Domingo, 9 de Dezembro de 2012
Falando com o meu cão
Domingo, 09 Dez, 2012

Esta tarde passeei (eu & Gastão, claro, juntos como sempre). Foram horas e horas a fio, passo por passo repassando um dos mais bonitos percursos da minha vida, um sítio alto e arejado de onde se avistam, lá muito ao longe, largos e importantes pedaços de caminhos que já percorri (anos-luz lá atrás, é certo, mas com que estranha nitidez se enxergam daqui), como se no ar de repente fluísse uma qualquer dimensão intemporal onde por obra e graça da memória, apenas, tivéssemos a capacidade de visitar cada pegada deixada no chão há muito pisado, estradas antigas e não mais, nunca mais calcorreadas com a mesma intensidade de outrora… um verdadeiro milagre, digo-vos, até para um descrente empedernido como eu. Só que hoje a evidência calou-me a descrença com aquela força do que não tem discussão porque é e porque está, ali mesmo, entrando não apenas pelos olhos mas por todos e cada um dos cinco sentidos (dos seis, que digo eu?!) para fazer prova de vida a cada instante, a cada passo em frente, sempre em frente como manda a lei do existir neste mundo de Deus ou do diabo... Gastão adorou, em suma, e eu então nem vos falo: que bem me fez passar por ali!

Só para que me entendam melhor: imaginem uma estradinha sinuosa, linda na sua simplicidade, montanha acima, arvoredo a convidar à descoberta de um lado e falésia escarpada do outro, a pique cortando os ésses da subida e sugando do peito todo o oxigénio que cabe em cada respirar só de ver, só de olhar, só de mirar, mesmo de longe... Assim é este troço por onde passeei esta tarde e que faz como que um miradouro do lado da escarpa, como que um balcão com vista para o passado, o meu passado, o melhor da minha vida ali a uma distância segura, sem perigo de velhos e repetidos enganos… e lá muito em baixo, lá bem no fundo, lá muito ao longe, longe, longe, eis que se vê bem (pese a distância de meia vida), eis que sem engano se distingue cada milímetro dos incontáveis quilómetros percorridos em tempos que já lá vão (e eu com eles, credo, e eu com eles!), toda a beleza irrepetível do branco por sujar, da alma virgem, toda a vida sem pecado ali ao alcance de um gesto, de um desejo, de uma recordação…

Assim foi a minha tarde, flutuando feliz no mesmo mar de memórias onde há muito me afundei, puxado para um fundo de culpas pelo peso daquelas que nunca consegui largar mas que hoje, por uma tarde apenas, consegui enganar, esquecendo. E foi assim que de regresso a casa, de volta à cave escura onde todos os dias me sonho varanda, soberba sobre o oceano, chamei o Gastão à parte e ofereci-lhe o desabafo sentido da minha inconfessável verdade como só um grande amigo se entrega a outro grande amigo, nessa união sagrada de almas gémeas que por mais que se entendam nunca se comunicarão no mesmo linguajar, por falha divina na organização das coisas. Foi assim que lhe disse, tonto de felicidade, alma estafada, pingando remorso mas verdadeiramente eufórico por esta nova descoberta de um velho e esquecido sentir: «Cão: temos decididamente que fazer isto mais vezes!» .



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Anónimo a 9 de Dezembro de 2012 às 10:20
Quero ir com vocês. Posso?
Gaivota


De jv a 9 de Dezembro de 2012 às 11:54
Cara Gaivota, até poderia ser muito melhor, mas não seria o mesmo...


De Corrêa Simões a 9 de Dezembro de 2012 às 15:23
Meu caro Rui Vasco Neto:
Só tenho uma pergunta para si, que de resto já não é a primeira vez que faço e para a qual gostava muito de ter resposta: porque razão um homem que escreve como o meu caro Rui Vasco, passa tanto tempo sem nos oferecer textos fantásticos como este de hoje, não me diz?
Ler o seu trabalho é um prazer que devia ser diário, meu caro amigo... Pense nisso sim?
Quanto a esta conversa com o seu Gastão só posso dar os meus parabéns a um e a outro, um porque escreveu esta pérola e o outro porque deu a inspiração, pelos vistos.
Bem haja, meu caro Rui Vasco Neto!! E escreva mais vezes, não se esqueça!

C.S.


De maria a 10 de Dezembro de 2012 às 11:01
Até que enfim, um arzinho da sua graça depois de tanto silêncio!! Bonito texto, muito muito bonito... Vou publicar no meu Facebook, sim? Mas e agora, quando vamos ter mais? Vá lá Rui, não é bonito desiludir os admiradores....
Um beijinho

Maria


De Carlos E. a 10 de Dezembro de 2012 às 18:49
Grande Rui:
Se o mestre está de volta é porque a crise não é assim tão grande, afinal... Não há Coelho que corte a raiz ao pensamento...
Agora a sério: é muito bom ler-te de novo, velho amigo!! E faço coro com os outros comentadores: que seja para continuar e não desaparecer outra vez... Certo, mestre?

grande abraço, companheiro.

Carlos


De sarrabal a 19 de Dezembro de 2012 às 02:48
Querido Rui, que bom, mas que bom voltar a lê-lo! Vim aqui muitas vezes e a ausência continuava, continuava sempre. E estas saudades dos seus escritos, da sua prosa (e dos seus poemas, embora raros, ora essa!), continuava. Depois, sou sincera, deixei de vir até aos «gatos». Mas com tanta pena... Agora aconteceu o e-mail. Dei resposta e vim a correr ao blog. Surpresa das surpresas e muita alegria: cá estavam alguns posts novos. Mas este, Rui, este, suplanta os que postou ultimamente. É o que lhe digo (disse): não nos deixe sem as suas palavras, os seus textos, do melhor que tenho lido - e sem favor!
Por favor, sim, não nos prive dos seus escritos que para «férias» já bastou. Escreva Rui, mesmo sem vontade. Inspire-se no seu grande amigo Gastão. Sabe que, no género de crónicas daria um bom livro? Pense nisso Rui...
Abraço da Sol!


De amigo da onça a 19 de Dezembro de 2012 às 21:26
Eu não quero destoar do aplauso geral, mas sinceramente acho que já se sabe que o Rui Vasco Neto é um artista de múltiplos talentos. E que entre eles está a escrita, como podemos apreciar com esta pequena amostra, tudo isso já se sabe. Agora o que eu gostava de saber é onde é que anda o Rui Vasco Neto que ninguém o vê, e com o pouco que vai escrevendo neste blog qualquer dia ninguém o lê também... Caro Rui: produção precisa-se!! Por isso venham lá mais textos, destes e melhores, ou piores, tudo o que for capaz e que será sempre melhor que nada, pense nisso... este seu amigo estará sempre aqui na primeira fila pronto a bater palmas. Valeu?


De Samuel a 25 de Dezembro de 2012 às 07:35
Afinal... uma insónia pode ter coisas boas - diria eu ao meu cão, se o tivesse.

Bom bom de ler!


De Samuel a 25 de Dezembro de 2012 às 07:38
(Foi bom...) :-)


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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