Segunda-feira, 24 de Novembro de 2008
Ribeira Grande
Segunda-feira, 24 Nov, 2008

Tem andado um nadita ausente, o meu amigo Daniel de Sá. «Estou por aqui nada de férias, atarantado a escrever o livro que será para o Santo Cristo mas ainda não passei do lago de Genesaré, e pediram-me isto para antes do Natal», resolve-se a dizer-me, em recado privado. Perante um tal labor, onde, digam-me, onde arranjar lata e coragem para lhe cobrar este silêncio que a todos custa, a todos nós, meros fãs? Nem eu fui capaz de tal atrevimento, confesso. Mas também não houve necessidade, na mesma cestinha onde vinha esta nota lá estava, cuidadosamente embrulhado em panos quentes, este naco de prosa que se adivinha tão saboroso como os dois anteriores que nos levaram primeiro do Nordeste à Povoação e depois a Vila Franca do Campo, numa fascinante viagem pelos caminhos de S.Miguel. Guiados pelo passo seguro e conhecedor deste nosso viajante.

 

Em baixo: "Ribeira Grande"

Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

Ribeira Grande. Bons tempos viveu ali o viajante. Que o tinha de ser todos os dias, excepto ao Domingo. Para aprender umas letras e outras ciências, no externato. O almoço possível era quase sempre na travessa por onde Gaspar Frutuoso teria passado milhares de vezes. A caminho da Matriz de Nossa Senhora da Estrela, de que era vigário. Homem culto, doutor por Salamanca, deixou a maior e quase única história que se conhece dos primeiros tempos de vida nestas ilhas. No salão nobre dos Paços do Concelho, há um painel de azulejos que lhe é dedicado e que sempre intrigou o viajante. O sacerdote é representado pregando no púlpito da sua igreja. O painel completa-se com umas alfaias agrícolas e uns símbolos da arte da escrita. E estas palavras como divisa: “Se eu soubera, não soubera.” Fácil de interpretar... Se Frutuoso tivesse aprendido a arte de cuidar da terra, não saberia a outra, a tal da escrita. Ou talvez não, quem sabe? E se aquela fosse uma confissão de que, se soubesse o que é o saber, preferiria não saber? Esse saber que nos torna cada vez mais conscientes da nossa ignorância, mais insatisfeitos. Esse saber que nos faz duvidar mais do que acreditar nas coisas que aprendemos.
 
Ao viajante vem com frequência essa tentação. Esse como que arrependimento de ter aprendido algo mais do que todos os meninos da sua terra que foram à pia do baptismo no mesmo ano que ele. Foi bom que Gaspar Frutuoso tivesse aprendido outros saberes, mais que de arado e sacho. Porque ele foi o único que contou coisas que, se não tivesse dito, ninguém saberia. Mas o viajante não aprendeu mais do que saberes já sabidos. As suas palavras não fazem falta sequer para uma visita de olhos cheios a este mundo aqui à volta. Ao viajante, a outro qualquer viajante, basta ir por aí acima e ver. O bailado das gaivotas na indizível lagoa do Fogo. A cascata de água quente da Caldeira Velha, que lhe fica a caminho. As outras fumarolas, ditas Caldeiras da Ribeira Grande. Os rochedos barrocos das Lombadas, com uma nascente de magnífica água mineral. A assombração do Monte Escuro. Ali, a terra ainda não teve tempo de disfarçar as mãos de fogo dos vulcões. E, apesar de tanto se ver da ilha lá em cima, o silêncio como que nos tapa a boca, proibindo a fala. Num certo ponto vê-se bem, mas mal se escuta, ao longe, uma cascata. Basta baixar a cabeça por detrás de umas queirós, que a altitude fez raquíticas, e já nada se ouve. Ou indo adiante, que não faltam sensações por aí fora. A ponta do Cintrão, arrojado cabo em miniatura; o miradouro de Santa Iria, de onde de repente se descobre como a ilha continua a desdobrar-se em dedos de terra entrando no mar, ou namoros do mar nas enseadas. E daquele lugar o viajante faz sempre um miradoiro também para a História. Foi nos montes à volta que se deu a última e maior refrega entre as tropas absolutistas e os liberais, que haviam desembarcado na Achadinha. Está logo à frente o Porto Formoso, com a sua praia que era o melhor ancoradoiro das bandas do Norte; e São Brás, rutilante; e a Maia, numa fajã vulcânica onde o sol falta menos vezes e o tempo é mais ameno do que longe dela; e a Lomba da Maia; e os Fenais da Ajuda, cuja elegante ponta anuncia, a nascente, que o concelho acaba pouco mais adiante, na Lomba de São Pedro.
 
