Terça-feira, 21 de Abril de 2009
Crónica de café
Terça-feira, 21 Abr, 2009

Adoro um bom café, essa é que é a verdade. Gosto do sabor, do aroma, da forma única como mexe comigo, com o meu organismo, com as minhas sensações. Como agita os meus nervos (‘guizos de oiro a tilintar’, Florbela dixit) e assim dispara as minhas energias em todas as direcções num espasmo de mil sabores, antes de deixar na boca e nos lábios aquele gosto bom e intenso que vira memória do prazer. É um vício antigo, descobri cedo, um prazer que não dispenso desde que aprendi a saborear, a prolongar o encanto, dosear a sofreguidão e bebericar em pequenos goles para que dure mais. Para que seja eterno enquanto dura. Assim aprendi os amargos de boca, também, vinham no pacote. No geral sobrevivi ao alcalóide fatal da coisa, ao que mata a sério. Cá estou, ainda fã.

 

Já bebi de tudo, há que confessar. Em todos e cada um o seu encanto particular, único, irrepetível, o seu gosto peculiar. Provei longos, curtos, intensos, mornos, cheios, frios, escuros, claros, fortes e suaves. Escaldei-me, não raro. Tive-os intoxicantes, daqueles que arrasam o bem estar e deixam marca, quantas vezes alergias de pele e outras. Biquei-os descafeinados, incapazes de fazer mal, porque tão assépticos como insonsos. Mas quentinhos, lá está, breve consolo e pouco mais. É a tal coisa: café é café, sabe sempre bem, nem que apenas por hábito, saudável exercício. E às tantas a gente habitua-se ao paladar, àquele qualquer que as circunstâncias plantaram no nosso caminho porque ficava mais perto ou dava mais jeito ou até nem era mau de todo, que sei eu, é assim e pronto, tanta vez... E de repente passa uma vida inteira sem que se prove doutra marca, outro lote, outra mistura. Assim se perde a capacidade de escolha por anulação voluntária, por desistência das papilas, gustativas mas menos, cada vez mais.

 

No meu caso nem tanto, é certo, feitios, talvez. Continuo dependente daquele consolo, fã incondicional do sabor, pese resignado ao breve, razoável, sofrível, que vai sendo regra acontecer. Mesmo assim mantém o fascínio, aquela irresistível incógnita gustativa. E as chávenas estão cada vez mais fashion, reconheça-se, mais bonitas, mais cuidadas e elegantes, desde que alguém fez a esmola de descobrir o quanto a cobiça do olhar aumenta a vontade da prova. E assim sigo bebericando o meu cafezinho, como sempre, como dantes.

 

Só que entretanto descobri um Nespresso, ou lá o que é aquilo, coisa recente. Então e não é que ando convencido que nunca mais quero outra coisa? Pois que seja eterna a convicção. Enquanto durar, claro.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De mifá a 21 de Abril de 2009 às 18:38
Olha lá, tás-te a passar ou quê?! É que esta crónica também mantém "aquela irresistível incógnita gustativa".

( raio do homem quer arrasar com a gente com dois textos deste calibre seguidinhos ! Quero lá saber se a musa é o nespresso ou o chá ou o leite!.... Que escreva que escreva! )


De Rui Vasco Neto a 22 de Abril de 2009 às 11:24
mifas,
detesto quando me tartas bem, não estou habituado:-)))
beijo-te, amiga. Queres um café?


De jv a 21 de Abril de 2009 às 19:41
Porque será que der repente me apeteceu um cafezinho ?


De Rui Vasco Neto a 22 de Abril de 2009 às 11:14
jv,
provavelmente porque tem bom gosto, não vejo outra hipótese para já...
abraço, caríssimo.


De shark a 21 de Abril de 2009 às 20:52
Não acredito que as tuas papilas gustativas te tenham confrontado com uma desfeitas dessas, pá...
E agora, que utilidade darás a essa língua amputada de parte da sua função?

Abraço!


