Sábado, 16 de Maio de 2009
A Carraça
Sábado, 16 Mai, 2009
Já fazia algum tempo, demasiado até, que a escritora Soledade Martinho Costa não arriscava uma perninha cá por estas Vidas, sete como dizem ter os tarecos e os miaus da história como eu. Lá nos vamos lendo um ao outro (com o prazer do costume) na correspondência privada que trocamos, valha-nos isso. Mas em boa hora apareceu esta 'Carraça', bom exemplo do olhar curioso que esta autora reserva ao mundo que a rodeia e da arte com que o regista em palavras. Assim marca a minha amiga Sol mais uma vez a sua presença nesta casa de letras, local de péssima fama, como é sabido, atribuída à visita regular e confirmada de loucuras várias que por aqui se juntam com inconfessáveis propósitos de mentes talvez dementes, até, nunca se sabe. O que é por si só e desde logo um garante de que estamos todos no sítio certo, digo eu. Não?
 
 

Em baixo: "Coisas da velha do arco: 'A Carraça'"
Sete vidas mais uma: Soledade Martinho Costa

 
 
Viviam juntos na mesma casa há já uns anos. Tinham vindo do Norte. Coisas de negócios, falências, necessidades, originaram a sua vinda para o Sul (Algarve). Objectivo? Reorganizarem a vida, que dinheiro já tinham tido com fartura. Marido e mulher, dois filhos, na casa dos vinte e poucos anos, e os pais do primeiro. 
Laurinda, a mulher do Saraiva, com quarenta e três anos, bonita, vistosa, cabelo negro, curtíssimo, olhos grandes, da mesma cor, rosto com traços a fazerem a inveja de muita mulher. Arranjada, decotada, moderna, sexi. Como tinha aptidão para a cozinha, arranjou trabalho num hotel como cozinheira. O Saraiva, que fora empreiteiro nos bons tempos, conseguiu trabalho no mesmo ramo. O filho acompanhou-o. A filha casou logo depois e o problema dela ficou resolvido. Voltou para o Norte. O pai do Saraiva, casado pela segunda vez, estava aposentado. 
Laurinda, apanhado o jeito de confiar em mim, fazia-me confidências sempre que vinha, nas folgas, limpar as escadas e os patamares. O casamento estava por um triz. Durava há vinte e cinco anos. Já não aguentava mais. Os problemas tinham surgido logo após o casamento: o marido eram noitadas, mulheres, dinheiro esbanjado, copos. Maus-tratos físicos, não. Psicológicos, muitos. Tinha ciúmes da Laurinda, criticava-lhe o vestir, o calçado, as pinturas. No Algarve as coisas não melhoraram. Pelo contrário. Laurinda chegava a sair de casa a meio da noite, em pijama, para ir acabar o sono (se é que o tinha começado) em casa de pessoa amiga.
- É uma tristeza a minha vida! – Dizia-me. E acrescentava decidida: - Vou deixá-lo. Arranjo casa e vou-me embora. E já o devia ter feito há muito tempo!
 
O Saraiva sabia dos propósitos da mulher. Chorava junto de quem tinha paciência para escutá-lo. A Laurinda era a mulher da sua vida. Nunca tinha amado outra mulher daquela maneira. «Se ela me deixar, mato-me, pode ter a certeza!», confessou-me certa vez. Impressionaram-me as suas palavras e as suas lágrimas. Implorou-me que intercedesse por ele junto da Laurinda. Falei com ela. Respondeu-me:
- É o costume. Ele faz sempre a mesma coisa. Chora, diz que se mata, mas é mentira. Gosta agora de mim! Se gostasse não me fazia a vida num inferno. Ajudava nos gastos da casa e não se embebedava!
Fiquei confusa. Tantas tinham sido já as confidências, que acreditei na Laurinda.
Certo dia contou-me que tinha arranjado casa:
- Finalmente, vou ter uma vida descansada! – Afirmou.
O filho foi com ela. Na casa que deixou ficaram os sogros e o marido. Tempo depois, os sogros voltaram para o Norte e o Saraiva ficou sozinho. Nas conversas que tinha dizia que deixara de beber. Chegou a oferecer a um dos seus amigos duas garrafas de aguardente de medronho «porque já não fazia sentido tê-las em casa». Homem de olhos tão verdes como nunca vi, começou a andar mais aprumado. Volta não volta, afirmava: «A bebida é que me fez perder a mulher. Por isso, acabou-se!». 
Com um pé dentro, outro fora do desemprego, habituado durante anos a ser patrão, o Saraiva não tinha grande vocação para empregado. Por esta altura, foi fazer um trabalho numa propriedade em Monchique. Chegada a hora do almoço, a pessoa que o contratou convidou-o a acompanhá-lo ao restaurante. Conhecedor da situação do Saraiva no que tocava a bebida, mandou vir uma garrafa de água e outra pequena de vinho. E logo o Saraiva:
- Ó senhor engenheiro, mande vir antes uma garrafa de litro. É que dias, não são dias!
E enquanto o senhor engenheiro bebeu metade de um copo de vinho tinto, o Saraiva bebeu o restante. Ao saber disto, pensei: «Lá se foram as boas intenções do Saraiva.». Com efeito, ninguém o vê a cair de embriagado, mas que tem sérios problemas com a bebida, isso tem. Coisa que vem de longe. Ainda que afirme (como é costume em casos similares) «não ser um alcoólico».
 
