Quarta-feira, 11 de Março de 2009
O Ti Goulão da Azenha
Quarta-feira, 11 Mar, 2009

Manuel Correia Francisco era uma figuraça lá na aldeia onde viveu toda a sua existência e onde eu tive o privilégio de o encontrar e conhecer, numa noite memorável, há mais de trinta anos. Todos o conheciam como o Ti Manel da Azenha, sendo esta última, situada bem na frente da sua casita, que feita apelido diferenciava a sua graça da dos outros cinco ou seis Ti Manéis que por ali viviam. De entre as inúmeras historietas que se contam do Ti Manel da Azenha, ficaram famosos os dichotes que atirava de improviso nas mais variadas circunstâncias, sobretudo quando estava com um grãozinho na asa, ou seja, normal. E, de entre esses, ficou para a posteridade um em particular, que fez história por ocasião das festas da terra, quando uma das vizinhas insistiu em bailar com o bom do Ti Manel que, por aquelas alturas, já cantarolava um fado avinhado na barraquita da Junta de Freguesia, onde acampara no primeiro dia das festas e de onde só viria a sair na última noite, e mesmo assim só empurrado por três homens. Na euforia do convite e para também não fazer má figura o nosso velhote lá ensaiou uns passitos de dança, mas em meio rodopio acabou estatelado na poeira do terreiro do baile, por entre a risota carinhosa da vizinhança. E é nessa altura que lhe sai a máxima que viria a ficar para a cultura local e sempre repetida em cada noite de bailarico. Sacudindo a poeira do seu casaquito de domingo, Ti Manel do Monte foi lesto e seguro na acusação que disparou ao presidente da comissão de festas, logo ali e à vista de toda a gente: o chão estava inclinado, sim senhor, o chão é que estava inclinado, não era ele quem não sabia dançar. Contam que o povo logo bateu muitas palmas, que o próprio acusado pagou mais uma rodada ao herói da palavra certeira e que assim se marcou aquela noite no calendário dos grandes acontecimentos locais. 

 

Eu cá recordo com frequência o velho Ti Manel da Azenha, hoje bem a propósito, ora vejam se não. É que o incansável presidente do Instituto da Droga e Toxicodependência, Dr.João Goulão, descobriu agora mais uma de muitas razões para o seu permanente e rotundo falhanço na obtenção de quaisquer resultados no combate ao consumo de drogas. É verdade. Desta vez João Goulão acusou os pais, directa e convictamente, de 'se demitirem das responsabilidades enquanto educadores" ao permitirem que os seus filhos "saiam à noite e bebam em excesso". É que depois é sabido, uma coisa leva à outra e lá vamos nós dar aos números do tráfico e consumo que não param de subir. "Os pais têm que saber o que os filhos bebem quando saem à noite", por isso "estão a demitir-se das suas responsabilidades enquanto educadores", conclui o responsável máximo do IDT, sem dúvidas. E para dar um ar oficial e rigoroso a esta sua científica teoria, o Dr.João Goulão colou-a às estatísticas, sempre impressionantes, que resultaram dos mais recentes estudos feitos aos hábitos de consumo desregrado de álcool e substâncias estupefacientes entre os mais jovens. Daí até à responsabilidade dos pais nesses números ser um ponto assente e cientificamente comprovado foi um pulinho, um quase nada. E assim tornou o IDT a mostrar que não dorme em serviço e que os portugueses podem dar por bem empregue o dinheirinho que dão dos seus impostos para o combate à droga, confiado a tão competente estratega. Assim os jovens não consumissem, assim os pais colaborassem e era ver se não era tudo diferente, se os resultados não apareciam logo, logo, como um passe de mágica. Ou como um passo de dança, daqueles que também o Ti Manel da Azenha não conseguia dar, coitado, por causa do tal chão inclinado, o maldito chão inclinado que lhe boicotava o tango e impedia o brilharete no bailarico da terra. Uma injustiça, flagrante, mas que não calha ao Dr. João Goulão, já que o homem tanga que é uma maravilha, reconheça-se, neste baile que nos vai dando a todos cada vez que abre a boca só para não estar calado, por manifesta falta de assunto.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Pirate a 11 de Março de 2009 às 18:52
O Goulão do IDT é na verdade um "jugler" de 1ª categoria...a especialidade dele não será tanto o tango, mas sim a "tanga" e modo como a exerce, ou seja como "tangeia" os contribuintes que financiam o IDT.
Como dizem os cowboys:
"when the going gets tough, the tough gets going"
O combate à droga é demasiado duro para o Goulão.
Tem que haver forçosamente um co responsabilização dos progenitores...ora bolas, eles é que fizeram as criançinhas que se embebedam e drogam. Toca a monitorar e dar rédea curta aos filhotes ! ou seja...encerrem os hospitais, apostem tudo na medicina preventiva !

PS

Folgo em ver-te de volta às lides blogistas caro Vasco!


De Rui Vasco Neto a 17 de Março de 2009 às 19:52
pirata,
e eu folgo de te ler por cá, como sempre.
grande abraço


De Raposa Perguntadeira a 11 de Março de 2009 às 23:25
E o tal doutor tem filhos? E são uns modelos? E ele sabe exactamente aquilo que eles bebem/fumam/fazem quando saem?


De Once a 12 de Março de 2009 às 11:32
ía colocar a questão que vejo ali pela Raposa .. porque antes de atirarmos pedras em telhados alheios é sempre bom garantirmos que as nossas telhas permanecem intactas.

Sou mãe. Jamais, enquanto na posse das minhas faculdades, me demitirei da função de educadora. Dificilmente contudo saberei o que a minha filha beberá quando começar a sair à noite.
E isso não fará certamente dela uma drogada em potência. Nem de mim uma "má mãe".



De Samuel a 13 de Março de 2009 às 00:13
É o já costumeiro espectáculo de tipos vulgares a fazer de conta de que são génios que gostam de imitar idiotas.
Dito assim parece complicado... mas deve resultar, pois eles estão por todo o lado, ocupando grandes cargos.

Abraço


De fã nº 1 a 15 de Março de 2009 às 11:07
sim senhor!
cargos destes também eu queria. porque falar não custa nada, fazer ´e que é mais complicado.


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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