Terça-feira, 17 de Março de 2009
Racismo, disse o próprio.
Terça-feira, 17 Mar, 2009

Este assunto dos garotos ciganos que estão a ter aulas num contentor tem alguma graça, digamos assim, quando visto à luz da fragilidade noticiosa de que sofre toda a comunicação no mundo moderno. Isto sem perder de vista a moldura social deste retrato, que tem servido para o enquadramento de outros instantâneos semelhantes e que está aí para continuar a servir por muitos e bons anos, estou certo. Passo a explicar esta minha leitura.

 

Neste caso concreto uma turma de crianças ciganas fará parte de um projecto de discriminação positiva, autorizado pela DREN exactamente por se destinar às necessidades deste grupo de jovens, especificamente. A coisa faz sentido, aparente. Acontece que o local onde a turma tem as suas aulas é um contentor, segundo a Junta de Freguesia, chama-se monobloco, esclarece a DREN. Bom, para mim chamem-lhe o que entenderem, que o desconforto com que dele falam os uns e os outros é bastante para que se perceba que o salão não será de luxo, isso de certeza absoluta. Até aqui tudo mal, mas percebe-se tudo, até o papel de embrulho da Junta que conseguiu o admirável esforço de guardar esta denúncia um ror de anos até este momento pré-eleitoral e que agora não consegue mais e pronto, tudo se entende, é de seres humanos que estamos  falar e está tudo explicado nesse aspecto. Ainda por cima é tudo verdade, a turma está lá e são ciganos sim senhor, não há qualquer dúvida a esse respeito, por isso por aí nada a dizer, também. Aparentemente bate certo, está tudo errado.

 

Mas se então é tudo assim, perguntarão, onde é que está a tal fragilidade noticiosa da comunicação, ó palerma (enfim, alguns)? Calma que tem explicação e ofender não vale. A tal chama-se racismo, digo eu, esse tempero abundante na caldeirada que vai resultando deste país em lume brando de emoções no que toca à coexistência inter-racial, naquele ponto exacto da tolerância em que já se arrisca o petisco, ao menor descuido. E é nesse ponto exacto da tolerância existencial da nação, dos uns com os outros, ciganos, moldavos, guineeenses, chineses e o diabo a quatro que as televisões colocam esta informação na agenda do dia: uma turma de ciganos está a ter aulas num contentor. Separados dos outros meninos. Ciganos, disse? Separados dos outros para as aulas? Se estão separados é discriminação, se são ciganos não deve ser positiva. Logo deve ser discriminação racial e se é assim é racismo. E se é racismo está errado.  Como tirar a prova dos nove à questão? É simples, as aulas acontecem num contentor, vejam bem. Ora se é num contentor está tudo dito, de facto estes ciganos estão a ser discriminados e tratados abaixo dos mínimos que deviam ser aceitáveis para o Ministério da Educação permitir a ocorrência de qualquer instrução no Portugal de amanhã, seja ele amarelo, preto ou mongol. Não resta lugar a dúvidas, aparentemente. Será racismo.

 

Só se... bem...só se... mas não... não!!... bem... só haveria uma hipótese de afinal não se tratar de uma discriminação racista, enfim, que era a seguinte: só se fosse possível em Portugal que outras crianças, que não de raça cigana, pudessem ser destacadas, ao abrigo de um projecto específico de instrução e inclusão social, para terem aulas num contentor dizem uns, monoblco dizem outros, enfim, local onde decorrem aulas integrado nas instalações da escola básica de Lagoa Negra, em Barcelos, esclareço eu. E aí sim, se fosse possível aquela turma ter aulas naquele local, independentemente da sua característica de raça, com o devido reconhecimento do Ministério da Educação, se fosse possível e até habitual que uma sala de aulas no nosso país pudesse ser um qualquer penico travestido em espaço provisório e ninguém achar estranho a não ser perto das eleições e mesmo assim só quando cheia de alunos da mesma cor ou credo, então haveria talvez que repensar esta assunção tão automática de um racismo que afinal se encontra latente na própria elaboração do facto, enquanto notícia, na maneira como todos nós o ouvimos e na condenação imediata a que o sentenciamos por impulso. E isso sim, é o racismo. Sinuoso, traiçoeiro, sempre. E neste caso útil, até, a alguém em particular. Mas o mal é geral, está visto. Somos nós, somos assim.



publicado por Rui Vasco Neto
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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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