Quinta-feira, 2 de Julho de 2009
Profissional
Quinta-feira, 02 Jul, 2009

Às vezes sinto falta de re-embalar na blogosfera, há que assumir. Quem sabe compreende, os outros paciência, é o costume. Vem isto a propósito do prazer sempre repetido que é ler Fernando Venâncio, meu amigo de letras e que possui convite vitalício para postar cá na casa, sempre e quando lhe der na mona. O que foi o caso, louvem-se os deuses. Um dia vou ao mail e lá está o dito, talvez não dito mas digo agora, pronto: um textículo, como lhes chamo, salvo seja. Eu li e gostei, mas isso sou eu, que gosto de quaae tudo no Fernando Venâncio, os senhores que façam o favor de avaliar por vós. O material, por assim dizer. Coisa de profissional, bidentemete. 

 

Em baixo: «Profissional»

Sete vidas mais umaFernando Venâncio 

 

Ele estava de calções de verão, e isso foi um erro tremendo. Tinha um boné esbranquiçado (seria sujidade, ou uso?), o que era uma suplementar infelicidade. Levava um cão pela trela, nem pequeno nem grande, raça indistinta, muito dócil, se não mesmo tímido, criando – animal e dono – uma conjuntura simplesmente desventurada. Pusera uns óculos escuros («Ficam-lhe a matar», disse para si mesma uma vizinha, que lhe adorava a barba grisalha), e aqueles óculos eram, se possível, o mais atroz dos azares.
 
Tinha dado, como sempre, a volta ao bairro, naquela manhã soalheira. Caiu ali, já de chave na mão, em cima do canteiro que mais esmerava. Uma bala chegou e sobrou.
 
Para um assassino profissional, e caro, um quarteirão a mais ou a menos, tanto monta.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Daniel a 3 de Julho de 2009 às 02:25
Um final inesperado, apesar da premonição dos óculos escuros que lhe ficavam a matar. Não há dúvida de que o Fernando Venâncio sabe assassinar com classe.


De venancio a 3 de Julho de 2009 às 07:31
Daniel, assim pode ser. Facto é que os itálicos em «Ficam-lhe a matar» foram uma intervenção do Rui.

É uma intervenção interpretativa, que arrasta (ou mesmo impõe) essa conexão assassina - uma conexão que eu próprio (assevero, e lamento) não estabeleci.


De Daniel a 3 de Julho de 2009 às 11:35
Assim a trama piora. Tiveste um cúmplice! E o tal dos óculos só com uma vida, coitado...


De Rui Vasco Neto a 3 de Julho de 2009 às 12:20
benâncio,
tens toda a razão e devo dizer-te que pensei muito antes de intervir, pois como sabes (e o Daniel também, ele em especial) não toco nem numa vírgula dos textos que recebo, como chegam vão. Mas foi uma tentação tão grande.... perdoa-me, caríssimo, foi com a melhor das intenções (repararás de resto que o resto do parêntesis está como veio, foi só salientar a reflexão da vizinha...)

Daniel, querido amigo: estás de bem com a vida? Tenho saudades tuas, claro. Bué.

abraço os dois, entre parêntesis.


De Licitador a 8 de Julho de 2009 às 00:55
Já lá vai uma semana. Então, ninguém dá mais?


De Rui Vasco Neto a 9 de Julho de 2009 às 03:36
licitou com acerto, este licitador. Está mais que na hora de lh'arrefinfar com outra posta, de pescada.
I'm on it, sir. Desculpe a demora.


De sinhã a 9 de Julho de 2009 às 09:59
e que bom gosto tens, Ruizinho. :-)

(não achas que ficava tão bem no festival de curtas?) :-)


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