Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011
A questão das palavras e das cores ou as palavras e cores desta questão.
Segunda-feira, 17 Jan, 2011

Julgo não estar enganado, vejamos: a mim parece-me que vai tudo nas palavras, nas palavras e nas cores escolhidas por uns para pintar o que aconteceu aos dois, de forma a poder instruir todos os outros sobre a memória específica que devem guardar sobre o assunto. Vou tentar explicar melhor. Na verdade consigo até dizer exactamente o mesmo usando uma só palavra, hipocrisia, só não vejo é razão para resumos nem para temer as palavras, já que elas são também um poderoso instrumento da verdade, tal como da mentira. A palavra-chave deste caso de horror, por exemplo, qual é? Muitos dirão ‘homosexualidade’, e muito tem sido feito e dito para instalar essa ideia, de que este é um caso que acontece pela homosexualidade de duas pessoas. Eu não vejo assim, confesso. Para mim a palavra-chave de todo este caso é ‘abuso’ e não qualquer outra que até pode caber, situar, indiciar o assunto, digamos assim, mas que de todo não explica nada. ‘Abuso’ é a palavra aqui a reter, a mola que saltou de muito aperto e fez o estrago que se viu.

 

Depois há a tal questão das cores. Qual é a côr deste assunto? Muitos dirão ‘côr de rosa’, e muito tem sido feito e dito para instalar essa ideia, de que este é um caso do mundo cor de rosa das colunas sociais, um épico sobre a grande paixão de um coração sensível que foi para Nova York viver um grande amor e que este, ingrato, o matou. Tudo muito rosa, muito choque, muito drama, panache a rodos e ainda um corolário de grand finale com direito a cinzas espalhadas ao vento na Broadway para mais tarde recordar, coisa de jet-oito, no mínimo, logo o máximo do rosa nacional. Será? Pois eu não vejo assim mais uma vez. Para mim qualquer resquício de rosa que por aqui se encontre só pode vir do intenso branqueamento que vem sendo feito ao negro-sórdido que seria a côr natural deste caso, se o morto não fosse o Carlos Castro mas sim qualquer outro homosexual de 65 anos assassinado por qualquer outro amante de 20 levado ao castigo em Nova York com isco de promessas vãs. Fosse esse o caso e muito se falaria seguramente na componente sórdida da pressão sexual óbvia, típica do predador que paga as contas do bem-bom mas exige troco de bumbum. Só que aqui curiosamente só existe o corrompido, não se ouve qualquer referência a um corruptor, só à sua pretensa ingenuidade. C'est ça la vie en rose, non?

 

De volta às palavras: este é um caso em que é preciso ter mil cuidados com aquelas que usamos para o descrever, para já não falar das que ousemos utilizar ao serviço de uma opinião. É que está em jogo todo um sistema, toda uma classe, toda uma indústria, que digo eu?  -  todo um país, no fundo. Há por isso que explicar tudo bem explicadinho a bem da decência, que isto ainda é uma pátria de famílias e, na dúvida, o decoro pode ter que se impor à verdade por estarem em jogo valores de Estado ou pior: o que dizem os programas da manhã da SIC ou da TVI. Por isso entendamo-nos desde já no óbvio, que fica dito e assinado: Renato Seabra não tem perdão pelo que fez. Não se violenta assim um outro ser humano, extirpar-lhe a vida a golpes de saca-rolhas e computador, estrangulamento e castração, por esta ou outra ordem, não se faz, não se perdoa. E sobretudo não tem perdão aquilo que Renato fez à sua própria vida, um mundo de oportunidades em aberto até ao dia aziago em que se deixou contactar por Carlos Castro e uma vida igualmente acabada naquele momento de loucura no quarto, naquela que foi a primeira das muitas mortes que o esperam em cada um de todos os dias dos próximos anos da sua existência. E aqui vem a parte que o meu povo gosta. Por muito impiedoso que seja recordá-lo a verdade é que, se as coisas lhe correrem bem na cadeia, Renato vai ser somebody's bitch nos próximos vinte e cinco anos, objecto das lambujices mais abjectas que possamos imaginar envolvendo animais enjaulados, crueldade sem limites, tesão raivosa, muita impiedade e um ex-garoto perdido que vai aprender como a beleza física pode virar uma maldição em Rykers Island. E este é o melhor cenário para Renato Seabra, porque se as coisas lhe correrem mal ele vai provavelmente ser everybody's bitch até ao dia da sua morte, natural ou provocada, por si ou por outrém, num mar de inimaginável sofrimento. Num caso ou noutro, o sexo com Carlos Castro poderá vir a ser uma miragem do paraíso, na comparação, o que só mostra o quão terrível pode vir a ser a existência deste rapaz que já morreu e ainda não sabe. Agora eu pergunto ao meu país, a este Portugal que chora o pobre cronista cor de rosa que só queria amar perdidamente um corpinho jovem e tenro de vint'anos que tinha comprado com umas roupinhas e viagens: não te parece castigo suficiente, Portugal? Há que castrá-lo também ou um futuro assim negro já acerta as contas deste garoto palerma que um dia acreditou que o pai natal podia ser paneleiro que não fazia mal viajar no trenó?

