa da sua prestação parlamentar independente na cadeira do PND. E assim se tem visto a mais incrível colecção de cromos de que há memória num desempenho parlamentar.

 

Ora aparece de enorme relógio despertador ao pescoço, suspenso por um baraço, ora propõe a construção de uma estátua a Jardim, em bronze e de 50 metros de altura, "que, na altura do zénite do astro-rei, emita a estátua um forte silvo, que simbolize para as gerações vindouras os imortais dotes oratórios de Jardim; que a energia necessária ao movimento de rotação e apito da estátua seja fornecida pelas ondas do mar". Agora deu-lhe para oferecer uma bandeira nazi a Jaime Ramos e o velho ditado brasileiro mostrou bem a sua razão de existir: 'não se cutuca a onça com vara curta'. Picado onde lhe dói mais, o PSD-M não resistiu à provocação e revelou-se ditatorial e absoluto como sempre foi, só que com tudo a olhar, desta vez, não a primeira nessas condições. Mas há mais: pela natureza sensível das circunstâncias em causa, o caso resultou em risco de afronta directa aos mais altos patamares do Estado. E ainda pisou os calos de Cavaco, que assim se viu obrigado a exercer a sua magistratura de influência privada junto do soba para estancar a sangria de asneira em curso. Se o conseguiu ou não é o que está ainda para se ver, mas não me parece possível ignorar a gravidade do que aqui está em jogo, há tempo demais. Não desta vez, talvez.

 

O folhetim vem animando as notícias e o pé em que as coisas estão não podia ser mais animador, digo eu: o Presidente em particular, mais toda a gente ouvida sobre o assunto, em geral, desejam 'a reposição urgente da normalidade democrática na Região Autónoma da Madeira', sendo que eu fico sem saber do que falam, palavra de honra. Vejo hipóteses, meras hipóteses, como má-fé, ignorância ou compadrio. Ou então mera piada de mau gosto, só assim se vulgarizam palavras tão preciosas de sentido como  'normalidade' e 'democracia'. É erro a mais, candura a mais. É autoridade a menos e falta de coragem política para o assumir. O regime democrático em vigor na Região Autónoma da Madeira é uma caricatura grosseira de pluralismo que roça o insulto consciente ao Estado de Direito em que vivemos, por definição. Se foi preciso um maluco vir lembrar que existiu um regime onde o totalitarismo atingiu extremos de horror, oferecendo uma bandeira nazi a um colega (e também deputado) em plena Assembleia Regional, tudo para que o Estado português perceba e assuma que tem esse grave problema nacional por resolver (ou, pior, que não tem solução), então há que medalhar o doido, condecorá-lo por feitos excepcionais ao serviço da Pátria, como fizeram ao Daniel de Sá. O homem merece, foi de inaudita coragem e só quem não conhece a realidade da Madeira o pode negar. Quanto ao método em si, esse tem a medida de Jardim, a lógica de Jardinix em terra de Jardinix. Só que foi um Coelhix a fazê-lo, desta vez. Por isso temos herói.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De maya a 8 de Novembro de 2008 às 06:02
a leitura deste post é um prazer catártico perfeito!


De Rui Vasco Neto a 9 de Novembro de 2008 às 05:27
maya,
quando até as abelhas gostam, é porque se trata de puro mel, de facto.
até eu estou convencido.
;-))


De Alfredo Gago da Câmara a 8 de Novembro de 2008 às 21:13
Engraçado!!! Estive a formatar o computador. Mal terminei adicionei logo de novo o sete vidas aos favoritos, é claro. Que bonito texto! Aquele "Romano" é louco. Acho que a Assembleia Regional da Madeira precisa de ser formatada também. Eis um assunto que deverá preocupar muito mais o nosso Presidente de Répública do que a teimosia merdosa que arranjou com os açorianos.


De Rui Vasco Neto a 9 de Novembro de 2008 às 05:31
fredo,
É teimosia Merdosa com caixa alta, M grande. Afinal estás a falar do Presidente, ó corisco!
Com respeito ao respeito, já não há respeito ou quê?
Ora toma lá uma beijoca, pronto, só porque sim.


De matematix et logix a 8 de Novembro de 2008 às 22:34
Hum, deixa cá ver:
se menos por menos dá mais e mais por mais dá menos, então, loucura por loucura não dá sanidade?


De Rui Vasco Neto a 9 de Novembro de 2008 às 05:32
coisix,
nem mais, bem visto.
e vai ser pouco, vai ver.


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