Domingo, 31 de Agosto de 2008
E agora, José?
Domingo, 31 Ago, 2008

Condoleezza Rice vai estar em Lisboa na próxima semana, quinta e sexta-feira, com dois encontros marcados na sua agenda de homem forte dos US of A. Um deles será com o nosso Primeiro Pinto Ministro de Sousa e o outro com o também nosso Luis Ministro dos Negócios Estrangeiros Amado. Vejo a coisa feia para o segundo por causa do Primeiro. Tendo em conta o que aconteceu no Tratado de Lisboa, quando Sócrates passou pela sua mão estendida sem lá deixar bacalhau, desta vez tudo indica que nem o vai reconhecer, sequer, com o seu deslumbre habitual agora a braços (querias!) com um mulherão destes para impressionar. Pode ser que corra bem, com o Zapatero safou-se, ele eu-lhe o número de telemóvel e tudo. Com a Leezza não sei, 'a ver vamos', já dizia o ceguinho.

 



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Coisas do Espesso (*)
Domingo, 31 Ago, 2008

O Expresso queria enviar jornalistas às eleições angolanas mas não consegue visto. Em vez de ficar satisfeito por ver assim confirmado tudo o que escreveu sobre o regime angolano, o Expresso resolve vir fazer queixinhas e dizer que a CPLP não pode ficar alheia a este ultraje.

Ao ler isto fui invadida por uma onda de ternura que me deixou os olhos rasos de lágrimas, confesso. Imagino já a CPLP a endurecer o tom com que se dirige aos governantes angolanos: "Os senhores governam mal e nós não dizemos nada; os senhores são corruptos, e nós nunca levantámos a voz. Agora isto -  isto, meus senhores - é ir longe demais! Desta vez, não vamos cruzar os braços! E somos obrigados a exclamar, com toda a indignação que nos assiste: Apre!"

 

( * Título original deste post absolutamente brilhante de Cristina Ferreira de Almeida. Aqui, claro)

 



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E foi-se Agosto.
Domingo, 31 Ago, 2008

 



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Sábado, 30 de Agosto de 2008
Bom dia. Hoje eu vou fim-de-semanar. Si iú leiter.
Sábado, 30 Ago, 2008

 

 



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Sexta-feira, 29 de Agosto de 2008
Crónica de uma guerra anunciada
Sexta-feira, 29 Ago, 2008

Todas as guerras são más, todas as guerras são cruéis. Não sou lírico ao ponto de acreditar que o Homem consiga viver sossegado e contente em sociedade sem a ameaça de um cacete atómico pelo lombo se arriscar pisotear os limites da ganância (já ditados generosos pelo Poder) que justificam toda a maldade de que se é capaz neste mundo de merda pelo miserável tostão. Haverá situações-limite em que a única resposta estará na força, aceito resignado, pese o nunca esclarecimento por esta via. Mas também quem é que quer esclarecer seja o que for numa guerra, não me dizem? De resto, a tendência Outouno-Inverno das guerras aponta para matar de longe e seguir os estragos pela TV, isto já desde a invenção dos mísseis, o que quer que haja a dizer sobre esse assunto é para ser dito por especialistas acreditados, tipo Moita Flores ou Nuno Rogeiro, não é agora qualquer um que chega e diz coisas quando se está numa guerra.

 

Depois há a questão dos danos colaterais, das chamadas vítimas inocentes que deixam de o ser porque ninguém tem autorização para ser inocente quando os uns matam os outros à nossa volta. Temos que ser alguém, que diabo, uma guerra condena-nos a existir, uns e outros, enquanto não morremos, a bem ou a mal. Mas logo uns acham que somos dos outros e outros decidem que somos uns e sem que digamos um ai ou façamos um gesto eis-nos declarados inimigos de meio mundo em redor. Odiar é mais simples do que parece. Numa guerra morre gente e a gente acha natural porque faz parte e é assim, guerra é guerra, já se sabe. E acaba por ser assim mesmo, na prática, não se pode semear ventos e não esperar uma boa colheita de tempestades pela frente. Por isso a guerra só deve ser hipótese quando colocada em absoluto extremo, depois de bem explicadinha a destruição que vai acarretar para o viver de todos, uns e outros. Todos os mesmos, apenas uns, em tempo de guerra.

 

Outro factor é a política das forças armadas, policiais e militares. O legítimo desejo de um soldado é combater, por isso foi para soldado. Pode ser discutível, mas é legítimo que quem tem a sua razão de existir numa suposta eficácia enquanto combatente queira mostrar serviço, servir a pátria e combater bem, eliminando o inimigo. É a sua vocação, é mais, a sua obrigação. Nenhum desses soldados, acredito, gostará que necessariamente existam vítimas de guerra, danos colaterais, um facto e factor incontornável em qualquer conflito, Mas todos entendem a situação como parte integrante da circunstância, consequência natural que vem com o trabalho. E não deixam (não podem mesmo deixar) que isso lhes tolde o discernimento estratégico ou afecte a sua capacidade de combater, a sua eficácia letal, ou mais uns inocentes poderão morrer pelo caminho, às mãos dos outros. E é uma bola de neve, sempre maior, só que não branca mas tinta de sangue.

 

O Procurador Geral da República fez ontem uma comunicação à nação, via nota de imprensa com dez pontos que se resumem num objectivo, uma só palavra mágica: eficácia. Mesmo pagando mais caro, seja, diz o PGR, mas quer eficácia «através de acções concertadas entre o Ministério Público e os órgãos de polícia criminal, o que sempre se tem pretendido, mas nem sempre se tem conseguido». E anuncia que serão criadas «unidades especiais para combater a criminalidade especialmente violenta, que funcionarão nos DIAP’s Distritais, dirigidas por Magistrados do Ministério Público especialmente vocacionados para essa investigação».

 

Pinto Monteiro lança ainda uma espécie de desejo para que o «legislador proceda aos ajustamentos legais que se mostram necessários para combater a criminalidade violenta». E vai mais longe, mais duro ainda no tom de voz: «o hiper garantismo concedido aos arguidos colide com o direito das vítimas, com o prestígio das instituições e dificulta e impede muitas vezes o combate eficaz à criminalidade complexa». Tudo isto no culminar desta espécie de semana promocional dos assaltos&afins no Pingo Doce, com a bandidagem à solta pelas redacções nacionais e o povo a exigir justiça e mão firme, já não o mesmo que gritou "Barrabás, Barrabás" mas seguramente aquele que encheu a Vasco da Gama para a feijoada do 'Fairy' ou que espremeu as derradeiras gotas de vida a Sousa Franco, com tanta manifestação generosa de carinho popular e espontâneo em tempo de paz na terra entre os homens de boa vontade.

 

As guerras não aparecem por acaso, seja neste texto seja na vida real, onde só devem aparecer como último dos úlimos recursos. E neste texto só aparecem para assim pedir reflexão sobre os tais recursos e oportunidade das guerras, desta que se anuncia para Portugal em particular. Porque é uma guerra isto que se anuncia e qualquer guerra implica morte e destruição de tudo o que verdadeiramente importa nesta vida, a começar pela paz, é importante dizê-lo até à exaustão enquanto é possível. Se Pinto Monteiro fosse um chefe Sioux ou Cherokee do velho oeste, ontem traria um machado à cintura e estava tudo dito à grande nação índia. Sendo PGR no Portugal socrático, entendeu atacar forte no "hipergarantismo" usando manilhas de trunfo como o "prestígio das instituições" para assim propor cortar as vazas ao crime, deixando no ar que desta forma ganha o jogo de caras, sem espinhas. É o tal jogo de que falávamos que vai chegando a pouco e pouco, a tal guerra que se anuncia, uma igual às outras, só que desta vez na nossa rua, onde somos todos uns. Até os outros.



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Simplesmente Genial!
Sexta-feira, 29 Ago, 2008

Cá para mim eu vejo assim: há o 'normal', que nivela a zeros, depois há para baixo e para cima, certo? Se é para baixo desce do 'quase aceitável mas mauzito' para o 'mau mesmo', 'péssimo', 'execrável', 'merdoso' e por aí fora, quer dizer, por aí abaixo. Se é para cima é bem melhor e mais agradável a gradação. Começa no 'bom' da palmada nas costas e pronto, tá a andar, passa ao 'óptimo', já cá sem palmadas, antes um mirar de interesse e respeito, e daí para cima é um verdadeiro consolo seguir e descobrir o que é 'genial' ou mesmo o raro 'sublime', apenas por exemplo, que lá tão no alto nem o céu é limite para o genuíno talento de um artista.

 

Vem esta conversa toda a propósito destes dez minutos de puro talento, genial e sublime e por aí fora, quer dizer, por aí acima, sem limite que eu consiga vislumbrar depois de ver três vezes e ainda querer mais e mais. A história de "Achmed, the dead terrorist" é do humor mais requintado e conseguido que eu já vi, mesmo considerando que a minha referência natural de ventriloquismo é o José Freixo a fazer o Donaldinho nos programas do Júlio Isidro. "Bom dia Donaldeeee!!", diza o Zé, "Bom dia Zéééééé!!" dizia o Donald, cinco vezes, seis, sete e a gente ria-se muito e silabava ven-trí-lo-quo para aprender a dizer bem e depressa. Pois bem, Achmed, the dead terrorist, ou antes "Premature detonation & 72 virgins", título original desta prestação hilariante, é um outro assunto completamente diferente e sem qualquer comparação possível. Isto embora o humor boçal pudesse dizer que "é como comparar o cú com a feira de Castro", uma alusão que eu nunca atingi na totalidade mas que aqui se aplicaria na perfeição.

 

Achmed, the dead terrorist é um raro prodígio de gargalhada. O que é logo surpreendente à partida, se pensarmos no tema escolhido para fazer rir o mesmo público-alvo do terror. Mas Jeff Dunham conquista a plateia logo à chegada com este seu Achmed, que começa por ser um boneco brilhante na sua concepção estética e linguagem visual. A imagem de um vulgar e estafado esqueleto, em tosco, ganha vida e uma personalidade carismática com a animação de apenas dois pequenos adereços: olhos e sobrancelhas. O resto é história, ou melhor, a história, os textos perfeitos, com uma surpreendente margem de manobra e salvaguarda da ténue linha que demarca e define o bom gosto ao brincar com terrorismo. As vozes, perfeitas também, os movimentos da mão que anima, idem. O timming exacto, impecável, nem de mais nem de menos, o difícil equilíbrio do riso e do siso no conseguido ponto G.

 

De 'Genial', claro.



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Bom dia. Hoje eu tenho medo que passem a levar os tribunais.
Sexta-feira, 29 Ago, 2008

 

«O Ministério da Justiça vai substituir as máquinas Multibanco amovíveis que estão instaladas em tribunais por "caixas encastradas na estrutura dos edifícios", anunciou hoje a tutela em comunicado»



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Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008
O do cavaquinho? Tinha lógica, se Pinto Ribeiro está na Cultura...
Quinta-feira, 28 Ago, 2008

 

«Júlio Pereira será Secretário-geral da Segurança Interna.»



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Outra viagem começa agora, com partida do fundo do mar
Quinta-feira, 28 Ago, 2008

Vila de Santo Amaro, ilha do Pico, arquipélago dos Açores. Começara há poucos dias o ano de 1796 quando, a 29 de Janeiro, a fragata francesa «L'ástrée» naufraga à vista da costa norte da ilha. Não mais foi encontrado qualquer vestígio do navio. Até esta semana, quando, pela primeira vez em mais de dois séculos, uma equipa de investigadores da Direcção Regional de Cultura dos Açores (DCRA) localizou os destroços da fragata e prepara agora o resgate possível do que restar da embarcação. «A fragata encontra-se a oito metros de profundidade numa zona de orografia difícil com rochedos e abismos próximos que vão a mais de cinquenta metros de profundidade», diz  Catarina Garcia, arqueóloga da DRCA; «É um sítio difícil e até mesmo assustador o que leva agora a compreender porque foi difícil encontrar os vestígios do naufrágio». É outra viagem que começa, a do conhecimento.

 

A história do naufrágio da «L'ástrée» ficou escrita para a posteridade logo na altura, com todos os pormenores da tragédia num registo meticuloso e preciso. «Vinha da Ilha Guadelupe, para França, carregada de asucar, e café da Convençaõ, trazendo 18 peças d`artilharia de guarniçaõ, e 180 pessoas», especifica uma carta do Juiz de Fora da Ilha do Pico, escrita a 26 de Março desse ano a dar conta da ocorrência e hoje parte integrante do acervo da Biblioteca Publica de Angra do Heroísmo. Nela o juiz Luiz Correia Teixeira Bragança faz o balanço do desastre especificando que «de toda aquella gente somente se salvaraõ 57 pessoas; a saber 7 Inglezes (de 12 que vinhaõ na Fragata como prizioneiros de guerra), e 50 Francezes, tudo Marinheiros, e alguns officiais de manobra, morrendo 123». O magistrado explica mesmo as providências que tomou, sublinhando que foi logo ordenar «enterrar os mortos, por evitar algum contagio e depois de dár as providencias, que me pareseraõ necessarias, para se pôr a salvo tudo aquillo, que pudese sahir; recolhime para esta Villa».