 

A verdade é que Carlos Castro era um predador, uma bicha velha e sabida que caçava rapazinhos onde os houvesse disponíveis, do Parque Eduardo VII ao Finalmente, dos jardins de Belém ao Facebook onde por último sacou o tonto Renato. Sabia-a toda, os truques todos de uma cegueira de sedução testada e aplicada ao longo de cinquenta anos de engates todo-o-terreno na dependência de um complexo de Marlene mal amada. Era um barron como tantos outros, que se insinuam com chocolates, ténis de marca ou passeios de Ferrari, roupas da moda ou viagens a Nova York enquanto babam com o pensamento numa coisa, uma só e mais nenhuma. Vivia um cio agressivo que lhe dava sentido à vida e que os 'amigos' caracterizam como 'uma grande ingenuidade, de uma pessoa que se dava incondicionalmente e sofria muito por amor'... os mesmos amigos que juram agora ao mundo que foi Renato quem viu as fotos do Carlos na net e se perdeu de amores por aquele físico magnífico, aquela pose sensual e irresistível. Foi o rapaz que, sabidão, lhe deu a volta à cabeça e o arrastou para a cama prometendo o mundo porque era homosexual e lhe queria dar muitos beijinhos... e o Carlos, coitado, embarcou sem querer, ou vá lá, querendo mas pouco, muito pouco, quase nada, nadinha mesmo. Foi o outro, o malandro de Cantanhede que era um atiradiço e que o desencaminhou por ambição desmedida, logo a ele que nada prometeu, era incapaz, nada ofereceu por um beijo, um apalpão, um desfile por Lisboa com o troféu de caça ao lado para que Lisboa imaginasse o que ele delirava imaginando: que no seu mundo de diva brilhavam as cores da rosa e das paixões impossíveis. Por isso moral da história não há, que esta é a história da própria imoralidade. Só umas palavrinhas finais, limpas de ironia. Pobre Carlos, que foi ao engano. E triste Renato que foi enganado.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De maria a 18 de Janeiro de 2011 às 04:29
Crú e duro. Mas é assim a vida. O jovem prostituto lixou a vida dele quando acabou com a vida de quem provavelmente o violentou. Psiquicamente, muito, talvez. Fisicamente devagarinho para não assustar muito...

Abraço.



De tutela verrinosa a 18 de Janeiro de 2011 às 19:05
Elevado grau de acidez corrosiva - APROVADO !!! :))


De c. ribeiro ferreira a 18 de Janeiro de 2011 às 21:07
CARAMBA!!!!
ISTO É QUE É ESCREVER .... AI RUI, RUI, POR ONDE ANDA VOCÊ, HOMEM, MAIS ESTE TALENTO ENORME QUE DEUS LHE DEU??? DESCULPE A PERGUNTA, MAS COMO ESTAMOS A FALAR DE VIDAS DESPERDIÇADAS LEMBREI-ME.... (NÃO ME LEVE A MAL, PEÇO-LHE!! ) SOU O SEU FÃ Nº 1, JÁ DESDE O JORNAL TAL&QUAL, ONDE FEZ GRAAAAANDE JORNALISMO, E DA RTP QUANDO ERA PIVOT DO JORNAL DA NOITE, UM DOS MELHORES QUE POR LÁ PASSOU!!!
VOLTE HOMEM QUE ESTÁ PERDOADO...


De Anónimo a 18 de Janeiro de 2011 às 21:38
E agora?
Qual vai ser a tua resposta?
P


De Anónimo a 18 de Janeiro de 2011 às 22:20
Excelente! A verdade nua e crua.

Maria Isabel


De shark a 20 de Janeiro de 2011 às 16:47
Fónix, depois deste atestado não contes com grandes proximidades por parte da Lili Caneças.
A Corte não perdoa esta franqueza despudorada, pá...


De Samuel a 25 de Janeiro de 2011 às 18:01
Em cheio! Impiedosamente verdadeiro!

Abraço.


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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