Terça-feira, 11 de Novembro de 2008
Família, castanhas e S.Martinho
Terça-feira, 11 Nov, 2008

Uma vida inteira a meter o nariz na vida dos outros é no que dá. Nas notícias de hoje vejos os acontecimentos de ontem, só que com outras caras.  Como a daquele homem, novo ainda, coveiro desde sempre naquele cemitério algures numa freguesia perdida num dos cerros que pouco mais distam do Funchal do que uns escassos vinte ou trinta minutos de carro. E que estão no entanto á distância dos muitos anos que passam sem que lá ponham os pés, as vidas de muitos dos que por lá conheci nados e criados, incluindo um casal de velhotes que nunca tinha visto o mar, sequer, apesar de filhos da ilha... Mas voltemos ao coveiro da minha história, um quarentão magro e sem dentes cujo pai já era coveiro daquele mesmo cemitério desde que o seu avô parou de enterrar a vizinhança e foi dele o dia e a hora de ali ficar de vez.

 

Tinha o brio no sangue, portanto, este loquaz profissional da pazada que teve a rara oportunidade de se vingar dos anos de clientela silenciosa naquele dia de 1996 em que me conheceu, a braços com uma reportagem deliciosa para a TVI sobre um morto que foi a enterrar com um casaco emprestado pela mulher do vizinho que, coitada, não conhecia o esconderijo do marido para as poupanças da família que ele há anos e anos guardava no forro do dito casaco. Resultado? Só vos digo que aquela coisa do eterno descanso ali não funcionou, menos de uma semana depois de entrar lá teve o morto que sair para despir o casaco e dá-lo ao dono, na presença do Ministério Público. E do nosso coveiro, claro, que me contou tudo sobre esse morto e, no embalo, mais ou menos pela ordem das campas, também sobre o resto do pessoal  todo que lá estava, já agora, vida e morte com pormenores, familiares e relativos, sendo que a freguesia era pequenita e eu até estava com tempo nesse dia. Acabou por ser uma tarde agradável, no fundo.

 

Pois dela recordei hoje a historieta que origina esta crónica, um filho que não suportou um mês de ausência da mãe e foi desenterrá-la para a levar para casa, onde a polícia a foi buscar no dia seguinte, sentada no sofá de sempre. «Só que o homem enganou-se, no escuro, e não levou a mãe, não senhor», conta-me o meu coveiro em êxtase de fim de história: «Levou a D.Rosa ali do 12, que já cá estava há uns dois meses, pr'aí! Eu bem vi que fui lá buscá-la ao colo: estava seca como uma castanha!» Não foi o S.Martinho que despoletou esta minha recordação, creiam, que de resto espero os senhores não levem a mal, pese algo mórbida para a quadra. Nada disso. Foi antes esta notícia, segundo a qual uma mulher de 90 anos vivia numa casa com os corpos de três irmãos, sendo que um deles morreu no início dos anos 80 e outro apenas há uns cinco anos. "A senhora tinha uma vida normal e relacionava-se bem com os vizinhos", sente o SOL necessidade de nos informar e eu muito agradeço, confesso. É que, apesar de não praticante, eu cá até concordo que seja importante manter a família unida, é certo, já nem discuto esse lado, rendi-me há muito. Mas sempre há gente que exagera um nadita, convenhamos.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Teresa Ribeiro a 13 de Novembro de 2008 às 00:01
Deliciosamente mórbido :)


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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