 

Acontece porém que a situação na ilha terá ficado algo complicada para os sobreviventes: «por espaço de des dias, que aqui se demoraraõ, trateios com homanidade, sem os meter em prizaõ e ainda que o quisesse fazer naõ há nesta Villa cadeas, porque se demoliraõ, (palavra ilegível) inteiramente», explica Luiz Bragança. Para além disso a ilha tinha falta de alimentos, dizendo o juiz que «contribuilhe o seu necessario sustento, quazi tudo á minha custa, athe emfim vendo que elles naõ podiaõ subsestir nesta Ilha, pela falta que há nella dos generos da primeira necessidade estive para os remeter para essa Capital». É ainda de acordo com este relato, feito e acompanhado pelo seu escrivão, um tal Joaquim José da Rosa, que ficamos a saber que «a Fragata se tinha feito em pedaços e que o mar (por ser neste Sitio o tempo muito tromentoso) logo levou consigo a mayor parte da dita Fragata deixando unicamente hum grande monte de Cabos e algumas vellas envoltas com huns bocados de mastros». Assim se escreve, assim se faz a História.

 

Agora, duzentos e doze anos passados, terá aparentemente chegado a hora de colocar um ponto final na viagem original da «L'ástrée», sepultada em àguas açorianas em local finalmente encontrado. Outra viagem começa agora, com partida do fundo do mar. Recolhendo e estudando estes vestígios que agora foram localizados e inventariados pelos investigadores da sua Direcção Regional da Cultura, os Açores dão o primeiro passo de uma nova e excitante viagem ao passado daqueles nove pedaços de chão que são Portugal no meio do oceano imenso.



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À atenção dos senhores do Sapo, fachavor, evidentemente. Tadita.
Quinta-feira, 28 Ago, 2008

Pois foi tudo munto bom e munto agradável e tudo e tudo e tudo. Afinal sempre foram uns quantos milhares de pessoas a mais que apareceram assim de repente, de surpresa, nem deu tempo para preparar um chazinho ou assim, uns scones de alfarroba, nada de nada, enfim, foi uma afobação mas passou-se, pronto, quem dá o que tem já se sabe. Isto é uma vida, é uma vida, é o que isto é. Mas agora que já passou a revoada do destaque nos blogs do Sapo e que a enchente já vai vazando (ficaram só dois senhores e uma senhora coxa que andam lá para baixo, nos posts mais antigos, também não sei a fazer o quê, sinceramente) temos aqui um ou dois pormenorzinhos que eu gostaria de colocar à atenção de vexas. A saber o seguinte.

 

A gente cá na casa até gosta munto de receber visitas, isso nem está em causa, a bem dizer somos até umas pessoas munto abertas e tudo e tudo. De maneiras que o que lá vai, lá vai. Pisarem o gato acontece, não tem mal, o chão lava-se e o canário há-se voltar a cantar, paciência, se não morreu do susto os soluços hão-de passar como chegaram, sem mais. Os três vasos partidos do alpendre também é com'ó outro, mais a bicicleta do Daniel, que já estava velhota e tinha os dois pneus furados mas mesmo assim desapareceu, com o gêpêésse novo que ele adorava. Mas paciência, já se sabe, também não há problema com a ração do Gastão que eu vi uns senhores a petiscar, que diabo, temos que ser uns para os outros, isto é assim mesmo. Nada disto tem importância, fazem o favor de aparecer quando quiserem, tudo se arranja, haja saudinha. Só tem uma coisinha que eu assim a modos que se faz favor, pois prontos, é só o que me deixa mais apreensivo e mais nada, daí esta cartinha a vexas. Passo a explicar, finalmente.

 

Trata-se da tia Geraldina, coitada, que vivia carrancuda e sem dar pio, sentada no seu cadeirão de baloiço na sacada da ala norte há mais de quarenta e oito anos, desde que ficou encalhada, tadita, em pleno Estado Novo, a bem dizer sem uso. Não se riam, mas foi depois de toda a gente descobrir que o Oliveira, o seu prometido de menina e moça, tinha afinal um caso com o Luisinho da farmácia, foram os dois apanhados em flagrante no urinol da estação no dia do terramoto, imaginem o abalo (as pessoas com os nervos já se sabe, foram fazer xixi e deram com aquele lindo serviço, muitos nem fizeram). Foi uma escandaleira, não se falava de outra coisa, a tia Geraldina fechou-se em casa e levou quase vinte anos até se sentar no cadeirão cá fora, debaixo dos olhos do bairro e de olhos baixos no chão, mais outros dez para deixar de desmaiar quando um homem lhe dizia bom dia ao passar na rua em frente. Agora andava mais ou menos, tadita, até já tirava o véu aos sábados e tudo. Pois desde o primeiro dia de destaque no Sapo que a tia remoçou, agora canta à tardinha, coisa rara e nunca vista, parece outra depois da enchente, como quem descobriu as queijadas de Sintra e ficou em estado de choque gastro-uterino. É claro que estou preocupado.

 

O que se passou não sei, mas sei que ainda não era meio-dia quando a vi de passo trocado e olhar ausente, saia meio descomposta e blusa mal apertada, a escapulir-se de fininho de um link assim mais escondido, coradinha e toda despenteada mas com o ar mais consolado deste mundo e um sorriso pateta pregado no rosto. Depois, logo de seguida, vejo sair do mesmo sítio um mocetão campónio, de calção largo e camiseta de alças, faces também afogueadas, que mal me viu virou à esquerda e desapareceu num ai, ninguém mais lhe pôs a vista em cima. Eu cá achei estranho, lá isso achei, mas pronto, isto as coisas são como realmente, já não me cheirou bem logo aí. Mas agora que tenho a tia Geraldina de cabeleira loura e leque, com um mini-vestido vermelho do tempo do charleston, franjinhas e decote até à cinta, sapatinho de salto agulha logo às sete e meia da matina e olhos postos e pregados na porta do sitemieter, num cio à espera que saia, com a mesma expressão do lobo mau quando viu o capuchinho, aí eu começo a ficar seriamente preocupado. Em pânico, mesmo.

 

Que diabo, sempre são noventa e sete anos, faz noventa e oito em Novembro, tadita, se aguentar esta pedalada, salvo seja. É que se ao menos ela não se metesse com a freguesia, se ficasse quieta com as mãos, a coisa ainda passava, talvez, mas só hoje à tarde apalpou ela três senhores e rasgou a camisa a um outro rapaz que conseguiu fugir a custo, tadito também. Parece esta onda de assaltos que anda agora para aí, uns atrás dos outros, tenho até receio que a confundam e me matem a velhota um destes dias, agora com os atiradores especiais e tudo, é um perigo, a sério. Vá lá que ela julga que os snipers são chocolates com cereais, tadita, antes assim. Sempre é diabética.  

 

De maneiras que eu pensei cá para mim que talvez os senhores do Sapo pudessem arranjar uma maneira de contactar o rapaz em questão, não sei, talvez pelo ipê dele ou assim, só para ver se ele não se importava de aparecer por cá de vez em quando para uma visitinha, assim como quem não quer a tia, perdão, não quer a coisa, tadita, que pouco mais tem na vida. Sempre era uma caridade que se fazia e a caridade é uma coisa munto, munto bonita, a gente vai para o céu e tudo e tudo e tudo. De maneiras que era isto e pronto, a modos que pois é assim e munto obrigadinho por tudo. Em meu nome e da tia Geraldina pois um grande bem-haja. Pronto. Tadita.

 



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Quarta-feira, 27 de Agosto de 2008
A Colónia de Santa Teresa
Quarta-feira, 27 Ago, 2008

 

Lepra. Nome feio, dos piores. Hoje já raro de ouvir, o que nem por isso significa que a doença de Hansen não existe mais. Ou, muito menos, que não existem mais leprosos, nome mais feio ainda. «Eu pensava que estas coisas só tinham acontecido em tempos bíblicos, quando muito há mais de um século, com gente sem alma no corpo e outros quase sem corpo para abrigar a alma. Creio que para muitos dos nossos amigos leitores será também uma surpresa total.» É Daniel de Sá quem me escreve e conta, em recado privado, a história por detrás da prosa que me envia. Trata-se de um texto escrito por Cristina Vianna, uma amiga comum que fala de lepra e de leprosos com uma autoridade legitimada pelo seu lidar quotidiano com essa realidade. Uma prosa do coração, mas com um rigor testemunhal. Um retrato com fotografia, esta que aqui vêem, de uma realidade tal e qual. Com estes rostos, sem tirar nem pôr.

A história de vida da Cristina, contada aqui, será um exemplo e uma inspiração, é certo, tão certo como não haver qualquer favor na reverência que se impõe. São adjectivos em permanente conquista numa luta diária com entrega total, corpo e alma, desta mulher que escolheu falar menos e fazer mais pelos outros. O seu amigo Daniel chama-lhe 'um palhaço de Deus' e é perfeito na definição. Terão sido pessoas assim, lamentavelmente poucas, que Deus terá inventado para fazer sorrir e amolecer o coração da gente, embrutecida pelo espectáculo non-stop deste circo de horrores, onde o belo mal se distingue, só à lupa, quase. Mas existe, conforme prova junta.

 

Em baixo: "A Colónia de Santa Teresa"
Sete vidas mais uma: Cristina Vianna

 

 

(Passei a fazer festas para os pacientes. Brincadeiras, música ao vivo, café colonial, bingo e muita brincadeira. A moça de cabelos longos é manicure, convidada junto com outros para cuidar dos cabelos, unhas e maquiagem para as festas", escreveu Cristina na legenda desta foto que mostra ainda na ponta direita Martinha, jovem estudante de enfermagem e ao centro, abraçada por todas, Maria, protagonista deste texto escrito pelo palhaço da foto)


 

 

A lepra roubava sonhos, e aqueles que fossem “escolhidos” certamente compartilhariam o mesmo destino sem escolhas. A colónia fora projectada para ser uma mini-cidade, um lugar só de ida, como um destino sem curvas ou bifurcações. Até o delegado, a polícia, todos eram hanseanos. Tinham uma moeda própria, assim como o comércio.
 
A primeira vez que visitei a colónia foi num sábado de primavera, numa manhã ensolarada. O lugar era tão imenso e tão belo, grandes jardins, lago com peixes, casas, algumas construções desactivadas, como teatro, delegacia, salão de festas, porém tinha guarita como num presídio e muitas grades de segurança bem antigas na cabine de visitas. Todas essas construções foram feitas por mãos hansenianas. Em alguns momentos cheguei a criar imagens em minha mente de pessoas com rostos colados nas grades tentando ver o mundo lá fora.
 
Eu, absorta naquela realidade, num mundo novo e singular, fui surpreendida por uma visão. Uma casinha azul, pequena, com janelas pintadas de branco e jardineiras floridas, e na porta a visão de um anjo, uma criaturinha pequenina e sorridente, com olhar maroto, terno, doce, traços delicados, semblante tranquilo, de alguém que venceu a vida e suas batalhas. Estava paralisada diante de Maria, e por um tempo fiquei segura dentro de seu olhar. «Bom dia. Vieste me visitar?» Eu apenas sorri, ainda não sabia que aquela era a maior verdade de nossa história. Parecia estar marcado este encontro. «Entre, fique à vontade.» Entrar naquela casa era como entrar na casa de minhas antigas bonecas, tão aconchegante, colorida, cuidada, e nas paredes recordações emolduradas que contavam uma história de amor. «Não me recordo quando contraí a doença, mas lembro-me de ir à escola, estender minha mão à professora e esta se recusar a segurar. Estava sempre isolada num canto da sala, com o passar do tempo não saía mais de casa e muitas vezes ouvi as vizinhas cochicharem: “Esta menina tem Lepra, vai morrer.”»
 
Maria arquivava seus sonhos, via o mundo por frestas entre as madeiras de sua casa, e tinha pouco contacto com gente. Contou-me que numa tarde, quando tinha vinte e dois anos, o carro da Vigilância Sanitária parou em sua porta, e ordenou que entrasse. Alguém havia denunciado. Entrou nele sem resistência, e nunca mais seus olhos encontraram novamente aquela paisagem dos jardins. Ela fora levada junto com outros infelizes até os portões da colónia, mandaram que descesse e disseram: «Vão apodrecer e morrer aí dentro.» Assim, sem escolhas, eram jogados lá dentro, sem direito a nada, sem nenhum contacto com o mundo lá fora. Lá fora ficava tudo, a juventude, a família, os sonhos, a dignidade, o copo na pia, a marca do corpo em seu colchão. Entravam naquele lugar para morrer. «Fomos amaldiçoados pela Igreja. Não podíamos ir à missa.», disse-me um dia Maria quando falávamos sobre fé.
 
A jovem Maria decidiu que não apodreceria e muito menos morreria, sem ter vivido, estava entre aqueles que partilhavam a mesma sorte, iria então tomar as rédeas de sua vida, e viver, esse fora um dos segredos confessados, o querer viver, e aprender a ser feliz com suas condições. No início do século XX ainda não existia nenhum tipo de tratamento. Os pacientes eram rejeitados por suas famílias e jogados na beira de estradas. Viviam de esmolas e ajuda de senhoras da sociedade. A partir de 1924 o Governo decidiu assumir a questão e, fortalecido pela ideia de que tirando o doente das ruas ou estradas estaria salvaguardando a sociedade sadia, decidiu pela internação compulsória. Assim, o indivíduo, com a simples suspeita da doença, já era "marcado", quando não mesmo "caçado" e isolado, compulsivamente, num hospital-colónia na época chamado de Leprosário.
 
