Quinta-feira, 2 de Junho de 2011
Eu, ganso.
Quinta-feira, 02 Jun, 2011

Alguém cuja opinião eu muito respeito e oiço, sempre com redobrada atenção, disse-me esta semana que me bastaria a inteligência de um ganso para conseguir alcançar um determinado objectivo que me proponho atingir há vários anos sem sucesso. Mais explicadinho, que eu só tinha que ser ganso e seguir o bando e tudo correria às mil maravilhas para o meu lado. Eu cá embatuquei, confesso. Caí de quatro. Fosse um burro a dizer-mo e eu ficar-me-ia pelas bordas da fábula e fugiria de buscar sentido mais profundo em tão tresmalhada analogia. Mas não, longe disso, foi mais um mocho arraposado quem me falou, olhos bem abertos e esperteza em muito superior à minha, características que aliadas à inteligência prática de que é particularmente dotada a sua sub-espécie fazem deste bicho um animal de respeito, nesta selva em que existo e resisto. Daí que fiquei a pensar, a ruminar, bufando para dentro mas sem ceder ao grasnado de irritação que seria normal e expectável neste animaleco que sou em circunstâncias deste calibre. Mas não fiquei convencido, tenho que confessar. Arrepiado sim, convencido pouco, confuso muito. E um nadita irritado, assumo. 

Afinal tenho eu manias de fera com muitos quilómetros de National Geografic, papa-léguas em savanas e montes bem distantes do eixo Rossio-Entrecampos para dar agora por mim exposto neste espelho que me olha de frente e reflecte de esquina, rasando alguma lógica mas aterrando em cheio nos antípodas do meu imaginário, no deserto mais inóspito das minhas convicções!!! Pelo sim pelo não obriguei-me a considerar o argumento, ponderei até a possibilidade de acerto, por mero exercício de humildade. Mas nada a fazer, por mais voltas que dê à metáfora a analogia parece-me tão descabida e disparatada como da primeira vez que a escutei, pese a sapiência do bico que a palrou. Porquê? Passo a explicar.

Não é que eu não compreenda onde quer chegar a comparação, qual o sentido útil a retirar da relação de semelhança e até o superior alcance e objectivo do bitaite que agradeço, raso e reconhecido. Mas para o conseguir entender parece-me manifestamente escassa a inteligência que Deus deu às aves em questão, pelo que o palpite cai de maduro muito antes de me deixar verde de raiva, para começar a conversa. E depois há a questão das diferenças inultrapassáveis  -  e atenção que não falo de penas e pelos, braços e asas, pernas e pescoço, nada que se pareça. Falo sim da elegância que me falta e lhes sobra, da gansualidade que nos separa, da territorialidade que os caracteriza e a mim me passa ao lado, do hábito que têm de comer tudo o que lhes apareça pela frente enquanto eu me mantenho criterioso e cada vez mais esquisito no bicar (mesmo no Verão, quando a caça ronda descapotável e disponível) e, last but not least, falo do saboroso foie gras em que se transformam os seus dias no mesmo final que a mim me vai seguramente comer inteiro e intacto nestes maus fígados que me vão mantendo vivo e orgulhosamente resistente à padronização da raça, essa sempiterna tentação de todo o poder reinante em qualquer cadeia alimentar deste mundo de Deus e do Diabo.

Daí que digo não ao conselho, ganso nunca, decididamente obrigado mas não, obrigado. Tanso talvez vá sendo, aqui e ali, que a selva é densa e eu serei pitosga na visão de mim próprio e míope de espírito nas curvas da tentação. Isso sim, aceito. Mas o meu canto de cisne há-de ecoar para além do estampido da manada ou eu não terei vivido de todo, quando chegar a hora do balanço final das minhas penas. E se há moral a tirar deste lafonténico e bem intencionado palpite, eu cá só vejo uma e pouco mais de troco: é que até o bicho mais esperto e informado mete a pata, de quando em vez. E essa, sinceramente, já cá se sabia.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Anónimo a 2 de Junho de 2011 às 15:36
GRANDE, GRANDE TEXTO!!
E não me refiro ao tamanho...
.
Sem mais comentários.
Sem palavras, aliás.

S.


