Terça-feira, 31 de Março de 2009
Lisboa em camisa. Na Ópera.
Terça-feira, 31 Mar, 2009

Em espectáculo, um protesto em coro de plateia tem que ter um toque de boçalidade, algo de rude e grosseiro para atear aquela multidão e puxar-lhe o fogaréu do descontentamento para lá de todas as regras de etiqueta social. Afinal somos matéria inflamável antes de sermos gente educada, antes do polimento, antes das convenções, do treino de obediência das boas maneiras, no fundo. E nem sequer é lá muito no fundo, em muitos casos, às vezes basta raspar um nadita e lá salta a capinha fina que mantém a besta oculta em alguns de nós, meio nadita em muitos casos. Não é um espectáculo agradável, quando acontece a sério, digo eu.

 

A única pateada com graça de que me lembro, assim de repente, aconteceu em casa do Conselheiro Torres, ali à Rua dos Fanqueiros, se a memória não me atraiçoa, quando o teatrinho da família onde brilhavam a menina Sabina e do Dr. Formigal, um drama pungente de nome 'O Pedro', foi abalado pela demora do elenco, pelas birras do Gil aguadeiro, pelo acumular de casacos no cadeirão destinado ao Bismarck português e pela impaciência da assistência, vinda lá da repartição do Conselheiro e que rebentou numa pateada d'arrebimbomalho magistralmente descrita por Gervásio Lobato no seu delicioso 'Lisboa em Camisa'. Não estive nessa, lamentavelmente.

 

Tal como não estive no CCB na passada sexta-feira, noite de "Crioulo, uma ópera cabo-verdiana". Sei que o espectáculo estava marcado para as nove horas da noite. Sei que começou com a mesma meia hora de atraso com que deram entrada no camarote VIP os dois primeiro-ministros, de Portugal e de Cabo Verde, que eram esperados mas não para fazer esperar a restante audiência, que lotava o recinto. E foi assim que aconteceu a famosa vaia, a tal que recebeu José Sócrates e comitiva naquela noite e se prolongou por alguns minutos, que devem ter parecido uma eternidade aos visados. Depois parou, claro, veio a ópera e o fim de festa, igual aos outros. Mas os ecos do assobio estavam lançados e com vento de feição a vaia cresceu de tom e de registo, engrossar é o termo: engrossou. E engrossou mesmo, o resto é o que se sabe, o que se leu e o que se ouviu e ouve até à náusea, quase-quase. Palpite atrás de palpite sobre o que Sócrates devia ter feito, o que não devia ter feito, o que pensou e não pensou e devia ter pensado, enfim, as razões do assobio em número incomparavelmente maior que o das maneiras existentes para preparar bacalhau, por exemplo. E qualquer dia em maior  número que os próprios bacalhaus, pelo caminho que a coisa leva. É o que eu digo, um destes dias dou por mim a gostar do Zé, salvo seja e passe a expressão. Porque pena dele já quase tenho, tal é a pobreza confrangedora do moralismo hipócrita que dita este tipo de ataques. É Lisboa em camisa, não outra vez: a de sempre, apenas.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De manuel gouveia a 31 de Março de 2009 às 23:11
Habituem-se!


De mifá a 1 de Abril de 2009 às 00:30
Ó Rui, que boa inspiração esta que te fez trazer aqui o Gervásio Lobato e o "Lisboa em camisa"! Vou já procurá-lo na hecatombe das prateleiras e levá-lo prá caminha onde vou divertir-me, pela duodécima vez, com o baptizado do menino Moisés e outras deliciazinhas quejandas .
E o que tive que calcorrear para descobrir o livrinho que eu, em miúda, via arrancar gargalhadas de gozo à minha avó paterna!
Descobri-o, por fim, num alfarrabista, na rua das Flores, no Porto.
Toma lá uma beijoca repenicada pela lembrança.

( olha lá, eu não releio há muito tempo a obra, mas o tal doutor não era o "Formigal" )

( não é que este rapaz vai-me desencantar cada coisa!)


De Rui Vasco Neto a 1 de Abril de 2009 às 02:09
mifas,
carregadinha de razão que tu estás, tanta que já fui mudar o nome no texto. Do dr. Formigal, claro, que queres, estou velho e a memória prega-me partidas, fico disléxico.
que delícia que é aquele Lisboa em camisa, não é?? Nunca tínhamos falado dele, nós os dois, mas era de prever que gostasses, a julgar pela eçamania que tens, temos, só podia...
beijo, querida amiga


De Rui Vasco Neto a 1 de Abril de 2009 às 02:12
manuel,
eu, se puder, não faço tenções. (Nem tensões, tampouco).


De mifá a 1 de Abril de 2009 às 00:34
Ah, e quanto à outra Lisboa, esta, a de agora, qual em camisa qual carapuça!
Esta, a de agora, nem em fralda está!

( estão cá a fazer falta uns gervásios e uns eças, lá isso estão! )


De Rui Vasco Neto a 1 de Abril de 2009 às 02:13
bengaladas neles.


De Samuel a 1 de Abril de 2009 às 00:35
Com tanto por onde atacar (a sério) o José... mas a hipótese de qualquer dia haver mais receitas de bacalhau do que bacalhaus, fez-me ganhar a noite! :-)

Abraço


De Rui Vasco Neto a 1 de Abril de 2009 às 02:06
Prepara-te, sam, que um destes dias toca-te o Zé na primeira fila do teu concerto (não esteve no Coliseu da última vez?) e depois quero ver se sempre começas a cantar antes do homem chegar e dizes adeus à medalha que ele já mandou guardar para te darem neste 10 de Junho...:-))
abração, ó cantigueiro!


De jose pedro antunes a 2 de Abril de 2009 às 17:59
são sinais...de um goodbye, jose!


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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