Foi assim que aconteceu com Maria e também com José. Este chegara à Colónia aos oito anos. Transformou-se em um homem lindo, moreno, alto, olhos verdes, aprendeu a arte da carpintaria. E viria a casar-se com a costureira e bordadeira Maria na colónia. Tiveram oito filhos em 57 anos de casamento. Quando as crianças nasciam, não era dado o direito nem de serem vistas pela mãe: eram levadas para um orfanato. Os seios latejavam o desejo de amamentar, o colo materno ficava vazio. Após alguns anos algumas eram trazidas para visita, ainda assim não eram tocadas, ficavam atrás das grades para serem vistas. Muitas vezes chegava a notícia de que a criança não vingara. Assim aquele casal recebera a notícia cinco vezes.
 
Muitas vezes durante nossas conversas, Maria fechava os olhos, suspirava fundo e sorria recordando o flerte, o namoro, o primeiro beijo, os bailes, e por incrível que pareça os anos felizes que viveram juntos. Quando descobriram tratamento para a patologia, os portões foram abertos, mas poucos foram embora, a maioria havia perdido os vínculos familiares, e alguns não tinham sobrenome, sequer.
 
Cristina Vianna

 



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Um silêncio ensurdecedor
Quarta-feira, 27 Ago, 2008

 

(imagem sacada daqui, com a devida e justíssima vénia)



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Bom dia. Hoje nem os blocos operatórios escapam aos assaltos.
Quarta-feira, 27 Ago, 2008

«As salas do bloco operatório do Hospital dos Lusíadas, em Lisboa, foram encerradas devido à presença de um insecto e não por contaminação bacteriológica, garante o administrador desta unidade de saúde. "Não sabemos de onde surgiu a ideia. Este insecto, da família dos coleópteros e ainda a ser identificado, foi detectado segunda-feira durante uma análise de rotina numa sala adjacente ao bloco e decidimos pelo encerramento por razões de estrita segurança", garantiu.»

 



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Terça-feira, 26 de Agosto de 2008
O tempo passa a correr, os dias não chegam para nada.
Terça-feira, 26 Ago, 2008

«Três dependências bancárias, dois postos de combustível e uma estação dos CTT, todos na zona de Lisboa, foram hoje alvos de assaltos à mão armada. Esta série de assaltos teve início hoje às 09:30 no concelho de Sintra. Em São João das Lampas, dois homens de cara destapada e armas na mão levaram o dinheiro das caixas e de um dos cofres do Banco Santander Totta. Já na Tapada das Mercês, dois encapuzados armados conseguiram levar 750 euros de outra dependência bancária.


Às 10:50 duas pessoas encapuzadas e armadas assaltaram da estação dos Correios de Monte Belo, em Setúbal. Não foram revelados quaisquer detalhes sobre a duração do assalto nem sobre o número de clientes presentes na loja no momento do crime. Ao meio-dia, foi a vez de dois assaltos a postos de combustível na margem sul com um modelo de actuação semelhante.»



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Uma ficção anunciada
Terça-feira, 26 Ago, 2008

É raro, mas acontece. Às vezes a melhor vantagem é só ter uma vantagem, uma única: ter tudo, mas mesmo tudo contra si. Ser uma hipótese sem qualquer hipótese. É bem o caso de Barack Obama (Barack Hussein Obama, pelo amor de Deus!). Seria difícil um começo menos indicado que ter um nome destes, sobretudo quando a juntar ao resto, nem por isso poucochinho. Se não, vejamos.

 

Era negro mas não era bem um brother, pelo menos para o resto dos brothers, já que é filho de mãe branca e cresceu no Hawai e na Indonésia, longe das dolorosas realidades da América negra. Branco é que ele também não era de certeza, embora também não tenha sido isso que o impediu de obter a sua primeira vitória eleitoral no Iowa, um Estado com 96% de brancos. Um nome muçulmano como o seu, sobretudo Hussein, estaria também longe de ser considerado um dado a favor, numa qualquer análise fria e racional que fosse feita, há quatro anos atrás, sobre aquele político desconhecido que durante sete anos servira o país no Senado Estadual do Illinois. Tudo, mas mesmo tudo contra, aparentemente. Eis a receita do vencedor.

 

Em Novembro de 2004 Barack Obama é eleito para o Senado Federal, ao arrepio de todas as expectativas dos analistas políticos, para apenas dois anos depois repetir a graça ao anunciar a sua decisão de se candidatar à Presidência dos Estados Unidos. Isto quando ao tempo já existia Hillary Clinton no horizonte democrata, a candidata 'natural' do partido, chamemos-lhe assim, em função de tudo aquilo que Hillary tinha e Obama não: um nome feito na alta-roda da política norte-americana, experiência governativa por contágio entre-coxas (num contexto de cabeça-de-casal), senadora pelo terceiro maior Estado, apoiada por toda a máquina partidária democrata e com financiamento mais do que assegurado à partida para uma longa e desgastante campanha eleitoral. Enfim, tudo e os olhos azuis.

 

Batidos que estão todos os recordes de improbabilidade por este homem que insiste em contrariar todas as lógicas, (incluindo as lógicas habituais dos mercados financeiros, que fazem o mundo girar) vários caminhos se afiguram possíveis para Barack Obama. Pode ser derrotado por Jonh McCain, o que seria ponto final para já, mas tudo em aberto, apenas uma questão de tempo. Pode derrotar McCain e tornar-se Presidente dos Estados Unidos da América, o que seria apenas ponto, parágrafo e haja papel para a História que ele poderá escrever se assim for. E pode não chegar à eleição, como terá insinuado Hillary quando há pouco mais de uma semana recordou o assassinato de Bob Kennedy, deixando no ar a inevitável associação de ideias com a possibilidade real de Barack Obama ser assassinado. E essa hipótese, se pensarmos bem, não é nada que não possa acontecer nesta América duvidosamente preparada para ver na Casa Branca o neto daquela simpática velhota negra que vive no Quénia. Na linha do longo historial do assassinato político na história da Humanidade, o pior de todos os sinais será o dia em que Obama olhar em redor e só vir apoiantes entusiásticos ao seu lado, nem um detractor, nem sombra de crítica ou oposição visível. Esse será o dia indicado para começar a procurar as adagas escondidas debaixo das túnicas senatoriais. Ou eu muito me engano ou esse dia já passou. E ninguém espreitou as túnicas.

 

Numa visão de argumentista de Hollywood, neste momento e daqui para a frente, Barack Obama pode ser muito mais rentável morto, enquanto mito, do que vivo enquanto homem mais poderoso do mundo e com vontade própria. Na alta roda do poder mundial, o excesso de protagonismo, quando não totalmente atrelado e sob controle, é definitivamente um desporto a evitar. É por demais sabido que o grande capital apoia toda a democracia desde que possa controlar os resultados das eleições, de uma forma ou de outra. Imagine-se que este homem começa a ficar maior que o mito. Imagine-se que o povo começa a levar a sério aquela coisa da mudança, yes we can, e isso tudo, e de repente esquece a mão que de facto o alimenta. Imagine-se que o próprio Obama começa a acreditar que 'Yes we can' e desata para aí a querer acabar com as guerras e com a fome no mundo (Deus nos livre), ou pior, que se mete a sério a querer acabar com as drogas, sei lá, por exemplo! Imagine-se por um instante que Obama, ele mesmo, se começa a levar a sério e deixa de ser um team player, condição primeira para se ser, no poder na América. Já pensaram?

 

Imaginemos tudo isto e recuemos por um instante até uma tarde de Novembro, 22, em Dallas, Texas, quando uma só bala entrou e saiu sete vezes nos seus alvos, que passavam num carro aberto e escoltado pela melhor segurança do mundo. Quando uma evidência destas fica oficialmente registada no relatório final da mais polémica comissão de todos os tempos, a Comissão Warren, reunida debaixo dos olhares expectantes do mundo inteiro, então percebemos finalmente que não é necessária imaginação por aí além para entender as motivações que possam existir num ror de gente importante e poderosa para por um ponto final, de calibre 38, no discurso deste homem nascido com uma estrelinha de especial refulgir. Talvez seja o brilho da glória, talvez seja o brilho das lágrimas, quem sabe, como aquelas que a América já chorou um dia sobre o caixão de um homem parecido com este, mas em branco. O mundo inteiro recorda-o pelo sorriso de esperança que lhe abriu as portas da Casa Branca e lhe ditou o cognome que ficaria para a História: forever young. Também ele simbolizava a mudança, também ele arrastava multidões. Hoje vive no panteão dos mitos, lado a lado com Elvis. É assim a América.

 



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Bom dia. Hoje eu já vi este filme, a preto e branco.
Terça-feira, 26 Ago, 2008

«Quatro pessoas foram detidas na segunda-feira em Denver, onde decorre a Convenção Democrata, por suspeita de quererem assassinar o candidato Barack Obama, anunciou uma cadeia local de televisão. Um dos detidos terá confessado à polícia que tencionavam disparar sobre Obama de um ponto alto com uma espingarda.  O atentado contra Obama estaria previsto para quinta-feira, quando estivesse a pronunciar o seu discurso de entronização como candidato oficial do Partido Democrata, num estádio com capacidade para 75 mil pessoas.»

 

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008
O outro lado das tragédias
Segunda-feira, 25 Ago, 2008

Corria o ano de 1957 quando os olhos do mundo se abriram de espanto com o acordar de um gigante que dormia em águas portuguesas do Oceano Atlântico. Hoje, Daniel de Sá recorda esse momento dramático da nossa história recente numa prosa feliz. «Provavelmente muitos dos nossos leitores sabem pouco sobre o vulcão dos Capelinhos. No ano passado, o Tony Goulart, senador da Califórnia, organizou um livro com memórias do vulcão. Pediu-me um texto, eu alinhavei umas ideias. Ora aconteceu que ele achou a primeira parte desse texto como a ideal para abrir o livro, pelo que me pediu para o partir em dois pedaços: um que abriu e outro que meou. Abriu, claro, depois da saudação institucional do Carlos César. Acabei por ficar entre o meu amigo César e o Ted Kennedy, vê lá que "classe"!». Pronto, eu tenho que ser absolutamente franco convosco: por mais voltas que dê à coisa ainda não consegui perceber o que quis ele dizer com aquelas aspas na palavra 'classe'. Mas vamos ao texto, entretanto, que esse é de classe, sem dúvida. E sem aspas.

 

Em baixo: "O outro lado das tragédias"

Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

 

Não há tragédias sem reverso. É sobretudo de tragédias que vivem os prémios de fotografia, o Nobel da Literatura, o Pulitzer, as primeiras páginas dos jornais, os noticiários da rádio, da televisão. A dor é o espectáculo mais apreciado do Mundo, tornado num imenso Anfiteatro Flávio.

 

Com frequência, a própria Natureza se encarrega de escrever o guião, de encenar a peça e de escolher os actores ao acaso, para saciar o desejo mórbido dos apreciadores do belo horrível. O vulcão dos Capelinhos (1957/58) teve um pouco disto tudo: assustou, destruiu, maravilhou. O Faial mal dormia com medo do cataclismo que apregoava a sua força com urros infernais e um bailado de cor e cinzas. Aldeias foram despovoadas e destruídas, com o farol a teimar de pé, como a sentinela que não caiu em Pompeia. Fez a delícia de cientistas que nunca tinham visto um vulcão nascer e adormecer. Disputou com o Sputnik, lançado para o espaço uma semana depois da sua aparição sobre as águas, os destaques nos jornais de Lisboa. A RTP, que começara as emissões em sete de Março, só fizera ainda uma grande reportagem de exterior, a visita ao Brasil de Craveiro Lopes, presidente da República. O vulcão permitiu-lhe momentos de glória, ainda hoje famosos na recordação de quem viu e de valor inestimável nos arquivos a preto e branco.

 

As pessoas acabaram por habituar-se aos seus soluços ciclópicos e aos seus clarões fascinantes. Há quem diga que até em S. Miguel se viram sinais dessas sombras de luz. E as noites do Grupo Central do arquipélago passaram a ter dois espectáculos garantidos. Um era a fantástica repetição da epopeia geológica que fez estas ilhas. O outro era o brilho do sol no foguetão em órbita que levara o Sputnik para longe da gravidade. A cerca de novecentos quilómetros de altitude e movendo-se a quase trinta mil por hora. Era o mundo velho, tão velho como a criação, visto ao mesmo tempo que o futuro.

 

Mas, para os que sofreram as consequências do poder destruidor do vulcão, o futuro parecia ter-lhes fechado as portas. Casas destruídas, terrenos tornados estéreis. Começar do zero era o desafio, numa ilha que não podia ajudar muito. Mas, menos de um ano depois, a dois de Setembro, foi dado um sinal de esperança. No Senado dos Estados Unidos, John Kennedy e John Pastore, eleitos por Massachusetts e Rhode Island, propuseram o Azorean Refugee Act. Estavam abertas outras portas, e estas no Continente Americano, o Novo Mundo de todas as esperanças.

 

Tendo em conta a população da ilha, começou então uma das maiores sagas de emigração em massa da História da Humanidade. Até 1965, cerca de duas mil e quinhentas famílias do Faial mudaram de vida e de pátria. Era quase metade da população da ilha, de uns trinta mil habitantes apenas. Entre os emigrados, alguns não teriam sofrido muito mais que o susto que todos sofreram. Mas eram quase tão pobres como os sinistrados. Nessas circunstâncias, o governador do Distrito, Dr. Freitas Pimentel, foi um cúmplice de boa vontade. Foi ele que deu informações para a concessão de vistos a muitos dos que tentaram aproveitar a oportunidade criada por Kennedy e Pastore. Como se todos tivessem sido vítimas directas da destruição à volta dos Capelinhos.

