Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009
A meio caminho do céu
Quinta-feira, 10 Set, 2009

Na minha terra nasce-se e morre-se a meio caminho do céu com alguma frequência. Talvez daí a benção que trazemos por vir ao mundo em lugar tão abençoado pela divina ironia. Decalcados na beleza vamos brotando do basalto como flores da terra, e as nossas histórias vão fazendo a história deste Portugal supostamente de todos, quase sempre pelo que têm de invulgar, pelo estranho, distinto, logo notícia. Ora nascer e morrer já raramente é notícia hoje em dia, convenhamos, isto se não contarmos com o Michael Jackson ou com os infantes de D:Letízia de Bourbon, evidentemente. Mas na minha terra há uma senhora das Flores (ou será de S.Jorge?) que já deu à luz não sei se dois se três filhos no mesmo aviocar da Força Aérea, de resto a tripulação que fez os partos foi a mesma e tudo, o último deu recentemente na RTP-Açores e passou no continente à hora do jantar e seguintes, tudo a cores, está visto. Depois a vida seguiu a sua marcha, claro, até ao próximo gaiato vir dali ainda há-de faltar um bocadito, que diabo, por isso siga o Afeganistão e o Freeport, Portas e Louçã mais a TVI e o Preço Certo em Euros e Portugal avança, nas ilhas igual, só que mais devagarinho. E hoje um doente do hospital de Ponta Delgada piorou a meio do voo que o traria a Lisboa para tratamento por cá que não há por lá. Com apenas meia hora de voo o avião teve que regressar a Ponta Delgada com 192 passageiros a bordo, 192 passageiros que depois de amadurecerem a irritação do contratempo, mais os contratempos efectivos e eventuais prejuízos pessoais que a situação acarretou, tudo temperado com o que ainda lhes restar nas almas de solidariedade e compaixão humanas e bem centrifugado pela força do inevitável e ausência total de alternativa durante umas quantas horas, vão talvez olhar as ilhas e sentir o rugir dos oceanos e ver aqueles horizontes longínquos que se vêem nos filmes e nas férias de uma outra forma, diferente por um breve, muito breve mas muito intenso momento. Vão ser ilhéus, por dentro, num instante. E quem sabe se por obra e graça desse momento, subindo e descendo nas mãos de Deus entre tanto aterrar e levantar, empurradas para a compaixão inadiável, algumas daquelas pessoas não encaram e aprendem a vida por uma vez, uma qualquer que tinham algures lá atrás quando ainda tinham os pés no chão, quando ainda não sabiam que na minha terra se nasce e morre a meio caminho do céu com alguma frequência, como em toda a parte. E que essa sim, é a suprema ironia divina.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Raposa Crente a 10 de Setembro de 2009 às 19:07
Antes morrer a meio caminho do céu do que a dois passos do inferno.


De Rui Vasco Neto a 12 de Setembro de 2009 às 18:04
hum, aaaaa, pois, interessante...


De Samuel a 11 de Setembro de 2009 às 00:55
A primeira frase teria sido o suficiente para me fazer ganhar a noite. Parabéns!

Abraço.


De Rui Vasco Neto a 12 de Setembro de 2009 às 17:26
sam, grande!
gadinho, viu? sabias que estamos quase a fazer dois anos desta ralação que temos aqui? E é sempre um prazer saber-te, sempre renovado.a cada recado, nota, texto, comentário. Abraço-te, amigo.


De maria helena a 11 de Setembro de 2009 às 15:50
Bem, está visto que este é mais um blogue de açorianos, não restam dúvidas... mas com uma escrita que dá gosto, pelo menos, não é como o falar que ninguém percebe, esta prosa percebe-se muito bem pois está muitíssimo bem conseguida vê-se que quem escreve o faz com sentimento e com um talento que não é muito normal encontrar.
Parabéns ao autor.

M.H.C.


De Rui Vasco Neto a 12 de Setembro de 2009 às 17:23
maria helena,
obrigado pelas palavras, que percebi sem esforço por não ter sotaque. Seja benvinda e venha mais vezes, há mais letras de onde vieram estas. E melhores, quem sabe.


De jv a 12 de Setembro de 2009 às 00:01
Bela definição de insularidade.


De Rui Vasco Neto a 12 de Setembro de 2009 às 17:21
jv,
obrigado, caríssimo. também acho, por acaso.
abraço


De eu, de nós... a 12 de Setembro de 2009 às 03:12
vasco,
genial, como tu. Como só tu...
não mudes, nunca...
...que eu morreria, acho.





De Rui Vasco Neto a 12 de Setembro de 2009 às 17:07
caro (a) 'eu de nós',
pois muit'obrigadinho pelas simpáticas palavras, pese o exagero notório das ditas, porém tem um porém, a saber: não há 'nós' assim que me recorde, de momento ou mesmo depois, fará o favor de perdoar pela circunstância. Sou um 'eu' convicto, rien a faire. Mas pelo amor da santa não me morra por tão pouco, que os passamentos estão pela hora da morte hoje em dia, como tudo. E aceite todo o meu carinho, na jornada entre os vivos, vá lá. Mas cada um por si, devo insistir. Homessa!!!


De Alfredo Gago da Câmara a 12 de Setembro de 2009 às 12:54
Amigo Rui:
Quase que vem a propósito! É origatório consultares imediatamente este endereço na youtube. Espero que gostes

www.youtube.com/watch?v=R4mrOaODj5A

Abraço


De Rui Vasco Neto a 12 de Setembro de 2009 às 17:19
Éme!! tá demás!!! Grandes novidades artísticas na família, ao que vejo (e ouço)!! A melodia é claramente alfredínica, reconhece-se o toque sem esforço. E mano Jorge, hein?!! Família de artistas é o que dá. Parabéns aos dois. E um abraço atlântico, com saudade.


De sinhã a 14 de Setembro de 2009 às 13:16
é o ironelevador. :-)


De sarrabal a 14 de Setembro de 2009 às 17:32
Não sei que mais admirar, se o post em si (mutíssimo bom, como sempre), se as respostas do Rui aos comentários feitos. Uma graça, um humor, que nos (me) faz falta. Depois, meu Amigo, que grande ausência! Felizmente, o regresso aos «bichanos», coitados... Claro que o vou lendo, como sabe.

Abraço da Sol


De maya a 15 de Setembro de 2009 às 02:29
Rui Vasco Neto,
que bom reler-te!
abraço saudoso


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