Noutra ocasião em que encontrei o Saraiva, diz-me ele para meu espanto:
- Hoje vou almoçar a casa da Laurinda!
Dias volvidos anuncia-me, alegre que nem um passarinho:
- Esta noite não dormi em casa. Fiquei em casa da Laurinda!
Será possível, perguntei a mim própria. Só tive resposta quando a Laurinda me confirmou que sim.
- Mas, então… – Argumentei.
Diz a Laurinda a rir:
- Mas há lá pessoa mais maluca do que eu? Não há! Pois é. Vai lá comer e tem direito a sobremesa e a café! Já me apareceu com a roupa para eu dar um jeito e esta parva que está aqui tratou-lhe de tudo. É uma autêntica carraça. Está bem como bem. Melhor do que nunca!
Concordei. Entretanto, o Saraiva acabou por deixar a casa onde habitava sozinho. Tempo depois voltei a falar com a Laurinda. Confirmou novamente:
- Ah, pois, agora almoça, janta e dorme lá em casa. É o que eu digo, não tenho juízo! Mas que hei-de fazer? Apareceu-me com a mala da roupa e mais uns sacos. O meu filho cedeu-lhe a cama e tem lá dormido. E não me dá um tostão. Na outra casa ainda pagava uma parte da renda, agora nem isso. Eu sempre sou muito parva! Mas já lhe disse a ele: olha que é por pouco tempo. Trata da tua vidinha, porque qualquer dia ponho-te a tralha toda na rua. Já o avisei! 
Cá para mim, devem ser os olhos verdes, verdes, do marido – ainda que não seja propriamente um «gato». E também os vinte e cinco anos de casamento. E também os filhos. E também o neto que vai chegar um dia destes. E também o amor, quem sabe o afecto, que liga ainda a Laurinda ao Saraiva, por mais que ela diga que não.
Se o Saraiva não sair de casa da Laurinda, como parece ser sua intenção, a Laurinda só tem uma hipótese: começar de novo à procura de casa. O problema está em que o Saraiva costuma dizer: «Eu, por aquela mulher, vou até ao fim do Mundo!».
Dadas as circunstâncias, acredito. Assim como acredito que deve haver poucos casos como este. Mais. Supondo que a Laurinda arranje uma casa «no fim do Mundo», com a prática que o marido tem em «falar-lhe ao coração», quando a Laurinda lá chegar, já o Saraiva lá está à espera dela!

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Raposa a 17 de Maio de 2009 às 01:28
Não, Soledade, não há poucos casos como este.
Mude-lhe a cor e o tipo de letra e vai ver que muitas mulheres identificam-se com a história da sua Laurinda.
E mulheres que sentem assim, esse sentimento que não tem nome e não se explica, são capazes de permitir que o fim do mundo seja um mundo já ali ao lado. " A insustentavel leveza do ser" fala muito bem desse sentimento. Kundera chama-lhe compaixão, não no sentido de pena mas de amor sublime.


De sarrabal a 17 de Maio de 2009 às 18:11
Raposa:

Se não reparou, quase no final do texto, pode ler: «...E tambem o amor, quem sabe o afecto, que liga ainda a Laurinda ao Saraiva...». Não será este afecto, a que me refiro, a tal «compaixão» = a «amor sublime»?
Sim, é claro que há mais casos. Só não conheço outro com as «nuances» deste. Sabe, neste género de situações, não sou capaz de entender que coabitem no mesmo espaço o amor/desinteresse; o amor/impaciência; o amor/náusea; o amor/intolerância; o amor/que remédio; o amor/que posso fazer; o amor/faz de conta; o amor/sacrifício; o amor/anulação, etc..
Tudo isto somado deve dar no «amor sublime». Mas não é este «amor sublime» que fará feliz um homem e uma mulher. Pelo contrário. O amor/já não merece a pena e o amor/comodismo também existem. Na maior parte das vezes são eles que vencem - sem opositores.

Soledade Martinho Costa


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