 



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Esta Lisboa que eu amo
Segunda-feira, 25 Ago, 2008

Houve um tempo em que Lisboa tinha sardinheiras viçosas de orgulho luso nas sacadas do seu bairrismo alfacinha. E pregões de varinas, se andarmos para trás, para não falar de aguadeiros e marialvas, claqueiros e fava rica em alcofas, venha ver ó freguesa. Os eléctricos faziam tlim tlim e os de manhã cedinho tinham bilhete de operário, custava poucos tostões. O Pinga jogava na selecção, comiam-se cocós na Ferrari e a GNR intervinha a cavalo na estreia dos 'Sarilhos de Fraldas', com António Calvário e com o mulherio nacional a arrancar cabelos à porta do Odeon sem saber que gritava em vão por uma causa perdida.

 

Tudo isto não é triste mas é fado, tão somente. Esta Lisboa das tipóias e ché-chés já não existe há muito, foi-se nas mil madrugadas de ontem e só surge, sebastiânica, no doce nevoeiro cerrado que traz a digestão de muitos copos goela abaixo e muita conversa goela fora, em noite de amigos acabada na saudade do 'acabou-se!'. De resto, conservar as tradições em álcool é uma arte fadista, morra quem se negue e acho muito bem. Esta saudade é a diminuta perfeita e consequente deste acorde natural de ser português e estar vivo, um trinado das guitarras que somos hoje, todos nós, enquanto povo e nação. Só que a melodia que se escuta nesta Lisboa dos nossos dias tem tons diversos, variados, muita influência de cítaras e oboés estranhos, berimbaus e tantans, muito flautista e muito rato atrás, diga-se também em abono da tal.

 

A minha Lisboa de hoje é um embrulho estranho com uma bomba de preconceituosa indiferença terrorista lá dentro, que explode todos os dias em cada esquina do nosso viver. Os estilhaços atingem-nos a todos, mais ou menos fundo, directamente ou por interposto ferimento, dê a gente por isso ou não. Lisboa tem tantos feridos nesta guerra da modernidade como qualquer outra urbe de dimensão capital que, por mais não queira abrir os braços aos estrangeiros, acaba sempre por lhes abrir as pernas. Lisboa não sejas francesa, com toda a certeza não vais ser feliz, lembram-se? Pois cá estamos depois de séculos, com franceses só de calções e no Verão, mas a comprar todas as manhãs nos chineses e indianos, construindo casas com os guineenses e ucranianos, almoçando no bairro o que nos traz à mesa o moldavo de serviço. É de todos eles esta Lisboa? Pertence-lhes por direito esta cidade onde vivem e trabalham e são a cor viva do moderno 'colorido local'?

 

É esse o grande conflito nacional da cidadania, a partilha e usufruto qualitativos das ruas que são de todos mas onde só nasceram alguns, nestes tempos de aumento exponencial dos uns que, aos olhos dos outros, não merecem quinhão igual ao seu. Mendigos, ciganos, pedintes, drogados, pretos, amarelos, castanhos e outros mil que aqui chegam vindos de outros mundos. Gente que a gente quer menos gente que a gente é, ou julga ser. Sub-gente, é forte? E se forem pequeninos, são filhos como os nossos filhos, ou são filhos da puta? Só há filhos da gente e filhos da outra, na credenciação lusitana, nenhuns outros?

 

Corro Lisboa a olhar e saltito realidades como quem evita caca de cão, no passo de passeio. Dou um pontapé numa pedra e salta um preconceito, mais um, e outro e outro. E forço-me a pensar com o coração, sempre que a alma se veste alfacinha. Às tantas a gente quer tanto gostar de uma coisa que acabamos a amar a ideia dessa coisa e nada mais. Uma paixão pelo imaginário abstracto da paixão de cada um, é essa a imagem focada do bairrismo nacional. E quantas vezes se engrossam fileiras de loucura garantindo que só se quer fugir dela, tudo para defender esse preconceito a que chamamos bairrismo. Lisboa é dos lisboetas e é dos vadios, sim, porque vadios somos todos nós nesta sociedade mesquinha que se olha de lado até ver a etiqueta de cada um. Somos todos operários da mesma fábrica, porque ser povo é uma trabalhalheira, não é um emprego. E se fosse um emprego, acreditem, éramos todos chefes.

 



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Em vez de flores ou bombons, meia paz para Condoleezza
Segunda-feira, 25 Ago, 2008

«Israel libertou, esta segunda-feira, 198 prisioneiros palestinianos num gesto de apoio ao presidente Mahmoud Abbas, incluindo, pela primeira vez, dois reclusos condenados por atentados que provocaram mortes.


As libertações ocorreram poucas horas antes da chegada da secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, para uma nova missão em Israel para as difíceis negociações de paz com os palestinianos.»

 



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Bom dia. Hoje fui destacado, só espero que não seja para longe.
Segunda-feira, 25 Ago, 2008

 

A gerência agradece esta distinção, naturalmente.



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Domingo, 24 de Agosto de 2008
O meu Brasil brasileiro
Domingo, 24 Ago, 2008

O meu Brasil brasileiro tinha as cores da ditadura ainda frescas de velhas nas paredes para me receber. Chego na posse de Tancredo Neves, vive-se o que parecia impossível pouco antes, ainda, com Figueiredo: o verde-amarelo ao rubro. E ainda mal me equilibrei na voragem de todo aquele imenso entusiasmo e confiança e já vou no mergulho nacional na dor e angústia pela doença súbita e fatal do Presidente eleito. Era a democracia que parecia agonizar, naqueles dias terríveis em que o Brasil inteiro fazia pouco mais do que rezar por Tancredo. Que se foi, ficando herói e sendo substituído por Sarney, assim colocado de empurrão pelo destino ao leme da mudança imparável deste Brasil anos 80.

 

O meu Brasil brasileiro um dia acordou fechado, tudo fechado, lojas, mercados, bancos, tudo. Era o Plano Cruzado, que do dia para a noite congelou todo o dinheiro em circulação e matou o cruzeiro com o primeiro dos vários tiros de misericórdia que acabariam por conduzir ao actual real. E o país reagiu como um todo, absorveu e adaptou-se, com o seu tradicional jeitinho, e tudo acabou em samba como sempre. Era o tempo de Brizola na cabeça, slogan do governador. Em S.Paulo era já Maluf que despontava mas ainda Jânio Quadros quem pendurava as botas na parede do seu gabinete e governava o Estado. O deputado federal Juruna, ícone de honestidade da revolta índia pelos seus direitos, aparecia na televisão nacional filmado no interior de um Banco, de casaco e gravata e saiote tribal, envolvido numa cena de pancadaria de criar bicho por acusações de corrupção. Joãozinho Trinta era o grande carnavalesco na Beija-Flor, Clóvis Burnay brilhava nos desfiles de salão e na Portela mandava um português,  Carlinhos Maracanã, presidente do Bangu FC e assumido patrão do Jogo do Bicho. Eurico Miranda sobressaía no grupo Monteiro Aranha e ainda sonhava ser presidente do Vasco da Gama, era António Calçada quem mandava, ao tempo. O bandido da moda, o inimigo público número um, era um tal de Escadinha, um líder de favela famoso por ter fugido da ilha onde estava preso, de helicóptero, enquanto os guardas pensavam que ele estava numa visita íntima autorizada com a sua namorada. Tinha vinte e poucos anos nessa altura, poucos mais viveu até morrer baleado, como muitos outros bandidos depois dele até hoje e até amanhã e depois de amanhã, seguramente. E o Brasil vai levando, penando e rindo à toa da vida, entre cana e futebol, fome e carnaval, plumas e paetês. E muito samba no pé.

 

O meu Brasil brasileiro aprendia com Cazuza a palavra AIDS, para não mais a poder esquecer. Na televisão brilhavam Chacrinha, Cid Moreira, Gugu, Jô, Faustão, Sílvio Santos, Edna Savaget na Bandeirantes, mais o inenarrável Bolinha e o seu Clube. Roberta Close estreava na Manchete e colocava a palavra 'transsexual' no dia-a-dia do povão. E Roberto Carlos já fazia o seu especial no fim-de-ano da Globo, como sempre. O meu Brasil brasileiro ofereceu-me o Rio de Janeiro para uma simbiose perfeita, três bons anos de paixão mútua que me levaram por caminhos de encanto impossíveis de descrever aqui, não é sequer o tempo ou lugar. Mas de vez em quando ouço o canto das sereias, ecos da Sapucaí, talvez. E sai-me dos dedos este Brasil que foi o meu. Brasileiro, definitivamente.

 



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O meu Brasil português
Domingo, 24 Ago, 2008

O estatuto editorial cá da casa permite e encoraja estas leviandades, pequenas tropelias. Não havendo malandrice ou sexo (Deus nos livre) , fecha-se os olhos, já se sabe, ficam na conta da criatividade dos amanuenses, fundamental para esfolar a freguesia. É que dia de prosa que agrade é um consolo ver a sacola a transbordar tostões, a cada solavanco da carrinha da Prosegur que nos leva a massa (achei melhor assim, mais seguro do que ser eu a levar ao banco ou o Daniel a ir depositar ao Corvo, por ficar mais à mão) Eh, lá! Por falar em Daniel, já quase me esquecia, caramba, esta minha cabeça! Mandou-me ele uma nota que dizia assim: «Já que se tem vindo a falar do Brasil, envio-te este textozinho que escrevi para uma revista do Pico que no número mais recente foi feita no Brasil, pelos meus amigos Assis Brasil e Lélia Nunes. (Não percebeste como é que uma revista do Pico foi feita no Brasil? Então é porque não percebes nada de ilhas nem do Brasil.)» E pronto. Toma lá que já almoçaste. Por isso eu me lembrei do estatuto, e da criatividade dos escribas, e das tais leviandades, tropelias, para não lhes chamar outra coisa, pois foi, está certo, foi isso... Então está bem, pronto. Vá lá.

 

Em baixo: "O meu Brasil português"

Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

 

O Brasil da minha infância era: “Amazonas, Manaus; Pará, Belém; Maranhão, São Luís; Piauí, Teresina; Ceará, Fortaleza...” A voz de minha mãe recitando como um poema. Ensinara-lhe a escola, mais de um século depois do “Fico”. Remorsos do colonialismo ou saudades do Império?

 

O Brasil da minha infância tinha Oscar Niemeyer plantando uma cidade no mato. Millôr Fernandes e o Amigo da Onça. Rachel de Queiroz na última página. Vasco da Gama campeão. Fla-Flu, e Palmeiras, 1 – Corinthians, 1. Seu Mané Garrincha que ainda era do Botafogo antes que o Botafogo fosse de Garrincha. O Brasil da minha infância não era dos coronéis. Depois foi e ficou mais triste. E “O Cruzeiro” também. Só o Zé Carioca continuou feliz e fazendo felicidade. E eu sempre escrevi o ditado escapando ao castigo da D. Úrsula. Porque não me esquecia do “c” dos “factos”. Hoje é que os doutores pensam que a gente é burra e querem mudar as “ortoleis” da “heterografia”, para não errar. Se a D. Úrsula fosse viva, iria ao ministério e corria todos à reguada. Cinco vezes por cada palavra trocada, duas por cada acento em falta.

 

O Brasil da minha infância cresceu comigo. Continuou a ter o povo dos cafezais de Portinari, mas também o povo de Zumblick porta-bandeira do Divino. Porque foi ficando cada vez mais a sul. Até ao pampa que a gente por cá diz “as pampas”. Com castelos do Assis Brasil e rios que têm as margens imóveis. Com o vento da Lélia Nunes. Aquele vento Sul que fazia travessuras nas saias das meninas. E os rapazes à espreita, à espera de revelações.

 

O Sul onde há saudades da ilha. Da ilha dos Açores, que são nove. E Santa Catarina imagina-se também ilha, só para ser mais parecida à Terceira ou a São Jorge.

 

Ficaram por aqueles fundos do Brasil o Espírito Santo e falas da ilha que são nove. Um Divino com sotaque tropical e vozes com requebros de tons rubros. E a gente pasma: como Deus é grande! Bem disse Eça de Queirós que o “Brasil brasileiro” tinha tudo de bom e tudo de menos bom que os nossos avós levaram consigo. Só não sabia que Deus é brasileiro também. Mas Eça não podia saber tudo.

 

Ficou-nos esta sina de permanecermos unidos. De termos a mesma lágrima quando o escrete perde ou quando o Brasil ganha. Porque somos irmãos. Até pusemos no dicionário palavras antes só ouvidas nos matagais guaranis ou nos sertões tupis.

 

Continuamos por cá. Entre mar e céu, entre marés e montanhas. Divinos, quase. As coisas ou nós? Tudo. Uma espécie de panteísmo pressentido. Desde o “cagarro” de Santa Maria ao “manezinho” da Ilha. Até à ilha outra, e até quase ao sul de todo o Sul, em Porto Alegre, cidade do Rio Grande.

 

Vocês continuam por cá. E nós estamos aí.