Também o viajante entrou e ficou na igreja de Nossa Senhora da Estrela vezes sem conta. E ainda hoje, quando lá regressa, sente uma espécie de respeitoso temor. Aquele é um dos maiores templos dos Açores. Consta que, semelhantes, só a Sé de Angra e a igreja de São José, de Ponta Delgada. A devoção dos cristãos de outros tempos está bem expressa na profusão de altares. E a sua arte também, na abundante decoração. Ali se guarda o Arcano Místico, obra de Madre Margarida do Apocalipse. Informam-no agora de que, qualquer dia, irá para a casa onde ela viveu, depois que os liberais lhe fecharam, e às outras, as portas do convento, deixando-as fora.
 
Foi daquele lado da Ribeira que a povoação nasceu e começou a crescer, ainda no século XV. E, quando D. Manuel I a fez vila, por foral de quatro de Agosto de 1507, deu-lhe como limite uma légua em redor do pelourinho. Só no século XIX o concelho haveria de ganhar as dimensões que tem hoje. Até ser elevada à categoria de cidade, em 1981, a Ribeira Grande era composta apenas pelas freguesias da Matriz e da Conceição. Nessa altura foram integradas nela as da Ribeira Seca e da Ribeirinha, e, mais tarde, a de Santa Bárbara.
 
Cerca de uma légua para ocidente fica Rabo de Peixe, freguesia tornada vila em 25 de Abril de 2004. Sendo a mais populosa, apesar de uma inexplicável fama contrária é também das mais ricas. O seu porto de pesca é dos mais importantes dos Açores, sendo a sua fruta e os seus produtos hortícolas de excelente qualidade. Era nesta freguesia que ficava o velho aeroporto, um simples pasto que alimentava vacas quando não havia manobras de aviões. Um pouco adiante, as Calhetas e, a completar o concelho e a meia dúzia de quilómetros de Ponta Delgada, o Pico da Pedra. A paisagem é geologicamente das mais recentes dos Açores. Se tudo ali fosse como há 50 000 anos, uns instantes na evolução da Terra, o viajante não teria solo para pôr os pés. Então só havia mar entre o maciço das Sete Cidades e o da Serra de Água de Pau.
 


publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De jv a 25 de Novembro de 2008 às 00:29
Belo texto de Oliveira Martins... desculpe, de Daniel de Sá.
Alexandre Herculano também seria digno do texto, que o cultivava tão bem como a terra, sendo senhor dos dois saberes, pelo que a divisa, na primeira interpretação, a ele não se podia aplicar.
Se a História fosse assim ensinada, será que seria necessário avaliar algum professor?
Resta-me agradecer ao Daniel estes preciosos nacos com que nos vai presenteando.


De Samuel a 25 de Novembro de 2008 às 00:32
Com incentivos deste calibre e beleza, acabo por "trocar" a Terceira por São Miguel! :-)
Tivesse eu o que fazer aí...

Abraço


De Alfredo Gago da Câmara a 25 de Novembro de 2008 às 01:11
Então, Samuel?! São coisas do corisco. Porque é que trás à baila um rabo torto?


De Daniel a 25 de Novembro de 2008 às 01:09
A minha Maia pode ser digna émula de Vale de Lobos, e sinto-me bem no meu fojo. Já quanto ao Oliveira Martins e ao Alexandre Herculano, não cometamos heresias, meu caro JV. Que heresias seriam, no tempo deles, algumas coisas que vou esrcevendo...
Samuel, obrigado pela preferência, mas eu gosto muito das gentes da Terceira. Ao fim de uns dias, a paisagem permanece semprte igual, enquanto que as pessoas mudam constantemente. E, na Terceira, mudam geralmente bem.


De Thais Naomi a 25 de Novembro de 2008 às 15:12
Dan,como minha mãe te chama.
Eu te amo!
beeijos da Thais Naomi.



De Daniel a 26 de Novembro de 2008 às 01:13
Thaís, amável Thaís, e quem poderá não te amar?
Obrigado.
Um beijo.
Daniel


De mifá a 26 de Novembro de 2008 às 13:02
Ufa, Daniel, estou exausta que isto de percorrer a pé o concelho da Ribeira Grande não é brincadeira! Porém, restaurada pelo suculento farnel da sua prosa, não se me dava de continuar, já de caminho, rumo ao Nordeste ...

( e o Garrett que se cuide que, se viajou por Santarém, e à volta do seu quarto, e ... , que se saiba, não viajou no salão nobre dos Paços do Concelho da Ribeira Grande! ).


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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