Terça-feira, 14 de Junho de 2011
Foi ontem.
Terça-feira, 14 Jun, 2011

Ontem não pude escrever, lamento, fui de viagem. Estive no Rio de Janeiro. Cheguei cedinho, ainda havia cruzeiros e generais, bonde e Chacrinha. Figueiredo dizia as últimas e saía da frente dessa imensa onda popular que trazia Tancredo Neves na cabeça, mais do que um nome ou mera pessoa, a verdadeira personificação daquela mudança há tanto tempo desejada na grande pátria amada. Também eu rezei pelas ruas, mais um pelo meio dos infindáveis cordões humanos que pediam a vida de Tancredo quando a saúde lhe falhou e o fez falhar, impedindo-o de atingir o objectivo primeiro do seu consulado. Chorei com todo o Brasil na sua partida e depois recebi Sarney, acordei com o Plano Cruzado e o exército nas ruas, desfilei na Sapucaí vestindo as cores da Portela/Tradição de Carlinhos Maracanã (o português mais brasileiro que eu conheci, presidente de escola de samba, presidente do Bangu e bicheiro, naturalmente), sonhei o amor impossível nas areias de Copacabana e vivi a paixão possível num apartamento do posto 4, Bolívar com Copa, último andar. Fui feliz, na generalidade, acho.

Na televisão o grande despique era entre a toda poderosa Rede Globo e a número dois Rede Manchete, o império dos Bloch em franca expansão ao tempo. Eu, mais modesto, dei-me por feliz como autor e apresentador na Rede Record, parte integrante do SBT de Sílvio Santos, hoje número um nas audiências, acima da Globo. Chamava-se 'Portugal mais Perto' o meu programa semanal, aos sábados nas manhãs da Record, e ainda dava tempo para fazer produção no Edna Savaget Show, exibido nas tardes da Bandeirantes e depois raspar-me para Jaguanum, minha ilha paraíso ao largo de Itacuruçá, três dias e três noites por semana. 

Pelo Rio corri os inferninhos da Lapa, inebriado de memórias bebidas a toque de cavaquinho, sempre aninhado em violão. Nesse mesmo passo descobri Botafogo e Leblon, e mergulhei no passado em Ipanema ao ouvir o grande Kid Morangueira, Moreira da Silva de seu nome, figura genial no samba de breque. Trepeti o Canecão com Betânia, Gal, Chico Buarque e Paulinho da Viola, respirei o respirar de Caetano num inesquecível concerto intimista no Copacabana Palace e vibrei no Maracanãzinho com o Rei Roberto e no Maracanãzão com vários Fla-Flu e muita torcida vascaína em grandes partidas de tudo ou nada. Fiz rádio na Bandeirantes, fiz jornais e revistas, mandriei tardes inteiras nos areais da Barra da Tijuca e manhãs de três metades em lençóis de uma ternura que não mais reencontrei no meu caminho, tantas milhas já navegadas. Fiz canções lindas e ouvi muitas outras mais bonitas ainda, escrevi poemas que já esqueci e vivi poesia inesquecível, sussurada ao meu ouvido pelas ondas do mar a mando das ninfas e outros seres do pecado perfeito, esse estado de graça inventado pela suprema arte de viver do carioca. E quando eu julgava que o Rio já não me surpreendia mais, que já me tinha dado tudo e mais do que eu podia querer, eis que Iemanjá me faz a dádida maior de uma vida nascida da minha vida, mesmo no final do dia de ontem, 13 de Junho, na Casa de Portugal do Rio de Janeiro. Outra viagem começava  naquele momento, lembro-me de pensar para comigo nesse dia 13 de Junho de 1986. E como será daqui por dias, meses, anos, muitos anos, vinte e cinco anos, por exemplo? Vinte e cinco anos... Vinte e cinco anos. 

Pois é, ontem não pude escrever, lamento, fui de viagem. Estive ausente, daqui e de mim, por terras onde andei e em busca do que lá deixei, em busca de quem fui para ver se finalmente entendo quem sou, entre outras coisitas de somenos importância. Como estes vinte e cinco anos, por exemplo, que nunca sei que lhes fiz nem onde os pus sempre que preciso deles.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De ângela a 15 de Junho de 2011 às 10:30
Lembro-me de te rever, não há 25 anos, mas há 24 (será?)...
Beijo enorme, do teu tamanho, do tamanho do teu coração, do tamanho do teu talento...


De gaguez no expoente máximo a 15 de Junho de 2011 às 14:31
Estou... estou... estou ...estou gaga de emoção!!!
Beijo-te, ó Pai do Carioca mai lindo do mundo:)
eulalia


De Rui Vasco Neto a 15 de Junho de 2011 às 18:50
lita,
'brigado, querida! Talvez 24, sim, mas 24 e seguintes, note-se... o que sempre faz uma pequena/grande diferença, digo eu. E que bom ler-te por aqui, como de costume. Vamos seguindo juntos, ok?

aceita um beijo do

rvn
_________________________________

eulália,
as eleições foram anuladas e Sócrates fica primeiro ministro nos próximos dez anos. Resultou? É que sempre ouvi dizer que a cura para a gaguez era um valente susto.... se este não foi eficaz deixa cá ver...deixa cá ver.....humm.... aaaaaa.... já sei: Queres casar comigo?

Levanta-te e caminha, mulher; pois desta é que estás curada pela certa.

beijo-te, claro.

rvn


De eulalia a 17 de Junho de 2011 às 09:52
em choque cardiogênico: não morro da doença, morro da cura- bolassssssss!!!
(LOOOOOOOL)


De Rui Vasco Neto a 17 de Junho de 2011 às 13:16
seja, mas como vês o discurso já saiu escorreito, a gaguez foi-se, tal como eu disse.
belo susto, hein?


De Anónimo a 18 de Junho de 2011 às 01:30
"... olha ai
ja' faz um ano
chora e ri
faz mesmo um ano
que a magica da vida fez
que dois passassem a ser tres
chora e ri
e faz um ano... "


De Anónimo a 18 de Junho de 2011 às 08:29
ó netinho foste promovido a avô, foi!? Então, e não dizes nada aos amigo?


De mifá a 20 de Junho de 2011 às 00:04
Rui,

Essa viagem é só comparável àsquelas que nas Mil e uma Noites se fazem nos tapetes voadores.Voei, na beleza das tuas palavras, entrei na máquina do tempo, viagei pelo Rio, deambulei pelos labirintos da mente...
Há lá melhor maneira de viajar do que a da evocação? Apenas um risco: a imaginação burila de tal modo o objecto evocado que nós amamos mais a evocação do objecto do que o próprio objecto.É assim uma espécie de platonismo evocativo, se é que me faço entender.
Quanto à questão de fazer ou não fazer algo do tempo, meu amigo, não passa de uma falácia: o tempo é que nos faz. Um pouco de genética, mais uma dose de educação e uns pós de circunstâncias do momento e eis-nos caídos nas garras do naturalismo.Não se pode alterar o passado, mas o passado pode alterar-nos a nós. E há sempre futuro bastante quando temos a capacidade de reformular o passado no presente.
Um abraço e parabéns passados e presentes.



De mifá a 20 de Junho de 2011 às 00:11
Ai Jesus, "viajei", "viajei" (devo ter pensado em "viagem")


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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