 



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Bom dia. Hoje é rrrrrromingo, take it easy...
Domingo, 24 Ago, 2008



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Sábado, 23 de Agosto de 2008
Piu!!!
Sábado, 23 Ago, 2008

Suponho que estas coisas tenham mesmo que acontecer, senão como é que a gente explicava às nossas criancinhas o que é fazer política reles e lucrar com a desgraça alheia, para que as pobrezinhas desde cedo aprendam e cresçam a fugir dessa gente como devem fugir daqueles senhores que abrem as gabardines para mostrar o passarinho às meninas e aos meninos e a toda a gente? Todos caçam a inocência  alheia e, à má-fila, realizam-se nos resultados da comoção que provocam. Refiro-me, evidentemente, à triste figura feita pelo vice-presidente do PSD, José Pedro Aguiar-Branco, que veio pedir a demissão do ministro da Administração Interna porque tem havido muitos crimes. Pedir não, 'exigir' e 'imediatamente', foi bem claro. Lembrei-me logo do passarinho, não sei porquê.

 

Haverá razões, por certo, fundamentos, um supremo argumento, talvez, para uma tal exigência? Bom, Aguiar-Branco explicou esta sexta-feira à TSF que o pedido, perdão, exigência de demissão de Rui Pereira deve-se a um «falhanço» na política de segurança da «responsabilidade do PS» nos últimos dez anos. E explica melhor, enfim, ou tenta tentar explicar, aparentemente, atirando a eito: «O que é que vai acontecer entre este momento e aquele em que houver os tais dois mil polícias e as tais 42 mil armas a disparar?», alhou, para logo bugalhar, concluindo: «Essa situação é a confissão clara de que há um falhanço no que diz respeito à política nesta matéria, que nos últimos dez anos é da responsabilidade do PS». E pronto, demita-se o ministro, já, imediatamente, qual se faz favor qual carapuça.

 

Sabe Deus (e saberia o meu confessor, juro, se eu tivesse um) que o senhor ministro Rui Pereira está longe como Pequim de merecer a minha modesta aprovação, seja pelo (discutível, no mínimo) baixar do polegar em Campolide, seja pelas coisas que se lembra de dizer da sua ministerial boca para fora, material olímpico, a roçar as melhores marcas do imbatível Prime Minister Jim Hacker, de saudosa memória. É certo que o homem não me convence, a mandar nas polícias que não domina. Mas daí até bater palmas ao espectáculo deprimente de uma oposição reduzida a este ladrar de sarjeta às canelas do poder, inconsequente e rasteiro, vai uma distância que deixa Pequim já alizinho, mesmo, praticamente ao virar da esquina. Estou quase chinês, de rir amarelo com este PSD.



publicado por Rui Vasco Neto
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Bom dia. Hoje eu vejo os alvos certos para os tiros dos snipers.
Sábado, 23 Ago, 2008

«Uma idosa faleceu depois de um assalto com grande violência, em Águas Belas, Ferreira do Zêzere, na noite de sexta-feira disse hoje à agência Lusa fonte da GNR. Um casal de idosos, com residência em Águas Belas, perto de Tomar, "foi assaltado por três indivíduos" que os espancaram para os roubarem, daí resultando "a morte da mulher", explicou a mesma fonte. O homem que estava na mesma casa em que a idosa e que as autoridades acreditam ser o marido, também ficou "muito mal tratado" devido ao espancamento, tendo necessitado de receber também assistência hospitalar.»

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Sexta-feira, 22 de Agosto de 2008
Cerejas e palhaços, pura poesia.
Sexta-feira, 22 Ago, 2008

Que as conversas são como as cerejas já toda a gente sabe. É a sabedoria popular quem nos informa, essa reserva cultural da nação. Imagino que o adágio signifique que de tão saborosas, umas e outras, se papam ambas a bom ritmo, numa progressão gulosa. Faz sentido que assim seja. E com a poesia será igual, também tem a sua lógica, afinal que melhor conversa pode existir do que aquela que espana o óbvio e varre a vulgaridade deste chão de palavras que pisamos? Nenhuma outra, estou certo.

 

Assim, a propósito do meu modesto "Querer', publicado aqui em baixo, lembrou-se a Cristina que 'tudo era possível, era só querer' e em boa hora entendeu oferecer essas palavras lindas de Ruy Belo num comentário que entendi puxar aqui para o salão nobre, sempre se lê melhor, tem mais luz. Uma bela surpresa, foi o que foi, para fechar a semana. Recorde-se que a Cristina é uma justa eleita do meu amigo Daniel de Sá, que em boa hora a deu a conhecer a todos nós. E é também hoje uma presença regular cá da casa, uma espécie de consulado permanente do 7Vidas no Brasil, onde bate e trabalha este nosso coração. Está explicado, são assim os palhaços de Deus.

 

 .

 

E tudo era possível

 


Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de Maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio o não sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
Entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer.

 

(Ruy Belo)



publicado por Rui Vasco Neto
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Querer
Sexta-feira, 22 Ago, 2008

Quero dar passos seguros

correr ruas, saltar muros,

encontrar terra perdida

navegar sem ir ao fundo

dobrar o cabo do Mundo

e dar um sentido à vida.

 

Quero ser, entre os primeiros,

um dos mais aventureiros,

um entre iguais, mas diferente;

procurar, se for preciso,

mas encontrar o sorriso

que há dentro de toda a gente.

 

Eu quero, à hora marcada,

ter a alma acostumada

ao princípio de acabar

para cantar na despedida

e deixar saudades à vida

quando a vida me deixar.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Bom dia. Hoje ainda dizem que não os há...
Sexta-feira, 22 Ago, 2008

«Internamentos de doentes mentais duplicaram no primeiro semestre. Em 2007 foram internados compulsivamente no Hospital Central de Faro um total de «52 doentes» - no primeiro semestre houve 27 internamentos -, mas só no primeiro semestre deste ano de 2008 já se registaram 54 internamentos deste tipo, adiantou à Lusa o médico Eusébio Pacheco, vogal do Conselho Directivo da ARS/Algarve.

 

O mês em que se regista mais internamentos compulsivos de doentes mentais, tanto em 2007 como em 2008, é o de Julho. Em 2007 o HCF registou seis entradas e este ano no mesmo mês foram nove pacientes internados, numa altura do ano em que muitas famílias vão de férias, uma fonte da autoridade, sem querer acusar ninguém, realçou que às vezes não há coincidências e que as pessoas podem querer ir de férias descansadas.»

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008
O ouro engana, não é como o algodão.
Quinta-feira, 21 Ago, 2008

Excelente, como sempre, este trabalho de Henrique Monteiro, sacado daqui,

com a devida e merecida vénia.

Aliás, está tão bem feito o boneco que se percebe sem esforço tratar-se de Francis Obikwelu

e não de Nelson Évora, como daria um jeitão que fosse, aqui para o meu post ficar bonitinho, neste dia de ouro para o atleta do triplo salto. Mesmo assim, e atendendo ao facto de serem ambos aloirados e espadaúdos, eu cá não resisto à publicação deste luxo evocativo

da participação portuguesa nestas

olimpíadas 2008. Mais uma prova

de que nem tudo o que luze é ouro...

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Menino d'oiro
Quinta-feira, 21 Ago, 2008

«Nélson Évora é medalha de ouro. Venceu o triplo salto com a melhor marca desta época, obtida no quarto ensaio, onde fez 17.67m. Phillips Idowu ficou em segundo lugar. O britânico fez 17.62m. A medalha de bronze foi para Leevan Sands, das Bahamas (17,59). No último ensiao Nelson Évora já tinha garantida a medalha de ouro. Em toda a competição, o atleta português queimou apenas um ensaio.»



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A menina amarga (II)
Quinta-feira, 21 Ago, 2008

Para anteceder a publicação da segunda e última parte deste conto envia-me o meu amigo Daniel de Sá uma nota prévia: «O essencial histórico deste conto é real, incluindo a arrepiante cena dos guardas a comerem bolachas e beberem chá, oferecidos pelas irmãs de Federico, enquanto este se vestia para a morte. Afonso Manuel e Pablo são personagens inventadas. A Quinta de Tamarit (ou Huerta de San Vicente) existe ainda, e é local de peregrinação dos amantes do poeta. Lorca gostava de facto do nome Juan, mas eu cometi o pecado de me atrever a atribuir-lhe a quadra cantada ao filho de Pablo, que, em Português, deverá ler-se assim: “Que bonito está o meu menino!/ Anjo dormindo no berço/ com o seu lençol de pele/ que é da cor da Lua.”» Vamos então ao resto da história, já que foi exactamente quando Pablo cantava essa quadra que ela ontem se acabou.

Em baixo: "A menina amarga (II)"

Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

 

Afonso Manuel escreveu na crónica sobre a morte de García Lorca:

 

O assassínio absurdo de García Lorca não foi igual a nenhum dos outros que de ambos os lados já se cometeram neste mês de guerra. Quem o matou não roubou trinta ou quarenta anos de existência, que era o que se poderia esperar como normal num homem da sua idade, mas milhares de versos, milhares de palavras cheias do mais puro sentimento da vida.

 

“Não há lei que nos proteja da guerra. Mas devia haver uma ordem universal que proibisse matar os poetas como García Lorca, que não são propriedade de uma nação mas de toda a humanidade. Quando Espanha se der conta do que fez, levará séculos a chorar a perda que infligiu a si mesma e a todos nós.

 

“Afinal de contas, não há libertadores, mas loucos violentos que pagam crimes com outros crimes. E, se o talento de um génio como o de García Lorca não merece mais respeito do que a morte à beira do caminho que vai de Granada para Guadix, nada posso esperar para mim. Queimei todos os meus poemas quando cheguei a casa, sem que Mercedes soubesse o que eu fazia. Foi a única homenagem possível a Federico.”

 

A crónica mereceu a censura de Guilherme Sampaio que, no final de uma resposta àquela publicada no Diário e Notícias, três dias depois disse: “Ao queimar os seus poemas, o senhor Afonso Manuel prestou certamente um bom serviço à cultura portuguesa. Se deixar de escrever estas suas crónicas, prestará sem dúvida um bom serviço à civilização cristã ocidental.”

 

Afonso Manuel haveria de se defender, num simples post scriptum à crónica seguinte. “Com certeza vou menos vezes à missa e à comunhão do que o senhor Guilherme Sampaio, o que não me torna, no entanto, menos ocidental nem menos cristão do que ele. Talvez, isso sim, me tenha feito cometer menos sacrilégios.”

 

O jornal recebeu uma comunicação do governo a proibir as crónicas de Afonso Manuel, mas ressalvando o caso, para ficar sem efeito a proibição, de ele passar a defender “a missão civilizadora e cristã do levantamento militar, como pareceu ser sua intenção nas crónicas que antecederam as lamentáveis considerações a respeito da morte de Garcia Lorca, que ninguém sabe ao certo em que circunstâncias aconteceu”.

 

O director do liceu de Granada onde Afonso Manuel era professor chamou-o, e repreendeu-o severamente por causa do modo como estava a dar uma visão tristemente errada do conflito, disse, que poderia ter más consequências para os nacionalistas e trágicas para ele mesmo, que só teria sido poupado à prisão por se tratar de um estrangeiro, cidadão de um país amigo. Estava posta de parte, no entanto, a hipótese de poder continuar no seu cargo docente, o que era pena, lamentou, pois sempre tinha sido muito querido por todos. Talvez não apenas como mera coincidência com o governo português, a decisão seria alterada se ele deixasse de emitir opiniões que comprometiam os interesses de Espanha, porquanto até se compreendia, embora dificilmente se aceitasse, a sua reacção emocionada à morte de García Lorca, de quem o sabiam amigo. Mas teria de rectificar, em próxima crónica, a informação de que o poeta fora assassinado a mando do governo civil, que era uma calúnia infame, afirmou.

 

Afonso Manuel compreendeu que o seu futuro estava definitivamente em perigo, e não seria capaz de comprar a sua segurança traindo-se a si mesmo e à verdade. O pior era ter de arrastar Mercedes e os filhos na fuga à morte que imaginava ser o seu destino a partir desse momento. Acabou por se refugiar em Valência, mais a mulher e os três filhos. Aí chegou a conhecer Antonio Machado, que passou algum tempo em Rocafort próximo das casas onde esteve alojado o governo republicano. No fim da guerra fugiu para França, vivendo o suficiente para assistir à queda dos dois regimes que lhe haviam mudado o destino tão brutalmente.

 

Fora para Granada por se ter casado com Mercedes, natural dessa cidade, uma estudante que conhecera em Salamanca, onde se licenciara em História. Para ele, que era de Miranda do Douro, pouca diferença teria feito viver longe de casa em Coimbra ou em Espanha, pelo que preferiu a pequena aventura de ingressar na universidade de Miguel de Unamuno, uma figura que o fascinava, apesar de saber que não poderia ser aluno do sábio reitor.

 

O assassinato de García Lorca não matou um poeta somente. O suicídio poético de Afonso Manuel foi uma sua consequência directa, e talvez o próprio Unamuno tenha mais cedo desistido de viver por causa dos desgostos da guerra, do qual este foi sem dúvida um dos maiores. O filósofo basco também começara por apoiar o levantamento militar, mas cedo compreendeu o atoleiro de ódios em que caíra Espanha, o que lhe valeu ser vigiado pela guarda civil até à hora da morte, no último dia desse mesmo ano.

