Terça-feira, 2 de Junho de 2009
O Ram-Ram
Terça-feira, 02 Jun, 2009

Assumo: sinto a falta do meu amigo Daniel de Sá. É coisa que me dá às vezes, bué de vezes, como diria Pessoa, o próprio, se fosse vivo. Nunca lho confessarei, como é evidente, que eu cá não sou dessas lamechices, era o que mais faltava, olha agora... mas não resisto, não tento sequer resistir a publicar este naco de prosa que fui ontem pilhar, noite escura, ao Espólio do meu amigo que tão arredado anda destas nossas vidas, minhas e dele e suas também, evidentemente. Aliás, se ele ou alguém me perguntar porque me aventurei ao gamanço destas palavritas, porque pilhei sem vergonha, porque arrisquei a cadeia ou o degredo, quiçá a reputação, pois eu não hesitarei em afirmar convicto que foi por sua causa, caro leitor, em seu benefício exclusivo, por si apenas. E não, nunca pela inexcedível qualidade das mesmas, ou sequer pela inveja que me rói de as ver por lá e não por cá, onde tão bem ficam. Um pormenor de resto resolvido, como podem ler.


Em baixo: "O Ram-Ram"

Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

O Ram-Ram não tinha dois dedos de testa. Nascera assim. Mas tinha coração. Coração e reflexos inacreditáveis. Ingénuo, parecia uma criança grande. A sua felicidade era completa com uma raqueta de ping-pong na mão e um adversário disposto ao sacrifício. Nisso, era o melhor dos Açores. E há muita gente que vive e morre sem nunca ter sido o melhor em nada. Porque a sua era uma língua de trapos, ficou-lhe o nome de Ram-Ram. Ou Quá-Quá. Não se ofendia.
 
Se fosse hoje, o Ram-Ram talvez não trabalhasse. Uma qualquer assistente social facilmente lhe concederia uma pensão de invalidez ou coisa parecida. Mas o Ram-Ram ganhava a vida honestamente como engraxador. Havia um professor que era um dos muitos que admiravam o seu talento desportivo. Por causa disso, não se atrevia a vê-lo ajoelhado a seus pés e tratava-o por Manuel. Mas entendia que não estava certo privá-lo do seu modo de ganhar dinheiro para o pão e alguma cerveja de vez em quando. Quando o encontrava convidava-o a acompanhá-lo à cervejaria. Ali ficavam ambos com os olhos à mesma altura. E o Ram-Ram exultava, anunciando aos circunstantes que o professor era seu amigo.
 
O professor não sabe se onde o Manuel está também se joga ping-pong. Mas sonha com um dia em que todos os homens tenham os olhos à mesma altura. Quer sejam engraxadores ou bancários, trolhas ou administradores. Um dia que não seja um dia de festa. Um dia que seja todos os dias.

 



publicado por Rui Vasco Neto
link do post | comentar

Comentários:
De Samuel a 2 de Junho de 2009 às 21:33
Um dia em que, finalmente, se faça verdadeiramente luz!

Abraço.


De Daniel a 2 de Junho de 2009 às 22:26
Rui, és um grandessíssimo mentiroso! Não roubaste nada, que eu já fui ver e o Ram-Ram continua lá tal e qual. Mas podes ter a certeza de que ele ficaria muito feliz vendo-se em tão boa companhia. Ele merece. E tu sabes que sim, pois decerto o conheceste.
Vai um abraço seu e outro meu.


De Amália Proença a 5 de Junho de 2009 às 06:00
Senhores Daniel de Sá e Rui Vasco Neto:
Já estava a pensar que os meus dois amigos se tinham zangado um com o outro; andei até tristezinha durante uns tempos, devo confessar. Até conseguir finalmente perceber que dois intelectuais do vosso calibre só poderiam ser claramente superiores a quaisquer quezílias de comadres, brigas de vizinhas ou outras porcarias do género, impróprias das pessoas, dos escritores e dos açorianos que são ambos.
Por isso um bem-haja para os dois, desta vossa admiradora número UM que está muuuuito feliz por poder ler de novo a escrita do senhor Daniel de
Sá aqui no 7vidas, como os miaus. Um beijinho aos dois, sim? E dois beijinhos a um de vós, só eu sei a qual. E porquê, claro.


Comentar post

Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
mais sobre mim
vidas passadas

Piu

Crónica do Brufen

Eu, pombinha.

Falando com o meu cão

Chove, eu sei, mas tenho ...

Maria da Solidariedade

Hum, daí o meu dói-dói...

Portugal sem acordo

Não fui eu que escrevi ma...

Um dos

Abençoados 94, Madiba!

Sôdade

Não vás as mar, Tòino... ...

Ofertas FNAC: pare, escut...

Reflexão de domingo, perg...

É preciso é calma, já se ...

Definição de sacrifício n...

A questão

E pronto, eis que descubr...

.......

Bom dia. Se bem me lembro...

O princípio do fim

E, de repente.

Um azar nunca vem só

Diz que é uma espécie de ...

Força na buzina!!

Bom dia. Hoje chove em Li...

Depois do homem que morde...

Bom dia. É hoje, é hoje!!...

Boga ou Beluga?

arquivos

Junho 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Abril 2010

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Restaurantes para fumadores
Consulte aqui a lista de restaurantes onde os fumadores também têm direito à vida.
sete vidas mais uma: Daniel de Sá
Um Nobel na Maia
Lagoa
Ribeira Grande
Vila Franca do Campo
Do Nordeste à Povoação
Dias de Melo, escritor livre
E se a Igreja se calasse?
O outro lado das tragédias
O meu Brasil português
A menina amarga (II)
A menina amarga (I)
Pelas cinzas de uma bandeira
O caso da Escola do Magistério
Uma confissão desdobrável
O gato e o rato
Contra a Inquisição
D.Diogo
Uma carta de Fradique Mendes
Acróstico
Monotonia
Maia (II)
Maia
Um nome acima de todos os nomes
Um palhaço de Deus
A ópera em Portugal - Conclusão (VIII)
A ópera em Portugal - Um novo estilo, Alfredo Keil (VII)
A ópera em Portugal - O Teatro de S.Carlos (VI)
A ópera em Portugal - Os Intérpretes: Luísa Todi e os Irmãos Andrade (V)
A ópera em Portugal - Marcos Portugal: vida e obra (IV)
A ópera em Portugal - Primeiros tempos / o triunfo (III)
A ópera em Portugal - Introdução da ópera em Portugal (II)
A ópera em Portugal - As origens da ópera (I)
Dois sonetos à maneira de Natália Correia
Duas garrafas de Macieira
As esponjas das lágrimas
Lição de Português
500 000 soldados
Depois do portão da casa
Auto da Mazurca
Auto da Barca de Bruxelas
Malino
Romance da Bicha-Fera
A Casa
Tremor de terra, temor do céu.
Cântico da mãe escrava ao filho morto
Passos Perdidos
A Lenda dos Reis
Daniel de Sá
Um sítio chamado Aqui
O protesto do burrinho
Sete vidas mais uma: Soledade Martinho Costa
Poema renascido
Sete vidas mais uma: Pedro Bicudo
RTP, Açores
As vidas dos outros
subscrever feeds
Sete vidas, sete notas