Sexta-feira, 24 de Junho de 2011
Palavras, preciosas palavras.
Sexta-feira, 24 Jun, 2011

Às voltas com esta implacável obrigação de estar vivo vou cumprindo etapas à razão de uma por dia. Sempre em busca de orientação, de explicação para tudo, de pistas que me levem à descoberta de algum sentido para este existir que é condenação e privilégio, alegria e desespero, luz e escuridão. Que é tudo e tudo pode ser, até nada. Por feliz acaso saltam-me ao caminho as palavras de mestre Agostinho da Silva, figura incontornável das minhas referências e uma seta sempre segura para qualquer viajante que busque direcção para os seus passos, ou simplesmente a alegria para os dar. Que procure enfim a felicidade. Leio as palavras que nos deixou escritas e recordo as muitas outras que me entregou de viva voz, embrulhadas para oferta naquele rir sem dentes que até hoje ecoa na minha memória, juntamente com a frase que me repetia invariavelmente em cada conversa: "A cabeça só serve a quem tem cabeça", dizia-me rindo e sempre a sério, antes de repetir olhando-me nos olhos: "A cabeça só serve a quem tem cabeça". Nunca quis perceber o que me queria dizer com aquilo. Não faço a mais pequena ideia, até hoje.

 

 

«Não creio que se possa definir o homem como um animal cuja característica ou cujo último fim seja o de viver feliz, embora considere que nele seja essencial o viver alegre. O que é próprio do homem na sua forma mais alta é superar o conceito de felicidade, tornar-se como que indiferente a ser ou não ser feliz e ver até o que pode vir do obstáculo exactamente como melhor meio para que possa desferir voo. Creio que a mais perfeita das combinações seria a do homem que, visto por todos, inclusive por si próprio, como infeliz, conseguisse fazer de sua infelicidade um motivo daquela alegria que se não quebra, daquela alegria serena que o leva a interessar-se por tudo quanto existe, a amar todos os homens apesar do que possa combater, e é mais difícil amar no combate que na paz, e sobretudo conservar perante o que vem de Deus a atitude de obediência ou melhor, de disponibilidade, de quem finalmente entendeu as estruturas da vida(..). Os felizes passam na vida como viajantes de trem que levassem toda a viagem dormindo; só gozam o trajecto os que se mantêm bem despertos para entender as duas coisas fundamentais do mundo: a implacabilidade, a cegueira, a inflexibilidade das leis mecânicas, que são bem as representantes do Fado, e cuja grandeza verdadeira só se pode sentir bem no desastre; é quando a catástrofe chega que a fatalidade se mede em tudo o que tem de divino (..). Por outra parte, é igualmente na desgraça que se mede a outra grande força do mundo, a da liberdade do espírito, que permite julgar o valor moral no desastre e permite superar, pelo seu aproveitamento, o toque do fatal; não creio que Prometeu estivesse alguma vez verdadeiramente encadeado: talvez o estivesse antes ou depois da prisão; mas era realmente um espírito de liberdade e um portador de liberdade o que, agrilhoado a montanha, se sentiu mais livre ainda; porque podia consentir ou não no desastre, superá-lo ou não, ser alegre ou não. (..) No fundo é o seguinte: é necessário, ajudando a realizar o homem no que tem de melhor, que a mesma energia que se revelou pela física no mundo da extensão, se revele pelo espírito no mundo do pensamento e domine a primeira vaga de energia, como onda rolando sobre onda mais alto vai. E mais ainda: que pelo momento de infelicidade, o que não poderá nunca suceder no caso da felicidade, entenda o homem como as duas espécies ou os dois aspectos de energia se reúnem em Deus. Só por costume social deveremos desejar a alguém que seja feliz; às vezes por aquela piedade da fraqueza que leva a tomar crianças ao colo; só se deve desejar a alguém que se cumpra: e o cumprir-se inclui a desgraça e a sua superação.»

 

Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De sinhã (açorda, não) a 24 de Junho de 2011 às 14:28
que bom que vim cá. sabes, é quase como nos lembrarmos que temos braços quando partimos um. e se partirmos ambos, passamos a pensar e sentir com os braços.

que riqueza de palavras para o dia todo - as tuas e as dele. :-)


De Rui Vasco Neto a 24 de Junho de 2011 às 16:27
doce sinhã,
bom saber-te, sempre um prazer ler-te por aqui como de costume, como se o tempo não passasse, não é?
espero pois que tão cedo não percas este vício de cumplicidade que vamos mantendo, tantas vezes falando sem ser preciso falar, tantas vezes dizendo tanto sem que seja preciso dizer nada... apenas sendo, apenas estando, nada mais.
ora aceita um beijo do

rvn


De sinhã (açorda, não) a 24 de Junho de 2011 às 23:01
:-) aceito, sim, com muito sorriso e a retribuir tanta simpatia e carinho.:-)


De Anónimo que podia deixar o nome a 24 de Junho de 2011 às 17:34
Viva, caro Rui: Nem Prometeu nem Atlas
Depois do interregno (para reflexão, decerto) dá-nos um texto belíssimo da sabedoria de Agostinho da Silva com uma rara visão optimista (utópica ou sonhadora) sem dúvida, do mito de Prometeu. Mas mais rara ainda é o uso do valor dessa sua “libertação” (até na iconografia) por Hercules. Sozinho seria um espírito livre, mas superar o castigo pela entrega do fogo sagrado aos homens só com ajuda. Será porque das virtudes mitológicas de Hércules está mais do que a coragem, a Fortaleza? ou seja valorizar a força bruta não é fácil, mesmo que por bom motivo. Quanto ao Atlas fica para depois…
Um abraço


De Gaivota a 24 de Junho de 2011 às 17:42
Simplesmente "ajudando a realizar o homem no que tem de melhor", sempre que ele deixa, sempre que ele quer ou talvez sempre que ele pode! Mas acredito que pode sempre.
P


De Corrêa Simões a 24 de Junho de 2011 às 18:52
Ora viva, meu caro Rui Vasco Neto!
Aqui temos mais uma prova do seu bom gosto ao escolher este texto do Professor Agostinho da Silva que é, na minha modesta opinião, um dos nomes mais importantes do pensamento filosófico nacional no século XX. E este texto em particular foi de escolha muito feliz, dou-lhe os meus SINCEROS PARABÉNS por (mais) esta prova de gosto e saber da sua parte.
E sinto-me também obrigado a referir, justamente, a ELEGÂNCIA E PROFUNDIDADE da sua introdução ao texto, as tais palavras preciosas a que o meu caro se referia no título, talvez?
Mesmo pequenino e muito singelo, o seu texto está sem dúvida à altura das palavras a que faz introdução. Em NADA destoa uma autoria da outra, devo dizer-lhe, meu caro. Por isso mais uma vez os meus parabéns e um MUITO OBRIGADO por este momento literário que, como diz (e bem) uma comentadora, valeu para o dia todo.

F. Corrêa Simões


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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