Quarta-feira, 3 de Junho de 2009
Um parlamento sem vergonha
Quarta-feira, 03 Jun, 2009

É uma questão de semântica, é certo, isto de dizer 'classe política' para falar dos nossos políticos, que a têm tão escassa, mas pronto, seja. Porque foi mesmo a toda a classe política em geral que se dirigiram hoje duas das mais altas figuras do Estado português, directamente e sem rodriguinhos no discurso, em pleno telejornal da nação, matéria a três canais. Um zangado Provedor de Justiça cessante, que a partir de hoje se assume como simples cidadão, afirmou com pose crispada que 'a democracia está em risco', nada menos, classificando de 'obrigatório' este entendimento que tarda acontecer entre os deputados da nação, para finalmente se dicidirem quanto à eleição do seu sucessor.

 

E a seguir vem Jaime Gama, número dois da hierarquia do Estado logo depois do Presidente, batendo diapasão com uma ironia cáustica no recado não menos claro, sem interpretação alternativa: «Se os senhores deputados se entenderam sobre o financiamento dos partidos, agora também é uma boa altura para mostrarem o mesmo entendimento». Ponto final. Dois recados directos, o mesmo discurso sério em tom de alarme comum, o mesmo desprezo subjacente a cada palavra, a mesma referência ao que o povo tarda em chamar de 'escandaleira': aquilo que se está a passar com a eleição do novo Provedor de Justiça. E eu cá só vejo uma explicação para este fenómeno de singular indiferença geral: é que ninguém parece ter verdadeiramente noção do quanto estão aqui em jogo alguns dos nossos direitos fundamentais, direitos de todos nós. E se assim fôr também para tal eu só vejo uma explicação possível, assim, de repente: porque nenhum Provedor conseguiu até hoje deixar cunho pessoal à altura do cargo, talvez, não? Ou então andamos todos mesmo muito distraídos, digo eu, sei lá. Mas lá que dificilmente os senhores deputados conseguiam afronta maior que esta que vão fazendo, impunes, ao povo que os elegeu, isso parece-me certo. Embora se trate de gente particularmente activa e criativa nesse campo, há que reconhecer. E, naturalmente, sem a mínima noção de vergonha.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Samuel a 4 de Junho de 2009 às 00:19
Não a terão... mas é uma vergonha!

Abraço.


De Manuel de Arriaga a 4 de Junho de 2009 às 01:16
Numero 2, logo depois do Presidente?! Deixa cá ver: 1º O Presidente; 2º O Jaime Gama. Está certo!


De shark a 4 de Junho de 2009 às 11:54
Puro e duro.
Magnífico, este teu post.


De Daniel a 4 de Junho de 2009 às 22:45
Como é que queres que um parlamento tenha vergonha, se os parlamentares não a têm?


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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