Quinta-feira, 26 de Março de 2009
O crime dos McCann
Quinta-feira, 26 Mar, 2009

Há uma duríssima lição de vida, para Gerry e Kate McCann, naquilo que vem acontecendo nestes últimos dias na aldeia da Luz. Da grande campanha de sensibilização para o desaparecimento de Maddie lançada pelos McCann na zona da Luz, Lagos, pouco restava ontem à tarde além de meia dúzia de cartazes afixados em estações de autocarro e outdoors. A população local tratou de rasgar e arrancar os restantes, deitando-os para o lixo e dando a cara pela sua atitude, sem qualquer pejo, convictos da justeza do que faziam. Ao Correio da Manhã foram várias as pessoas que assumiram responsabilidades no sucedido, incluindo comerciantes que publicamente retiraram os cartazes das suas montras. O adjectivo mais usado para caracterizar a campanha dos McCann é 'palhaçada' e o motivo comum a todos tem a ver com alegados prejuízos que dizem estar a sentir por quebras no turismo devido ao caso Maddie. Seja qual for a verdadeira razão, a existir uma, o facto é que se trata de uma tomada de posição que é no mínimo estranha, se pensarmos que está em causa o desaparecimento de uma criança. Daquela criança, em particular. E é assim que chegamos à tal lição de vida que referi lá atrás. Ora pensem comigo.

 

Toda a revolta latente neste 'já chega!' gritado pelos habitantes da Luz tem destinatários óbvios. Kate e Gerry McCann foram condenados pelo colectivo da opinião pública nacional por crimes de arrogância e estupidez, à falta de provas definitivas de que são assassinos de facto. O colectivo deu por provado, nesta sessão com já quase dois anos de massacre mediático, que os pais de Maddie foram ingleses, triste e terrivelmente ingleses na forma de lidar com o que lhes estava a acontecer naquele momento em Portugal e junto dos portugueses. Ao preconceito que Kate e Gerry revelaram possuir em relação aos portugueses, desde o primeiro minuto da sua desgraça, respondem agora estes com outro de igual calibre contra este tipo de gente com pose superior que vem para o nosso país tratar os indígenas abaixo de cão e como 'estúpidos comedores de sardinhas', como nos caracterizou o popular jornalista Tony Parsons, que não têm berço ou competência para tutear com os súbditos de Sua Majestade. Talvez por isso os portugueses da Luz lhes voltem ostensivamente as costas quando agora, dois anos de desprezo e arrogância depois, colam nos seus cartazes um pedido de tardia humildade: 'Ajudem-me', um apelo pensado para ser dirigido directamente à população local. Que deu resposta pronta, como se vê, aquela que lhes foi ditada pelo sentir. Só Maddie, a própria, terá impedido que assim tivessem feito há mais tempo, acredito piamente.

 

Gerry e Kate McCann estarão a colher o que semearam, tudo o indica. Mas importa não esquecer Maddie, pelo caminho. Por isso a atitude destes nossos compatriotas da Praia da Luz vale o que vale, mostra o que mostra, é o que é. Nem por isso particularmente digna ou dignificante, para Portugal ou para os portugueses. Não parece coisa nossa, da nossa gente, da nossa maneira de ser. Compreende-se, claro, percebe-se porque e para quem está tudo isto a acontecer. Terá até alguma justificação factual, não o discuto. Mas raramente importa quem começou primeiro, numa escalada de preconceito, como pouco importam as mesquinhices da vida quando nos encontramos cara a cara com a morte. E a estupidez, inglesa ou outra, só gera estupidez, portuguesa ou outra, nada mais, não traz nada de bom para ninguém, para uns ou para outros. E não ajuda Maddie, acima de tudo, cuja situação (seja ela qual fôr) dispensará por certo a existência de duas facções, muito menos rivais, onde era suposto existir unidade e solidariedade num empenho comum. Foi por isso lamentável, este episódio, absolutamente lamentável. E vou mais longe. Mesmo tendo como referência o inenarrável casal McCann, estes nossos algarvios foram muito, mas mesmo muito ingleses, neste incidente dos cartazes. Demasiado ingleses, se é que me faço entender.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Daniel a 26 de Março de 2009 às 23:43
O que mais dói são os actos que têm lógica mas a que falta humanidade.


De Once a 27 de Março de 2009 às 09:26
fique triste. Pela arrogância do casal inglês .. pela "vendetta" dos portugueses.
E porque com costelas dos dois lados dou comigo a não conseguir ser imparcial em nenhuma das análises. Gostei contudo de uma resposta que a minha cunhada deu às amigas inglesas quando a souberam de férias com a família de cá: cuidado com o teu filho, avisaram-na! ao que responde: eu tenho sempre cuidado com o meu filho. Seja em Portugal seja .. !





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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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