Sábado, 8 de Agosto de 2009
O último dos maganos
Sábado, 08 Ago, 2009

Já não há talento ao vivo, para nos encantar com novas criações, vindo desse trio de ases que me ensinou a arte da televisão ao mostrar como se fazia tão bem o Zip-Zip, como se conduzia um público pela comunicação, do riso à lágrima, do silêncio à gargalhada, para descomprimir,  até à explosão final num enorme aplauso, minutos de pé, tudo à conta de uma genuína intuição de berço, ainda Portugal era a preto e branco e as vedetas de televisão uma escassa meia dúzia de pioneiros. Tudo mudou na arte, dessa altura para cá, e muita da mudança se terá ficado a dever ao talento desse trio famoso e singular. Trio apenas lendário, daqui para a frente, pois dos tais três que vos falo um já tinha morrido e outro vivia morto quando hoje o terceiro se foi e a notícia se soube: morreu Raul Solnado. Não, não era para rir, desta vez.

 

O meu mundo ficou mais pobre, é certo, o pessoal e o profissional. Portugal ficou órfão, órfão de pai na sua cultura, no seu humor, esse humor que tanta vez nos arrasta, carrega em ombros e obriga a galgar os dias, tudo por umas palminhas, às vezes quando a sopa é água e os afectos tão escassos e miseráveis, tanta, tanta vez... Raul Solnado era um senhor que tinha graça, muita graça, não era um comediante. Era um de nós e sabia ser todos, mimava qualquer de nós com uma mestria única de grande senhor do povo. Eu perdi uma referência, lamentavelmente mais do que um amigo, que tanto nunca fiz por merecer, não tenho pretensões. Mas tínhamos uma ligação cúmplice, há mais de vinte anos, com ponto de apoio num local muito especial, quatro paredes com história na história da vida do Raul: a casa onde ele nasceu, em plena Madragoa, aquele terceiro andar ao Pasteleiro onde há quase oitenta anos abriu os olhos e iniciou esta caminhada que hoje teve um final meramente físico, apenas material. A casa mudou; há muitos, muitos anos que vem sendo o atelier do pintor Silva Palmeira, um amigo comum. Por isso sempre que nos encontrávamos a conversa era inevitável, as suas memórias do Pasteleiro subiam à partilha com aquela emoção inconfundível no Raul, aquela voz embargada, o embalo da gaguez, aquele brilhozinho nos olhos que piscavam, piscavam, piscavam muito, piscavam sempre, como quem pisca o olho à vida, para que esta lhe faça o favor de ser feliz. Simplesmente feliz.

 

Ausentou-se hoje, o Raul. Foi-se do nosso convívio, da festa da vida, dos palcos e dos bastidores, dos copos e das paixões. Nunca do meu coração.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De maya a 8 de Agosto de 2009 às 23:49
que... que, que lindoooo: "...aquele brilhozinho nos olhos que piscavam, piscavam, piscavam muito, piscavam sempre, como quem pisca o olho à vida, para que esta lhe faça o favor de ser feliz. Simplesmente feliz."

grande, enorme abraço


De Alfredo Gago da Câmara a 9 de Agosto de 2009 às 03:57
Lindo e comovente texto, amigo Rui!
Tive o prazer de confraternizar apenas uma noite com Raul Solnado. Fez o favor de me escrever um elogio no meu livro de honra da minha velha casa de fados "A Taverna". Ao contrário de algumas decepções que tive com pessoas que só conhecia através do pequeno ecrã, este Grande Senhor não me desiludiu.
Penso que há cerca de um ano o Artur Agostinho fez um programa na RTP, que foi uma retrospectiva da sua carreira com momentos hilariantes. Tornei a rir de vontade e, por mais de uma hora, não ouvi um palavrão sequer. Ninguém foi usado ou amesquinhado. Não ouvi sequer falar de politica., até porque não era permitido.. Não era fácil fazer humor sem estes condimentos, mas ele conseguia! Tudo se subentendia com uma subtileza que deixa os humoristas deste país a quilómetros de distância.
Abraço, laiãozinho e espero que não seja preciso morrer mais alguém para voltares aqui.


De Teresa a 9 de Agosto de 2009 às 06:36
Subscrevo. Fiquei muito triste.


De mifá a 9 de Agosto de 2009 às 13:03
Arrancar gargalhadas aos outros é um dos maiores actos de inteligência mas também de abnegação e de filantropia.
Se "Portugal era ainda a preto e branco" agora ficou praticamente só preto.
Devolver-lhe um pouco de colorido creio ser a homenagem mais adequada a este Homem que, ontem, com os seus sketches humorísticos em reprise, proporcionou a que eu penso ser a mais eloquente e saudável oração: a do riso.
Bem-haja e que a terra lhe seja muito, mas muito, leve.
Abraço-te. Comovidamente.

( e sim, será preciso que algum de nós se mate para te ter de volta? não dás por menos?...)


De mifá a 9 de Agosto de 2009 às 13:16
( ah, e deixa-me dizer que tenho a certeza que o Solnado adorou o título )


De Raposa a 9 de Agosto de 2009 às 19:45
Grande homenagem :-)


De sarrabal a 9 de Agosto de 2009 às 20:19
Dizem que «se há uma estrela que se apaga na Terra, outra surge no Céu». Assim seja.

Conheci pesoalmente Raúl Solnado no lançamento de um livro. Qual, não me recordo. Recordo, sim, a sua gentileza para comigo, durante alguns momentos, nessa tarde. E o Raúl Solnado que tive a sorte de conhecer, era igualzinho ao Raúl Solnado que via nos palcos ou na TV: o mesmo olhar, os mesmos «tiques», o mesmo sorriso, a mesma simplicidade.

Mas Raúl Solnado deixa raízes na arte de bem representar: a sua neta Joana Solnado.

Com a partida de tantos nomes consagrados e queridos, Portugal vai ficando cada vez mais pobre.

Soledade Martinho Costa


De sinhã a 12 de Agosto de 2009 às 09:46
se houver espaço, eu deixo o meu tributo juntinho ao teu (que melhor não há). :-(


De Samuel a 12 de Agosto de 2009 às 11:38
Assim, é bom ler um texto de homenagem...

Abraço.


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