 

Depois de ter queimado os seus poemas, Afonso Manuel ainda escreveu um derradeiro, em homenagem a García Lorca, que veio disfarçadamente no final da crónica em que contava o crime. Muitos leitores não se terão apercebido sequer de que se tratava de facto de um poema, escrito como se fosse simples prosa, embora emocionada. Há nele uma evidente influência do poema de Lorca “A monja cigana”, sobretudo nos primeiros oito versos e na referência às cinco chagas de Cristo e à missa.

 

Eis o texto em Português: “Silêncio de medo e morte. Sangue nas fundas feridas. A espingarda bordando a vermelho sobre uma tela de pele. No ar voam nuvens de fumo cheirando a morte. Um último trovão surdo chega calado a Granada. O monte procura planícies porque quer ajoelhar-se. Federico adormeceu entre Alfacar e Viznar, numa ravina de oliveiras. A sua pele, lençol de morto ou tela de bordadeira, que era de uma só peça como túnica de Cristo, agora tem buracos. Tem cinco feridas. Cinco, muito fundas, até à sua alma, abertas pela espingarda. Tem cinco chagas. Cinco, como as chagas de Cristo. Federico dorme agora nessas bodas de sangue. Cálice de morte e missa.”

 

Note-se a semelhança do ritmo e das ideias com o início do poema referido: “Silencio de cal y mirto./ Malvas en hierbas finas./ La monja borda alhelíes/ sobre una tela pajiza./ Vuelan en la araña gris /siete pájaros del prisma.” Veja-se ainda a coincidência de “Um último trovão surdo” com “Un rumor último y sordo”, bem como a alusão à pele como lençol (da canção que Pablo disse que García Lorca tinha cantado ao filho, e que Afonso Manuel referiu na crónica), e finalmente a quase transposição de dois versos dedicados ao arcanjo S. Gabriel, protector de Granada (“La noche busca llanuras/ porque quiere arrodillarse): “O monte procura planícies porque quer ajoelhar-se.”

 

Em Castelhano, o poema tinha a seguinte forma e pontuação:

 

Silencio de miedo y muerte.

Sangre en las hondas heridas.

Un fusil bordando a rojo

Sobre una tela de piel.

En el aire vuelan nubes

Del humo oliendo a la muerte.

Un último trueno sordo

Llega callado a Granada.

El monte busca llanuras

Porque quiere arrodillarse.

Federico se ha dormido

En un barranco de olivos

Entre Alfacar y Viznar.

Su piel, sábana de muerto

O tela de bordadora,

Que era de una sola pieza

Como túnica de Cristo,

Ahora tiene agujeros.

Tiene cinco heridas cinco,

Muy hondas, hasta su alma,

Abiertas por el fusil.

Tiene cinco llagas cinco

Como las llagas de Cristo.

            Federico duerme ahora

En esas bodas de sangre.

Vaso de muerte y de misa.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Crónica do abandono
Quinta-feira, 21 Ago, 2008

Li a história por alto no Correio da Manhã de hoje. Uma bebé com apenas dez dias de vida foi ontem abandonada numa casa de banho do Hospital Garcia de Orta, em Almada. A criança tinha uma carta ao seu lado e foi encontrada durante a manhã pelos serviços de segurança do hospital, na área das consultas. O director-clínico do Hospital, já esta manhã, garantiu que a bebé esta bem de saúde e ficará internada até aquela unidade hospitalar receber ordens para a entregar. O futuro da menina será tratado por uma equipa da Comissão de Protecção de Menores, com o apoio do Ministério Público. Para já, o caso foi entregue à PSP de Almada.

 

Estes são os factos que compõem a superfície deste caso em particular. Mas o que me chamou mais a atenção foram as notas que a propósito constavam desta reportagem, informação pesquisada e coligida pelo(a) jornalista sobre esta quase rotina do abandono. Que nos diz, por exemplo, que a maior incidência de abandonos de recém nascidos acontece em Setembro, «nove meses depois da noite de fim de ano, frutos de relações ocasionais», coisa que não me passaria pela cabeça mas que também nem por isso me espanta por aí além enquanto padrão. Afinal, o abandono de velhos nas urgências dos hospitais, também por exemplo, acontece todos os anos em barda no início das férias de Verão. Todos os anos aparecem mais uns quantos, a juntar aos de sempre, deitados fora pelas famílias que, em muitos casos, se esquecem de os ir buscar no regresso do mês de praia. Eles são o retrato do abandono, um dos retratos possíveis deste monstro com muitas caras. Angelicais, algumas, como a da jovem mãe, acabada de dar à luz, retratada nesta mesma reportagem do CM pelas suas palavras, significativas, exemplares, citadas pela equipa médica que a acompanhou: «Eu não preciso de o levar comigo, pois não? Posso deixá-lo aqui, não posso?».

 

Fui procurar 'abandono' ao dicionário, quis uma definição que o explicasse em poucas palavras, com a competência que me falta. Encontrei «desamparo total, desistência, cedência, renúncia, desprezo». E sim, deve ser tudo isso, só pode ser tudo junto e mais a circunstância de cada um, que gera ou impõe um tal sentir. Por mim chega, por hoje. Não tenho pretensões a entender todos os quês de toda a miséria de que é capaz o ser humano, há no pensamento ruas por onde eu não passo nem nos dias de sol mais brilhante e céu azul. O que eu gostava mesmo de perceber é que espécie de sociedade somos, exactamente, ao criar tanto abandono e miséria entre nós. Isso sim, eu gostava de compreender. Mas não vai ser hoje, está visto.



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Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008
Nem sequer esperaram, assim não vale!
Quarta-feira, 20 Ago, 2008

Terá sido um 'trabalhinho 'limpo', como se diz na gíria policial, este que esta manhã ocorreu na A2 tendo como alvo um transporte de dinheiro da Prosegur. O assalto à carrinha de valores aconteceu esta madrugada, cerca das 2h30, ao quilómetro 138, na zona da freguesia de Canhestros, concelho de Ferreira do Alentejo, aproximadamente a 12 quilómetros da estação de serviço de Aljustrel. «Quando os funcionários da Prosegur saíram, colocaram engenhos explosivos na parte traseira e rebentaram com a porta», levando «uma quantia não determinada de dinheiro, só em notas, deixando ficar as moedas, que eram muito pesadas», explicou à Lusa o capitão Pedro Rosa, comandante do destacamento de Beja da Brigada de Trânsito. Segundo este responsável, tratou-se de um trabalho «cirúrgico», que teve de ser executado por «especialistas».

 

O elevado grau de profissionalismo dos executantes surpreendeu de facto toda a gente, não só pela eficácia do assalto propriamente dito, como também pela fuga espectacular que enganou todo o dispositivo policial em questão de poucos minutos, mostrando estarem os assaltantes bem familiarizados com as técnicas operacionais da praxe. «Contávamos que viriam para Sul e montámos o dispositivo policial nessa área, junto das saídas da A2, mas, depois, detectámos que rebentaram com o portão da saída de emergência ao quilómetro 140, atravessaram um viaduto e voltaram a aceder à A2, já no sentido contrário, rebentando com o portão do outro lado», explicou Pedro Rosa; «De qualquer forma, as matrículas dos automóveis devem ser falsas», disse aquele responsável, considerando ser também possível que o grupo, à distância, tivesse «outras viaturas preparadas» e estivessem «mais elementos envolvidos». Esta solução utilizada permitiu-lhes inverter o sentido de marcha, seguindo depois no sentido Sul-Norte. E enganar toda a força policial.

 

Dizem já as más línguas que o ministro Rui Pereira, a braços com este tipo de assaltantes que não só não têm a gentileza de esperar pela chegada dos snipers como ainda fogem com o dinheiro roubado nas barbas da polícia, terá já revisto a sua primeira reacção, compulsiva, que lhe terá saído mal ouviu falar em eficiência operacional. Consta que as suas primeiras palavras foram logo para enviar 'as mais vivas felicitações pela coragem e heroísmo demonstrados', só que entretanto alguém o terá avisado que talvez fosse de mudar a letra, desta vez, que a música era outra. E assim foi.

 



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A menina amarga (I)
Quarta-feira, 20 Ago, 2008

Diz-me o meu amigo Daniel de Sá, juntando-se às comemorações oficiais do primeiro aniversário do 'Cantigueiro': «O Samuel fez um "post" belíssimo a propósito do aniversário da vergonhosa morte de Lorca, em 19 de Agosto de 1936. Eu pus um poemeto meu na sua caixa de comentários, poemeto esse que consta de um conto que te envio. Creio ser demasiado longo para sair inteiro. A não ser que o partas por dois ou três dias. Neste caso, dedica-o ao Samuel.» E pronto, o meu amigo falou. Os seus desejos são ordens e a causa é justa, nada a dizer. Segue a primeira parte da história, sem mais conversa. Amanhã sai a segunda e última.

 

Em baixo: "A menina amarga"

Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

No dia quinze desse mês de Julho de 1936, Afonso Manuel havia mandado de Granada uma crónica para o “Diário de Notícias” que começava assim:

 

O ar em Espanha cheira a morte. A República falhou o seu ideal de humanidade, e não há diferença entre egoísmo e tolerância porque já não existe tolerância. Os pobres acumularam em ódio as injustiças, os senhores não deixam que ninguém ocupe o lugar que julgam seu. De um lado e outro as palavras perderam a força, os ideais sucumbiram à violência dos actos. A nação está fatalmente dividida em dois campos, separados às vezes apenas pelo espaço de uma rua, pela largura de uma mesa na sala de jantar. 

 

“Não está seguro o ministro no gabinete, o camponês na fazenda, o proprietário na quinta, o padre na igreja, nem sequer Deus no Seu altar.

 

Era assim o primeiro parágrafo da crónica do dia vinte e dois:

 

Faço o possível para pensar que não foi declarada uma guerra fratricida, tento convencer-me de que tudo será breve, apenas uma revolta geral que decerto unirá Espanha, pelo menos a maior parte de Espanha, ao levantamento militar de há cinco dias." Depois de resumir a catástrofe fulminante que ia sucedendo aos crimes dos últimos meses, citou García Lorca: “A Espanha é o único país do mundo onde a morte é um espectáculo nacional”, acrescentando que, no entanto, o poeta ao escrever esta frase deveria ter pensado mais no seu amigo Ignacio Sánchez Mejías do que num povo que iria reclamar muitas mortes, todas as mortes possíveis, não de toiros mas de pessoas. E concluiria com excertos do “Grito hacia Roma”, um poema de Nova Iorque que só seria publicado em livro depois da morte de García Lorca: “Porque já não há quem reparta o pão e o vinho,/ nem quem cultive as ervas na boca do morto,// Há apenas um milhão de carpinteiros/ que fazem ataúdes sem cruz./ Há apenas uma onda de lamentos/ que abrem a roupa à espera de uma bala.” Parecia uma premonição da guerra e do seu próprio fim...

 

Afonso Manuel não via Federico García Lorca desde que ele fora para Madrid. Soube que voltara a Granada no dia em que se dera a rebelião, e só em Agosto lhe disseram que o poeta procurara refúgio em casa de Luís Rosales, um amigo falangista que lhe serviria de protecção contra qualquer possível loucura dos amotinados. No dia dezoito desse mês, anotou na sua crónica: “Em ninguém se pode confiar. Acabo de ser informado de que García Lorca foi levado para o Governo Civil, decerto para estar mais protegido, porque a vida, por estas ruas e praças, e até dentro da casa de cada um, vale agora muito menos do que a morte, que é a moeda mais corrente em Espanha e com a qual se pagam todas as dívidas.” Os guardas que tinham ido buscá-lo haviam comido familiarmente em sua casa bolachas e bebido chá enquanto esperaram que se vestisse, o que parecia uma prova de que as suas intenções eram boas.

 

No dia seguinte, estava a ler o poema “Romance sonâmbulo”, quando Pablo, fazendo um grande esforço para disfarçar a perturbação, chegou junto dele e disse: “Está lendo poemas de Don Federico...” Fez que sim com a cabeça. (“O largo vento deixava/ na boca um estranho gosto/ de mel, de menta e de alfavaca. / Compadre! Onde está, diz-me?/ Onde está a tua menina amarga?”) Pablo trabalhava para García Lorca na sua quinta do Tamarit, e chamara ao filho Juan porque sabia que o patrão gostava deste nome. Foi no momento em que dentro da cabeça lhe soavam as palavras “¿Dónde está tu niña amarga?” que Pablo deu a notícia: “Mataram-no.” Esperando ouvir o nome de mais um político importante, perguntou: “Quem?” Pablo amarrotou as orelhas entre as mãos, e respondeu: “Don Federico.”

 

“Malditos!” Disse-o cinco vezes. E pôs-se a chorar. Pablo chorava também. “Quem foi o monstro que o matou?” Pablo não sabia um nome, mas tinha sido alguém do lado dos revoltosos. “Definitivamente, em Espanha são os cemitérios o único lugar seguro. Os dois lados são iguais, Pablo. Mataram García Lorca, decapitaram Espanha.”

 

Para Pablo, talvez fosse mais importante a perda do patrão, do amigo e do guitarrista do que do poeta que não conseguia entender tão facilmente como entendia os seus próprios sentimentos e o som da guitarra que, afinal, não iria a enterrar consigo. Depois de uns demorados momentos de dor e raiva, começou a cantar baixinho: “¡Qué bonito está mi niño!/ Ángel durmiendo en la cuna/ con su sábana de piel/ que es del color de la luna.”  Explicou: “Don Federico cantou isto quando viu Juan dormindo nu, na quinta, no verão passado.”

