Segunda-feira, 27 de Junho de 2011
Conversa da treta, óculos verdes.
Segunda-feira, 27 Jun, 2011
Se havia dúvidas que a comunicação é uma arte, esta notícia que se segue elimina-as totalmente. Aliás nem é bem a notícia, é mais o combinado título/notícia/comunicado que faz as delícias de qualquer amante da arte de comunicar e oferece a todos os outros uma definição rigorosa e original do verbo "sacar" ou mesmo uma nova e polida versão da expressão "ir ao bolso". Isto sim, é a conversa da treta em todo o seu esplendor! Ora vejamos.
O título diz quase tudo, dá-nos logo uma boa ideia do essencial: «Estacionar o carro em Lisboa vai ficar mais caro a partir de 4 de Julho». Depois vem a notícia propriamente dita: «Estacionar o carro em Lisboa vai ficar mais caro. Os preços vão subir já a partir do próximo dia 4 de Julho e os aumentos podem chegar aos 50% em determinadas zonas da capital.» Perante isto falta o quê, apenas? Os preços exactos, claro, o rigor do tostão nas novas tarifas ditadas pela EMEL e já agora, quem sabe, uma justificaçãozinha para este aumento que dificilmente pode atribuido à crise, essa mãe de todos os aumentos que agora castigam sem dó o quotidiano dos portugueses. Afinal, aumento de custos da matéria prima é que não podia ser de certeza, não me consta que tenha subido o aluguer das ruas, nem mesmo com a crise... E é aqui que vem à tona todo o imenso talento do artista que redigiu o comunicado da EMEL que faz a notícia e explica aos lisboetas a verdadeira razão do esbulho que aí vem. Reparem no léxico requintado, no floreado irrepreensível, no  estilo escorreito da prosa que tudo explica: «Houve necessidade de adequar o tarifário de estacionamento, até aqui igual em toda cidade, ao comportamento da oferta e da procura.» Irra, impressionante, não? É de uma honestidade desarmante, reconheça-se. Preto no branco a EMEL explica-se bem: onde houver mais procura a oferta passa a custar o que a gente quiser, e porquê? Porque podemos fazê-lo e porque o lisboeta não tem outro remédio senão pagar. Ponto final. È evidente que estas são palavras minhas, cruas e pobres, na explicação da EMEL as palavras têm outro sabor, outro conforto... É outro cantar, decididamente: «A empresa criou um sistema com três zonas, aposta num tarifário de progressão linear simples e de fácil compreensão por parte do público e na acessibilidade média em transportes públicos, quer dentro de Lisboa, quer da periferia para o centro.» Como se pode ver, tudo muda de figura quando é assim bem explicadinho, numa progressão linear simples e de fácil compreensão por parte de um público que só pode estar já meio grato, nesta altura do comunicado. Ou seja, no ponto certo para receber a traulitada dos cifrões, mais uma vez dada com inexcedível doçura: «O custo nas chamadas zonas vermelhas onde existe elevada rotação de estacionamento e marcada por intensa concentração de comércio e serviços e elevada oferta de transportes públicos, passará a custar 1,60 euros na primeira hora (em vez dos habituais 0,80 euros) e de 3,29 euros na segunda hora. A partir daí, o condutor é obrigado a abandonar o local de estacionamento, já que o tempo limite de paragem nestas zonas passa a ser de duas horas. As avenidas de Berna, João XXI, República, António Augusto Aguiar e Liberdade, assim como as praças de Londres, Príncipe Real e a zona Baixa/Chiada compõem esta zona.»
A notícia continua com os números relativos às zonas amarela e verde e mais uns quantos quilitos de palha pelo meio, os senhores podem consultar tudo aqui, todos os pormenores deste fait divers urbano, de casaca ligeira e banal como quem não quer a coisa, como de resto vestem todas as pequenas notícias sobre os grandes negócios. Para que a gente não se sinta intimidado pelo aspecto e pape tudo como quem gosta e ainda agradeça no final. E essa é a fina arte do comunicador, o suco da barbatana. Como que a expressão académica daquela velha técnica que se usa para que os burros comam a palha seca e pouco atractiva. É só pôr-lhes uns óculos escuros que a palha fica logo verdinha e apetitosa, como esta notícia. Com os asnos nunca falha, dizem.


publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De sinhã (açorda, não) a 27 de Junho de 2011 às 22:42
é a capital - com a palha para o bem e para o mal.:-)


De Rui Vasco Neto a 28 de Junho de 2011 às 21:43
pois pois, ponha-se a brincar às rimas e verá como a EMEL sente 'a necessidade de adequar o tarifário de estacionamento ao seu comportamento' e rapidamente cria uma zona cor de rosa, com preço especial para poetas...


De sinhã (açorda, não) a 28 de Junho de 2011 às 21:51
uma zona cor de rosa e com isenção - que é o que as rosas e os poetas merecem.:-)

(eu sou tu, não sou você implicito - prefiro) :-)


De Pedro Correia a 28 de Junho de 2011 às 23:42
Aqui vai uma corrente blogosférica. Com um abraço:

delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/3165857.html

P. C.


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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