Terça-feira, 7 de Junho de 2011
Ver as horas
Terça-feira, 07 Jun, 2011

Esta semana pus um relógio, há anos que tinha deixado de usar. Nenhuma aversão ao tempo, nada disso, afinal ele leva-me de embalo na mesma e ignorá-lo não resolveria o problema, ainda que existisse um. O que não, não é o caso, a história do relógio é outra e eu próprio já a esqueci. O assunto agora é que voltei a andar com as horas no pulso, todos os minutos ao segundo para eu contar, esticar, cumprir, contornar, enfim, está lá a medida que marca e define a viagem, a parte do itenerário é que é comigo, depende de mim. Só tenho que olhar, consultar, checar os limites e seguir em frente, passo a passo, tic a tac, na velocidade que quiser e por rua, estrada ou vereda à escolha. Tudo o resto é suposto acontecer, tão simplesmente. Pfff. Se é assim tudo bem, afinal não custa, passo a usar.

E já que o tenho lá vou olhando, de quando em vez, mesmo quando não me faz diferença nenhuma serem oito e catorze ou dez e vinte e cinco. Olho só pelo hábito que entendi dever criar de saber a quantas ando. E o mal de olhar, é sabido, é que às vezes a gente vê mesmo, até aquelas coisas que não dão jeito ver na circunstância ou que nós passávamos bem sem nos lembrarmos que lá estão, escarrapachadas por detrás da visão perfeita que construímos em espírito daquilo que miramos por mero vício de mirar. O caso do meu relógio novo, por exemplo, é paradigmático. Olho para ver que são nove e vinte e acabo a constatar que a vida corre em sentido único, no caso o dos ponteiros, tic por tac mas sempre pela direita, aparentemente. E não, não é piadinha política, é só um lembrete pessoal das muitas vezes que entendi ir pela esquerda berrando que o mundo seguia em contramão... Mas vejo mais, vejo as horas e os minutos e ao somá-los percebo que passam apenas em função do que somos para os outros e não para dar chão ao que julgamos ser, erro em que muito incorri em tempos de miopia, às vezes cegueira da pior: aquela que nos embala no maior dos enganos ao garantir-nos que somos dias, somos meses, somos anos nas vidas daqueles que dizemos amar. Quando afinal um simples relógio, bem olhado, nos mostra que não passamos de um segundo fugaz, um mero nanocoiso perdido numa imensidão de milénios que tantas e tantas vezes vivemos sem vislumbrar, sequer ao longe. Ou, pior, que assim morremos sem saber a quantas andámos.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De turquesa a 7 de Junho de 2011 às 14:53
Gostei do seu post. Lembro-me dum livro do escritor turco ( Ahmet Hamdi Tanpınar). Infelizmente não existe em portugues senão em espanhol e turco. Chama-se "El instituto para la sincronización de los relojes".


De Corrêa Simões a 7 de Junho de 2011 às 15:12
Caro Rui Vasco Neto,
Mais um exemplo da sua boa escrita, como de costume. Folgo em ver que o meu caro amigo está 'embalado' e dou-lhe os meus sinceros parabéns pelo merecido destaque que a Sapo lhe fez. Foi através da página Sapo, aliás, que eu hoje ouvi falar de si antes de fazer a minha visita habitual ao sete vidas. E acredite, ouvi o melhor...

os meus melhores cumprimentos

F. Corrêa Simões


De Anónimo a 7 de Junho de 2011 às 15:13
Ora viva, caro Rui: de novo o anónimo que podia deixar o nome.
É uma alegria para os sentidos continuar a lê-lo: desde uma alegoria à dignidade e à capacidade de fazer diferente (será sempre a tempo) tendo como pretexto J.Socrates até ao simples relógio que nos reconcilia com a vida e… diz o Rui “morrer sim, mas saber a quantas andámos”, passando pela maravilhosa homenagem ao cão Gastão, ou a melhor reflexão das "minhas relações com outros". Tudo num crescendo de lucidez, elegância e estilo, no mínimo “sem medos”.
Já agora, jornalista é jornalista. Provou-o em pouco tempo em que pesquisando, e por isso a “trabalhêra”, me respondeu fundamentado e seguro da bondade da discussão.
Continuemos, para bingo não gosto muito, mas no caminho para algo…


De PaperLife a 7 de Junho de 2011 às 18:31
Parabéns pelo destaque :)


De Anónimo a 7 de Junho de 2011 às 21:05
"vejo as horas e os minutos e ao somá-los percebo que passam apenas em função do que somos para os outros" brilhando pra lhes iluminar as vidas!
P


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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