De Anónimo a 2 de Junho de 2011 às 16:12
Meu caro, continua a gostar da sua escrita e estilo, mas vamos ao conteudo.
Mesmo que não conheça o dito objectivo a alcançar, e isso seria importante para analisar a analogia utilizada (em qulquer dos casos são sempre redutoras as analogias). Quer-me parecer que muitas vezes seremos gansos, ou ainda infinitamente mais incapazes de exercer a nossa individualidade na exacta medida em que ela só faz sentido no colectivo e admitindo tambem o transcendente (não necessariamente religioso ou sobrenatural) com o qual interagimos. Ora experimente verificar o comportamento dos ditos (gansos) perante uma chuvada monumental.
A analogia não será feliz, pior seria falar de galinhas, mas percebo a ideia dos limites da minha acção, mesmo tendo em consideração todas as teorias filisoficas "do fazer-se a si próprio" (Sartre?), dos humanistas ao "mundo como repreentação" (Schopenhauer) passando pelo famoso "livre arbitrio" e lembrando o superhomem e a morte de Deus de Nitzsche.
Polemize, rivalize, zangue-se... e viva


De Anónimo a 2 de Junho de 2011 às 16:32
a comparação é estupida, mas se a levas à letra não será melhor. Pode ser entendida apenas e só se aplicada a um objectivo, ou não?
O tema pode ficar muito hermetico, quando publico e em tom pessoal e ao mesmo tempo ambiguo pelas mesmas razões.


De Anónimo a 2 de Junho de 2011 às 16:53
Caro Rui, tenho que corrigir o meu comentário anterior (o 2º). Não os erros ortograficos, que vi serem tantos, mas a primeira afirmação deve ser : "Continuo a gostar" e não continua a gostar. Mais claro: eu gosto do seu estilo de escrita, do ritmo, das imagens e da capacidade de exprimir (fazer sentir) emoções. Mas vamos discutindo. OK.


De Corrêa Simões a 2 de Junho de 2011 às 17:14
Ora viva meu caro Rui Vasco Neto! Bem haja pelo seu regresso à blogosfera que bem precisa do seu génio e da sua irreverência sempre provocadora... a mim parace-me até muitas vezes provocadora de si próprio, como neste caso do texto FANTÁSTICO com que nos premiou. Tinha saudades de o ler.
Vejo alguma pistas que acho lhe seriam MUITO ÚTEIS de seguir no comentário do anónimo (que pena, que pena) que comentou em segundo lugar e depois veio corrigir aquilo que para todos nós é igual: continuamos todos a gostar MUITO da sua escrita, do seu estilo e também do seu conteúdo!
Muitos parabéns e felicidades para mais esta vida (é a oitava, agora?)

O seu admirador de sempre

F. Corrêa Simões


De Cristina C. a 2 de Junho de 2011 às 17:17
Rui, meu querido:
Perco-me a ler-te, vou na corrente das tuas palavras e quando chego ao fim só quero mais e mais e mais!!!!!!
Mesmo aqui de longe segue aquele abraço que sabes ser sempre bem apertado! E encantado tambem...
E escreve mais, mais e mais, por favor.

um beijo, querido

C.


De Rui Vasco Neto a 2 de Junho de 2011 às 18:39
Caríssimos, vamos por partes:

S., eu próprio não tenho palavras para o seu comentário. Fico-lhe grato, natural, volte sempre.
--------------------------------------------
caro nónimo,
começo por lhe dizer que também não desgosto da sua escrita, pese a (belíssima) trabalhêra que ela me traz em tão escassas linhas...-)) mas vamos lá então, siga a marinha, morra quem se negue:
1.claro que as analogias são redutoras, são mais e pior, são traiçoeiras como a língua portuguesa... mas e que delicioso e estimulante que isso é, não concorda?
2.«muitas vezes seremos gansos, ou ainda infinitamente mais incapazes de exercer a nossa individualidade na exacta medida em que ela só faz sentido no colectivo e admitindo tambem o transcendente com o qual interagimos.», sábias palavras, preciosa lição. Que eu não deixei de ter presente, garanto-lhe, na hora em que a ironia me escolheu para escrever assim...
3.Fico sinceramente feliz por si quando me diz «percebo a ideia dos limites da minha acção», até um nadita invejoso, creia-me. Afinal, por alguma razão escrevi que sou «pitosga na visão de mim próprio e míope de espírito nas curvas da tentação»....
4.Quanto à rapaziada de que fala é tudo filhos-escola de uma turma que não foi às minhas aulas, (um singelo aforimo que uso para contornar a confissão de que fui eu quem não foi às aulas deles), mas reconheço um nome ou outro, vejamos, o tal Satre (corrigir-me-á o meu caro se eu estiver em erro) do 'fazer-se a si próprio' será talvez o mesmo que acrescentou que «não fazemos aquilo que queremos e no entanto somos responsáveis por aquilo que somos,». certo? Pergunto porque se for o tal creio começar a ter uma vaga ideia de alguns dos limites a que o meu caro se refere, digo eu. Já Shopenhauer, esse humanista maroto, deixou recado para nós ambos antecipando esta troca de comentários, já que deixou dito que «a opinião alheia é a origem de todo o nosso amor próprio», finalizando com um remoque que eu não sei se será para mim: «muitas vezes magoado por ter uma sensibilidade doentia...) Huumm... talvez, que me diz?
5.Quanto à piada do superhomem, que defendi qual Ricardo de baliza aberta, só lhe posso responder com as palavras do seu último citado, esse sim, rapaz da minha criação (artística, pelo menos): pois lá punha o velho Friedrich em tom de desabafo, no seu 'Para além de Bem e Mal', a mesma questão que lhe deixo à si, à guisa de despedida, a propósito deste meu texto e de tudo o mais que me atormenta a alma e que o meu caro nem sonha, acredite: «Quantos séculos precisa um espírito para ser compreendido?»

Abraço-o com uma certeza, pelo menos: foi um verdadeiro prazer este dedo e meio de conversa.

Apareça mais vezes, sim? e se trouxer um nome garanto que ninguém lhe levará a mal.
--------------------------------------------

caríssima nónima,
é certo que as palavras não têm sexo mas eu cá apostaria no feminino no seu caso em particular. Mera suposição, claro, a que sou levado por dois pormenores apenas, a saber:
1. 'estúpida' é uma palavra forte para a comparação, um homem seria mais suave, creio, mais cor-de-rosa na opinião...
2.a suposição que eu levei à letra a comparação faz-me deduzir que você levou à letra as minhas palavras e isso sim, creio ser muito feminino... afinal, das três ou quatro vezes que eu disse 'amo-te' na minha vida acabei casado, com filhos e sogros e se isso não é levar as coisas à letra não sei o que será...-)))))
volte sempre e não se zangue, nem imagina o que isso engorda. Foi um prazer.
---------------------------------------------

Corrêa Simões, caríssimo, há quanto tempo não tinha o prazer das suas palavras, sempre amáveis, sempre encorajadoras... não sei se é a oitava se a nona se outra, avariou-se-me o frigorífico e temo ter estragado umas quantas pelo meio. Mas estou cá, como vê, ou seja, como lê.
conto consigo cá no clube, pois então.
----------------------------------------------------
Cristina, minha querida amiga,
a gentileza do costume e o mel de sempre nas palavras que me deixas. Qualquer dia habituo-me e temos um problema.... enfim, só meio problema, afinal temops um oceano entre nós..-))
beijos, claro.

A todos em geral quero deixar o meu agradecimento pelos comentários, sempre importantes. E um abraço carinhoso do
rvn


De Anónimo a 2 de Junho de 2011 às 21:44
Comentar o texto? Comentar os comentários dos comentários propriamente ditos? Nem sei...e o que sei é bastante para não escrever mais nada.
Carry on.
P


De Alfredo Gago da Câmara a 2 de Junho de 2011 às 22:54
Meu querido amigo Rui
Que prazer tenho em ter a amizade de quem escreve o que acabei de ler. Sinto-me um pouco "agansonado".
Sendo, como bem me conheces, um boca rota... Ora aqui vai:
Talvez sejas um ganso tresmalhado de um bando que te fez perder o interesso, apenas pelo o azar de te terem dotado com a inteligência de um mocho que, de vez em quando, exibe penas de pavão.
Concelho: fala com o Ladino, o pardalito do Miguel Torga.
Abraço deste galinácio.


De João Paulo Soares a 6 de Junho de 2011 às 21:24
Brutal... OBRIGADO (nunca ganso)


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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