Quarta-feira, 27 de Julho de 2011
Régio dixit... e bem.
Quarta-feira, 27 Jul, 2011

 


Sim, foi por mim que gritei.
declamei,
atirei frases em volta.
...cego de angústia e de revolta.

 

Foi em meu nome que fiz, 

a carvão, a sangue, a giz,
sátiras e epigramas nas paredes
que não vi serem necessárias e vós vedes.

 

Foi quando compreendi
que nada me dariam do infinito que pedi,
que ergui mais alto o meu grito 

e pedi mais infinito!

 

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
eis a razão das épi trági-cómicas empresas
que, sem rumo,
levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

 

O que buscava
era, como qualquer, ter o que desejava.
febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

 

Que só por me ser vedado
sair deste meu ser formal e condenado,
erigi contra os céus o meu imenso Engano
de tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

 

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
procurei fugir de mim,
mas sei que sou meu exclusivo fim.

 

Sofro, assim, pelo que sou,
sofro por este chão que aos pés se me pegou,
sofro por não poder fugir.
sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

 

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
quieto, maniatado, iluminado.

 

Se os gestos e as palavras que sonhei,
nunca os usei nem usarei,
se nada do que levo a efeito vale,
que eu me não mova! que eu não fale!

 

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
era por um de nós. E assim,
neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
lutava um homem pela humanidade.

 

Mas o meu sonho megalómano é maior
do que a própria imensa dor
de compreender como é egoísta 

a minha máxima conquista...

 

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros, 

e o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á, 

e sobre mim de novo descerá...

 

Sim, descerá da tua mão compadecida,
meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida. 

e uma terra sem flor e uma pedra sem nome
saciarão a minha fome.


José Régio (Poema do Silêncio)



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De "A Chaga do Lado" a 27 de Julho de 2011 às 14:35
hoje, mais do que nunca, revejo-me por completo neste poema.


De Rui Vasco Neto a 28 de Julho de 2011 às 00:05
pois cara chaga: fico felicíssimo por si, nem imagina quanto. Sugiro que tente amanhã também, verá que se identifica igual, e pelo resto da semana aposto em resultados acima dos 90%, para dar um ar científico à coisa.
É o que a boa poesia tem de bom, assenta sempre que nem luva e enruga muito menos que o terylene...

e chague sempre, digo, volte.
esta minha cabeça...


De podia deixar o nome a 27 de Julho de 2011 às 17:41
Rui: Regio associas facilmente a Portalegre e eu noutro contexto, aos ultimos versos do cântico negro

Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

um Abraço


De Rui Vasco Neto a 28 de Julho de 2011 às 00:10
caríssimo, não vás!
fazes bem em não ir, fazes inda melhor em ficar.
Régio ele próprio já foi, coitado, e eu se não te importas também vou andando, afinal vim só para te dizer para não ires e dar-te um abraço, já agora...
eu cá não ia, mas tu é que sabes, se quiseres ir...
agora pensa.

fui.


De podia deixar o nome a 28 de Julho de 2011 às 01:49
Caro Rui, não sei que lhe diga, a não ser abusando do seu espaço, deixar o poema na integra sem contexto. Um abraço, com estima

Cântico negro
José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.
(Copiado em www.releituras.com)


De Rui Vasco Neto a 28 de Julho de 2011 às 02:18
Sim, mas calçava 42 e meio...


De eulália a 27 de Julho de 2011 às 19:18
botei-o na sacola - virei pilha -poemas - e levo-o para o meu cantinho feicebuquiano.

bjsssssssss


De Rui Vasco Neto a 27 de Julho de 2011 às 19:25
lalita,
pois faz a menina senão bem, muito bem que o que é bom é para levar, aqui na casa, tudo menos o escriba, que também pouca serventia lhe haveria de proporcionar. A não ser... hum.... bem... a não ser....

... a menina joga xadrez?


De sinhã a 28 de Julho de 2011 às 14:25
este silêncio não ensurdece: apura.:-)


De Rui Vasco Neto a 30 de Julho de 2011 às 22:50
sinha,
bem visto...


De Não sei o que isto tem a ver... a 28 de Julho de 2011 às 23:40
É urgente o amor
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugênio de Andrade


É urgente combater o amor
é urgente afundar um velho batel.

É urgente construir certas palavras
num novo livro de paixão
sem qualquer mágoa ou remorso
sem gatilho ou explosão.

É urgente combater a alegria
que se afirma em beijos de falsidade,
que descobre rosas em sujos rios
de manhãs negras, sem claridade.

É urgente o silenciar uma alma
confusa, espantada, dorida.
Urgente a revolta que acalma
Silêncios… Desgostos da vida.

Alfredo Gago da Câmara


De Rui Vasco Neto a 30 de Julho de 2011 às 22:54
fredo,
boa lembrança, essa de trazer Eugénio de Andrade para a conversa... poeta dos poetas, um dos meuss autores preferidos (a par com Florbela) na poesia nacional.
quanto a este outro, um tal da Câmara, mesmo gago não se pode dizer que tenha feito má figura... longe disso.
ora toma lá abraço do teu amigo de sempre

rvn



De O silencio da alma‏ a 31 de Julho de 2011 às 02:41
http://youtu.be/SMFk4h-1cGA


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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