(amanhã: 'A menina amarga', parte II )



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Pó tchim pó tchim, tchim pum
Quarta-feira, 20 Ago, 2008

Faz hoje um ano, o 'Cantigueiro' do Samuel. Um ano de criatividade e militância blogosférica, sempre atento ao que se passa e lendo muito, lendo tudo. Mas escrevendo igual a si próprio, coerente, competente e convicto. E com um sentido de humor que me encanta, sobretudo, um toque de requinte neste homem das cantigas de quem, por força da correspondência diária, me sinto demasiado próximo para continuar a elogiar. Já chega, irra, fico-me por aqui, mais os parabéns e o lá lá lá da praxe. Pois toca a banda e corta o bolo. E olha, já agora, que tenha muitos anos de vida, o pimpolho aniversariante. E amigos também. Pronto.

 

Agora palminhas.

 



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Bom dia. Hoje, naturalmente.
Quarta-feira, 20 Ago, 2008

Naturalmente

dizes-me adeus

sinceramente

enganas-me mais uma vez

 

discretamente

mudas o tom

e de repente

o mal não é mau e o bem

já não é bom

 

e tudo gira à roda de oiro, pedras e marfim

roçar de sedas e chiffon, veludos e cetim

ou acordar na estrada

sem nada

mas naturalmente

feliz

 

(excerto do tema 'Naturalmente', escrito e composto em 1988)



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Terça-feira, 19 de Agosto de 2008
Pelas cinzas de uma bandeira
Terça-feira, 19 Ago, 2008

Daniel de Sá continua a sua visita ao passado, guiada por fantasmas. E diz-me, em recado privado: «Parece kafkiano, mas é a impura da verdade. Não me atrevo a dizer que a bandeira terá sido lá posta de propósito para provocar algo do género, mas é possível que sim. Levei anos a perceber que não faltava gente que queria "queimar-me". Nunca me julguei personalidade que se destacasse o suficiente para merecer tal empenho. Mas, para que a memória não se esqueça, aqui fica a verdade dos factos, e com os nomes de alguns protagonistas, que podem confirmá-los.» Despede-se com um abraço que eu logo retribuo, cá dentro. E segue a história, esta com que vos deixo, sem mais comentários.

Em baixo: "Pelas cinzas de uma bandeira"

Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

A história da bandeira da FLA que foi queimada na Maia poderia servir de exemplo de quanto um mau informador pode transformar em mau um bom jornalista. Pois então se se juntam os dois, mau informador e mau jornalista, o caso chega a ser catastrófico.

 

Para se perceber melhor a diferença entre a realidade e o que foi relatado no jornal “Açores”, vou assinalar com letras partes da história verdadeira e, com a mesma letra, a sua correspondente na notícia do jornal. 

 

No início do Outono de 1975, ia eu a caminho da escola, mesmo ao lado da minha casa, quando dei com o Francisco “Carolo”, moleiro e figura ímpar dos tempos que se seguiram à Revolução, esbravejando como se tivesse viste o Diabo. Disse-me, muito exaltado: “Aquela bandeira é para queimar!” Eu não sabia da existência de nenhuma bandeira, mas, pelos seus modos, deduzi facilmente que só poderia ser a da FLA. Tentando acalmá-lo, respondi apenas que não se queimava bandeira nenhuma, que ela não fazia mal a ninguém. Ao chegar à rua de Santa Catarina, vi então uma bandeira da FLA hasteada num edifício não habitado, mesmo em frente da igreja, e que é agora sede da esquadra da PSP. A bandeira fora trazida de Ponta Delgada por um simpatizante da FLA (Virgínio de Oliveira), que pediu a três rapazes, todos à volta dos vinte anos, para a irem hastear ali, o que eles fizeram já muito depois da meia-noite. Só anos mais tarde é que um deles, que é meu afilhado, se atreveu a confirmar este pormenor, de que cedo se desconfiou. Eram eles o João Carlos de Braga Carreiro (o que é meu afilhado e dono do Bar “O Convívo” onde o Gastão do Rui se encontrou com o Gastão pessoa), o João Carlos Carreiro Farias (empreiteiro de construção civil) e o José Adriano Faria, emigrado há muitos anos.

 

Na véspera, o Jaime Gama e o Francisco Macedo (dirigente regional do PS) tinham estado em casa do Francisco Sousa, comigo também, a preparar as eleições autárquicas (a). Pelas sete horas da noite seguiram para a Achada (do Nordeste) com idêntica missão. No dia seguinte, o António Maurício Tavares de Sousa (actual membro do Conselho da Administração da SATA) e o Carlos de Almeida Branco, ambos estudantes de economia, voltavam para Lisboa, e decidiram fazer um convívio de despedida em minha casa. Juntou-se um grande número de amigos e amigas, que incluía gente de todo o espectro partidário (na Maia nunca houve separação de pessoas por ideais, e a mesma escada chegou a servir, ao mesmo tempo, para pregar cartazes do PPD, do PS e do PC, embora cada qual se encarregasse dos seus.) Havia até um amigo do CDS que a gente sabia ser simpatizante da FLA. A ceia consistiu em caracóis guisados e chouriço à bombeiro (b).

 

O horário da camioneta da carreira, cujo condutor era o meu sogro, mudara uns meses antes para meia hora mais cedo, pelo que passou a chegar a um quarto para as seis, horário que ainda se mantém. Foi para esta hora de chegada que a queima foi programada(c).

 

Enquanto alguém preparava a queima da bandeira, eu dormia uma sesta à alentejana. Quando me levantei, fui ver o que se passava. A bandeira ainda estava hasteada. Havia cerca de umas quatro centenas de pessoas no adro, mas não houve qualquer desacato nem gritos de viva ou morra. Quem chamara gente para assistir fora um cunhado meu, Roberto Rodrigues, que também preveniu a RTP do que ia acontecer, e que é hoje um dos mais respeitados advogados do Seixal, além de ser professor. Outro, que também trouxe a lenha na burrinha que o pai usava para se transportar ou trazer pequenas cargas, é médico e professor na Universidade de Coimbra. (Um génio que, em sete anos e meio de estudo, passou da 4ª classe a licenciado em Medicina.)

 

Quando um rapaz subiu a parede da casa para arrear a bandeira, eu aproximei-me do pequeno grupo que lá estava e disse que não a queimassem. (Para mim, queimar uma bandeira é o símbolo do ódio justo ao nazismo, pelo que nenhuma outra merece tal.) Eu sugeri que se podia pisar a bandeira, arrastá-la pelo chão e atirá-la à lixeira, mas que se a não queimasse (d). Perto, ouvindo o que dizíamos, estava um senhor que sempre teve muita dificuldade de se expressar com clareza. Foi ele que no dia seguinte (costumava dar umas notícias da freguesia) foi ao jornal “Açores” relatar os acontecimentos, mas, no seu modo atabalhoado, terá tido dificuldade em fazer-se compreender. E ao jornal convinha acreditar no que parecia mais do que no que era. Apesar do que eu sugeri, a bandeira foi queimada de imediato.

 

A notícia do jornal saiu dizendo que:

O Francisco Sousa e eu é que tínhamos organizado o espectáculo. Com a presença de dois altos dignitários do PS(a), a queima da bandeira foi combinada durante um “lauto banquete” (sic) em minha casa(b). Que nós (e outros do PS) é que tínhamos posto a bandeira ali, para a queimarmos depois. Que o autocarro da carreira chegou meia hora mais cedo (a viagem de Ribeira Grande à Maia demorava cerca de 40 minutos!) para assistir à queima (c). Que a bandeira foi arrastada, atirada para a lixeira e depois queimada(d).



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Bom dia. Hoje já achavam que eu também tinha desistido, não?
Terça-feira, 19 Ago, 2008

«Naide Gomes está «sem palavras» para explicar o surpreendente afastamento da final do salto em comprimento e, quase uma hora após terminar a prova, dizia «nem conseguir chorar»»


«Francis Obikwelu anunciou o fim imediato da carreira no atletismo e pediu desculpa aos portugueses por não ir à final dos 100 metros, com o argumento de que era pago por eles para estar nos Jogos Olímpicos.»

 

«Gustavo Lima falhou a medalha de bronze por um escasso ponto. Frustrado e em lágrima, o velejador da classe laser anunciou esta terça-feira o fim da sua carreira desportiva.»

 

«Vicente Moura demite-se do Comité Olímpico Português. O presidente do Comité Olímpico Português vai apresentar a sua demissão do cargo. «Estou desiludido com a participação portuguesa nos Jogos Olímpicos», justificou.»

 


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Sexta-feira, 15 de Agosto de 2008
É fim-de-semana, dos granditos, fui ali mas venho já, tá?.
Sexta-feira, 15 Ago, 2008

 



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Quinta-feira, 14 de Agosto de 2008
Bom dia. Hoje há gente capaz de tudo. E sem necessidade.
Quinta-feira, 14 Ago, 2008

«Assaltante foragido de Alcoentre também deu morada falsa»

 



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Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008
Eu, Cabrolina?
Quarta-feira, 13 Ago, 2008

«A testemunha principal do processo Apito Dourado queixou-se ontem de ter sido agredida pelo empresário Francisco Rolo, quando este quis expulsá-la da estalagem, e que o mesmo tinha na sua posse uma arma. A GNR encontrou uma pistola de pequeno porte, ilegal, no apartamento ocupado pela mãe de Carolina Salgado. Como nem esta, nem Francisco Rolo (seu ex-namorado), assumiram ser proprietários da arma, a GNR constituiu ambos arguidos.


Carolina Salgado enfrenta, assim, mais um processo. Na sequência do livro "Eu, Carolina" e de queixas que lhe foram movidas por Pinto da Costa e outras pessoas visadas no livro, foi acusada pelo Ministério Público de cinco crimes de difamação simples e uma de difamação agravada. Foi ainda acusada de furto de objectos pertencentes a Pinto da Costa, e pronunciada por ofensas graves na forma tentada (ao médico Fernando Póvoas ) e incêndio (também na forma tentada, no escritório do presidente do FC Porto).»

 



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Ó terra da minha gente!
Quarta-feira, 13 Ago, 2008

ainda os danos colaterais*

13 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

Coliseu Micaelense, Ponta Delgada, 26 Setembro 92

 

 

São 22.30h. As portas fecham-se. Cá fora, a multidão protesta.

Estão ali para ver o concerto dos Resistência, têm bilhetes, não

arredam pé. Alguém bate com um capacete nas velhas portas de

madeira, há pontapés, gritos. João Paulo Aguiar, os primos e os

amigos ficaram a dois metros da entrada, mesmo em frente. Está

bem que os bilhetes foram de graça, oferecidos pela campanha do

PS, arranjados pelo pai do João Paulo. Mas desistir tão cedo? Com
a impaciência, alguém agarra na grade anti motim e martela a

porta com ela. As almofadas de madeira caem, já há dois buracos,

um de cada lado. Vê-se de dentro para fora e vice-versa. Os bonés

da PSP agitam-se, a polícia quer que as pessoas dispersem, as

pessoas querem que a polícia abra a porta, empurram, gritam PSD.

 

Catarina Raquel de Medeiros Melo Cardoso, 18 anos, também ficou

perto da porta. No meio da confusão vê um dos polícias — gordo,

bigode, óculos, baixo — enfiar a mão numa das aberturas e

disparar na horizontal. Um tiro, dois tiros. Do lado esquerdo,

outro polícia — mais magro — dispara também, mas para o ar. A

debandada é geral. Em frente às portas agora abertas, um corpo

caído. Assassinos, grita-se. Chovem garrafas, há quem queira

fazer justiça ali mesmo, mas as armas estão só de um lado.

 

“Vi o homem que tinha atirado aproximar-se do corpo e voltar atrás.

Depois veio a ambulância e não o vi mais. Contaram-me que ele

disse que aquilo era só fingimento.” No grupo do João Paulo, aos

primeiros tiros largou tudo a correr. Jorge Leça, um dos primos,

viu alguém cair mas não parou para ver.  “Demos pela falta dele

passado um bocado, voltámos para trás à procura. Toda a gente

dizia que havia um rapaz morto, com uma T-shirt igual à minha.”

Uma rosa do PS: o João Paulo tinha uma. Correm para o hospital.

“Disseram-nos que era uma pessoa de 60 anos com um tiro na

perna.” Um telefonema de uma médica amiga desfaz a ilusão: é o

João Paulo, levou um tiro na cabeça, está em coma.  Dia 29 às

13.30h, “esgotadas as possibilidades médicas”, desligam-se os

sistemas de suporte à vida.

 

Na televisão, o comandante da PSP de Ponta Delgada verte o

comunicado oficial: tiros não identificados no exterior,

agressões aos agentes, não tivemos nada a ver com o assunto.