De Rui Vasco Neto a 22 de Abril de 2009 às 11:15
sharky,
és um homem de pouca fé, concluo. Pou café, no caso.


De Pedro Gonçalves a 22 de Abril de 2009 às 00:08
Ristretto , Ristretto , Ristretto , aliás, Ristretto -dependente me assumo.
E nunca mais um café me soube bem fora de casa.
Há Buondi's que escapam mas o resto...
Bom texto, bom gosto.
Um abraço,
Pedro Gonçalves


De Rui Vasco Neto a 22 de Abril de 2009 às 11:16
pedro, grazie,
presumo que tenha ficado de cabelos em pé...:-))


De Alfredo Gago da Câmara a 22 de Abril de 2009 às 01:41
Que texto tão bonito este!!! Quem escreve assim, deliciosamente, merece um brinde com um bom cafezinho caseiro, de cafeteira, acompanhado de um (ou mais) "risquinhos" de chá da Escócia.
Surpreende-me, mas não me importo, que dissolva o adoçante com a colher voltada ao contrário, e depois... Que venha um King.
Abraço


De Carlos Enes a 22 de Abril de 2009 às 02:13
Caríssimo:

Perdoa a intromissão, contra mim falo, mas nespresso é aquele café que se toma para resolver em casa o que fazíamos na rua quando não estava frio.

Um bom café de balão, com pouca água e muito pó(lvora).

Vais ver.


De Rui Vasco Neto a 22 de Abril de 2009 às 11:20
N,s, special one,
se eu juntar pólvora nesta altura do campeonato acabarei por explodir, é certo. Mas o que eu gostei mesmo foi essa tua descrição «resolver em casa o que fazíamos na rua quando não estava frio.» Para que eu entenda tudo sobre essa frase havemos de ir a Viana...
abraço-te, bro.


De Daniel a 22 de Abril de 2009 às 02:43
Anda um tipo ocupado com tanta outra coisa que nem tem tempo de vir por aqui saborear coisas destas...
Pois é, meu Caro Rui, o prazer é eterno enquanto dura, que nos desculpe o Drummond de Andrade pegarmos no seu "amor" e torná-lo café ou seja lá o que for.


De Rui Vasco Neto a 22 de Abril de 2009 às 11:21
daniel,
bom que gostaste, amigo, mas... Drumond?!! É o que dá andares tão fugido, tão arredado da fidelidade que nem lhe reconheces o soneto...
abraço-te na mesma, gosto horrores de ti, que hei-de fazer?


De Daniel a 22 de Abril de 2009 às 14:46
O Drummond não me perdoaria esta. E o Vinicius muito menos. Só tu o fizeste, porque és um alma boa.


De Cris a 22 de Abril de 2009 às 04:46
Meninos
O negócio é o seguinte: Quem gostava muito de café era Vinìcius. Desconfio que Drummond era chegado a um chá.
E quando Vinícius mudava para esse tipo que o amigo Rui anda dependente(Nespresso),melhor dizendo, ele sempre arrumava uma marca nova,parecia definitiva a tal dependência,até que vencia,porque todos os cafés vinham com prazo de validade.Então ele rapidamente defendeu sua eternidade:"Que seja infinito enquanto dure".
Ou enquanto esteja quente o café.
Saboreie seu nespresso Rui, segure com as duas mãos,assim a caneca leva mais tempo para esfriar.


De Rui Vasco Neto a 22 de Abril de 2009 às 11:23
Cris,
bela explicação, verdadeiro complemento deste texto. Bom que gostaste...
bj


De Daniel a 22 de Abril de 2009 às 14:48
Estás a ver, Rui, a delicadeza? Aprende.


De Samuel a 22 de Abril de 2009 às 14:28
Um verdadeiro massacre!
Se fosse "gerente" da Nestlé, mandava imprimir esta pérola nas caixas do "Nespresso".

Rui Vasco Neto - 10 --- George Clooney - 0 :-)))


De coffea arábica a 22 de Abril de 2009 às 15:46
meteres o George Clooney entre nós é imperdoável: não é a traição é heresia!


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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