Chega a mencionar balas de borracha. Está conforme o relatório

de 27/9 de Duarte Calisto, o sub-chefe que comandava os dez

agentes destacados para o Coliseu: “(…) Perante a fúria dos

populares (…) ao mesmo tempo que me apercebi de disparos

efectuados no exterior (…) foram efectuados disparos para o ar,

no sentido de os intimidar (populares), não se tendo, por

conseguinte, atingido ninguém nem provocado quaisquer danos

materiais (…) pouco depois constatei a presença de um indivíduo

caído no meio da multidão a sangrar (…) desconhecendo-se porém

a origem dos ferimentos.” Azar que ninguém, além do sub-chefe e

do guarda Gil Pereira, que também disparou, tenha ouvido tiros

no exterior. Azar que mesmo dentro da força da PSP haja quem, não

tendo disparado, indique o sub-chefe e o guarda Gil Pereira como

autores de disparos de dentro do Coliseu, através das aberturas

da porta, e não após sairem para o exterior, como estes sustentam

quer no relatório da PSP quer no inquérito do MP. Azar que para

cima de uma dezena de testemunhas, situadas dentro e fora da sala

de espectáculos, tenha a certeza de ter visto o sub-chefe Duarte

Calisto a disparar com a arma praticamente na horizontal. Azar

que a jornalista da RDP Fátima Moura tenha visto um homem de

farda azul da PSP a verificar a pulsação do jovem caído,

pondo-lhe a mão no pescoço.

Azar que João Paulo Aguiar, apesar de alto

— 1,83 m — não tivesse asas e que a bala que o matou lhe

tivesse entrado direita na fronte, sobre o olho esquerdo. Azar

que Carlos Cabral, no interior do Coliseu com a função de

controlar entradas, tenha ouvido dois guardas, incluindo Gil

Pereira — dizer ao sub-chefe, logo após os disparos e a abertura

das portas, “já mataste o rapaz”. Azar que, apesar de certificar

no seu depoimento ter  passado toda a área a pente fino em busca de vestígios,

o sub-chefe nada declare ter encontrado, quando

passadas 24 horas a PJ encontrou dois invólucros de calibre 7,65

à porta do Coliseu, a juntar a dois outros entregues por civis,

e que foram atribuidos às armas do sub-chefe e do guarda Gil.

Da bala culpada nem rasto.

 

A 30 de Setembro, no dia dos seus anos, Clara Aguiar enterra o

filho único. O julgamento tem lugar em Março/Abril de 94. É

arguido Duarte Calisto, que permaneceu em liberdade e ao serviço

da PSP. O guarda Gil é testemunha de defesa. A 7/4 o tribunal,

presidido por Raul Borges e composto por 8 jurados, decide pela

inocência. A dezena de testemunhas oculares que identifica o

arguido não permite uma decisão sem dúvidas, dada, como reconhece

o procurador da República Mota Botelho “a semelhança física entre

o mesmo e o guarda Gil, que também disparou”. Além do mais, há

quem retire das audiências a ideia que pode muito bem ter sido

o guarda a disparar a bala fatal. Fica pois assente que “a

referida bala não veio do exterior; que veio do interior do

Coliseu; que teve origem em disparo de arma da PSP; que foi

disparada pelo ora arguido ou pelo guarda Gil Manuel da Costa

Pereira”. Resulta que “para a questão fulcral da determinação

exacta da autoria”, a resposta não consegue ir além de um “não

provado”, ficando, na dúvida, o réu absolvido. “Soçobra”

igualmente a demanda cível, 1.694 840$, efectuada pelos pais.

Ficam pois José e Clara Aguiar obrigados a pagar ao tribunal

40.500$. Para juntar à via sacra de 117.640$ de dois dias de

hospital, 231.340$ do “funeral do menino João Paulo” conforme

factura da casa Silva, cem mil escudos da “pedra lavrada, frete

e mão de obra” para a sepultura, uns contos de réis de missas e

20 mil escudos de taxa de justiça. De quê?  O sub-chefe Duarte

Calisto, do seu posto de Ponta Delgada, dá a quantia por bem

empregue. “Não ficou nada provado. Não se trata de ficar

satisfeito ou não, já sofri muito com isto, a família passou

muito.” Punição diciplinar? “Não tinha de ser despromovido porque

não fui acusado de nada, Isso é um assunto interno.” Se não foi

culpado, quem foi? “A bala não se achou. Não vou adiantar nada

como não adiantei depois do julgamento. Fez-se justiça.” O guarda

Gil Pereira também continua ao serviço. Novo julgamento, só com

novas provas, certifica o procurador Mota Botelho. E Duarte

Calisto nunca poderá voltar a ser julgado pelo mesmo crime. É da

lei. Recorrer? José Aguiar tem a sua conta de justiça. “Não sei

sinceramente qual deles foi, apesar de os meus sobrinhos

continuarem a dizer que foi o Calisto. Para mim a PSP não tem

qualquer valor, ficou totalmente maculada. Se a própria polícia

se esconde entre si, qual é a ombridade que têm perante os civis?

Quem devia ter estado ali em julgamento era a PSP. Se fosse recorrer

era para o cível, processar o Estado por dinheiro. E por dinheiro

não vale a pena.”

 

 

Responsável nestes casos em termos civis, pelo artigo 22º da Constituição, o Estado português deu a mão à palmatória num único caso, o de 1º de Maio de 81: as famílias de dois mortos causados pela carga do Corpo de Intervenção da PSP são indemnizadas, sete anos depois, por acordo extra-judicial. Uma lança em África, mesmo se para o Estado o preço de uma vida fica em 800 contos.  O pai de João Paulo Aguiar não se anima com o feito.”Não nos achamos com forças para voltar àquilo tudo. Foi um ano horrível. Sabe, isto é um meio muito pequeno. Houve pessoas na altura que me criticaram por pôr o assunto em tribunal. Que ía estragar a vida ao homem.” Realmente para quê.

 

 

 

(excerto da reportagem ‘a polícia das balas perdidas’,

publicada na revista mensal Grande Reportagem em 1994)

 

 

 

NOTA 

Aqui no 7Vidas não se transcrevem, por norma, os textos dos outros

exactamente porque são dos outros, não meus.

Salvo raras, raríssimas excepções, evidentemente.

Dispenso-me de explicar as circunstâncias que fazem a excepção neste caso,

os tempos que vivemos têm todas as explicações,

eu cá fico-me pela publicação e pela devida vénia a la Câncio

que hoje também recuperou este texto para o seu 5Dias.

Tudo o resto está bem à vista nos títulos de imprensa dos últimos tempos.

só não vê quem não quer e quem não quer não verá nunca.

Hoje como ontem. Ontem como sempre.

RVN

 

 



publicado por Rui Vasco Neto
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O caso da Escola do Magistério
Quarta-feira, 13 Ago, 2008

Não, não é Perry Mason quem protagoniza 'O caso da escola do Magistério'. Nem foi Stanley Gardner quem me mandou o texto com a notinha em anexo: «Não encontro no Google o desenho do Georg Groz que refiro. No entanto podes ilustrar com outro qualquer dos seus desenhos a carvão», diz-me quem, quem? Diz-me Daniel de Sá, evidentemente, ele que esteve nas trincheiras desta guerra antiga e que agora vem recordando para nós alguns episódios meio esquecidos, que por aqui vão calhando em conversa enquanto corre Agosto. Hoje vamos até à cidade de Ponta Delgada do ano de mil novecentos e setenta e seis. Dois anos depois de Abril no contenente. 

Em baixo: "O caso da Escola do Magistério"

Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

O ambiente nos Açores, sobretudo em S. Miguel, foi de grande perturbação nos anos que se seguiram ao 25 de Abril. Se a FLA intimidava, o PPD ia tentando controlar todo o poder político e cultural. E este não é um juízo subjectivo, é o resultado da observação directa e da experiência pessoal até. Não se pense, porém, que ao falar no PPD se refere especialmente Mota Amaral. Se este cedo começou a ser o “papa”, não faltaram outros mais papistas do que ele.

 

Em 1976, a Escola do Magistério Primário de Ponta Delgada tinha um corpo docente dos melhores que havia no País. Basta pensar em nomes como o do seu Director, Manuel Nóia, do Tomaz Vieira ou da Madalena Piteira, umas das mais credenciadas psicólogas portuguesas. Pessoas que tinham tanto de sérias como de competentes. No entanto, faltava-lhes uma ficha no partido “ideal”.

 

A oportunidade de correr com tal gente pareceu surgir de uma maneira inesperada, devido ao que foi considerado a existência de pornografia na Escola. Por esse tempo, as regentes escolares puderam frequentar a Escola do Magistério, fosse qual fosse a idade que tivessem. Uma delas era uma pobre senhora à volta dos sessenta anos, que dificilmente se poderia considerar psicologicamente normal. Ora ela ficou muito escandalizada com nove desenhos que representavam o feto humano em cada um dos nove meses da gestação. Não sei como ela terá contado isso a um colega professor, o certo é que este o entendeu como as várias posições do acto sexual. Outro desenho que a chocou muito foi um, feito a carvão por Georg Grosz, que representava a saída da fábrica dos operários às cinco da manhã, enquanto num bar um grupo de ricaços se divertia, havendo uma mulher com a saia subida de um lado e um homem a tocar-lhe a perna. (Imagine-se o erotismo de um desenho a carvão. Quem conhece Grosz facilmente entenderá a quase ingenuidade pictórica da cena.) Outra questão considerada grave pela senhora foi um texto sobre o amor escrito pela Fátima Senra, por sinal muito bem escrito, tanto mais que ela, na altura, tinha apenas 17 anos. Uma colega, para gozar com ela, fingiu um desmaio de emoção, o que a tal senhora interpretou como um ataque de histerismo. Quando, numa aula de educação física, essa senhora se queixou de que não tinha fato-de-treino, e que não encontrava nenhum para senhoras, um aluno do Magistério apontou para as calças e disse “Isto agora é tudo unissexo.” A pobre interpretou tal gesto como uma obscenidade.

 

Tudo isto foi sendo dito no jornal ”Açores”. Logo depois do primeiro artigo, veio um inspector do Ministério fazer uma inspecção para apurar a verdade dos factos. Por essa altura, eu pertencia à Junta Regional, o primeiro governo autónomo, nomeado para preparar as primeiras eleições regionais. Havia seis vogalias (correspondentes às actuais secretarias), sendo quatro do PPD e duas do PS, de acordo com a votação para a Constituinte. Eu tinha, na Secretaria da Educação e Cultura, o cargo de secretário (actualmente director regional) da Comunicação Social e Desporto.

 

Foi na sede desta vogalia que o inspector ouviu os intervenientes no processo. Ao terceiro dia da audições, o dactilógrafo destacado, não sei de onde, para os autos não apareceu, por ter adoecido. Não havia substituto, e nós não pudemos facultar-lhe nenhum, porque até a dactilógrafo que tínhamos era uma principiante e fazia falta para o resto do serviço. Eu, que dactilografava os meus próprios ofícios, cheguei a ajudá-la muitas vezes no seu trabalho. Ofereci-me para fazer de dactilógrafo, o que o inspector teve dificuldade em aceitar, mas, por não haver outro remédio, acabou por ser assim mesmo nos restantes três dias dos autos. Do que vim a escrever no jornal “Correio dos Açores”, e do que aqui disse ou direi, nada foi obtido pelos depoimentos, obviamente secretos. Por isso há momentos quase absurdos que ficarão sempre na minha memória e do inspector, e que desaparecerão connosco. Tudo o que usei no jornal foi-me contado directamente pelos alunos, quer em conversa pessoal quer numa gravação, que ainda conservo, e que pedi ao Mário Leandro para fazer, pois eu não tive disponibilidade para tal.

 

Houve uma sucessiva troca de artigos, que incluiu um comunicado dos alunos, o qual o “Açores” chegou a negar ter recebido, apesar de ter sido lá que o problema fora levantado. No entanto, foi esse o primeiro OCS a recebê-lo. O director depois pediu desculpa do lapso, dizendo que o funcionário que o recebeu se esquecera de o entregar, o que eu acredito sinceramente.

 

Para encurtar razões, digo que a discussão acabou com um golpe de sorte meu. Limitei-me a publicar o desenho de Georg Grosz e o texto da Fátima Senra, para que o público julgasse. Por coincidência (e essa foi a minha sorte) o outro articulista publicou no mesmo dia um resumo à sua maneira do texto da Fátima e uma descrição do desenho, essa sim verdadeiramente pornográfica. O caso ficou aí definitivamente encerrado. Pelo meio, o  enxovalho público dos alunos e alunas do Magistério, o desespero dos professores, e um derrame cerebral, felizmente ligeiro, do seu director, que era ainda jovem e não tinha qualquer problema de saúde.

 

Outras consequências? O articulista foi punido com uma repreensão grave, enquanto que uma das alunas (e já não me lembro se um aluno também), mais para serenar os ânimos das outras hostes do que por verdade da justiça, levou uma repreensão simples, por ter eventualmente falado em tom menos respeitoso com a tal colega que era muito mais velha do que ela.



publicado por Rui Vasco Neto
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Ó gente da minha terra!
Quarta-feira, 13 Ago, 2008

Pensei bastante antes de colocar aqui este link. Pesei prós e contras e decidi fazê-lo sem qualquer comentário ou juízo de valor sobre o que se passa nesta caixa de comentários. Está aqui para se ver, cada um que conclua por si. Apenas a informação prévia, obrigatória por lei: os conteúdos que vai visionar podem conter atitudes e linguagem susceptíveis de ofender ou nausear as pessoas mais sensíveis, para além de todos os portugueses em geral e de todos os açorianos em particular.



publicado por Rui Vasco Neto
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Bom dia. Hoje esta mulher é o sonho de qualquer homem, porra.
Quarta-feira, 13 Ago, 2008

«A GNR foi chamada hoje a intervir e fez buscas na Estalagem D.ª Leonor, em Fronteira (distrito de Portalegre), após uma denúncia de agressão feita por Carolina Salgado contra o e ex-namorado, proprietário daquele complexo turístico.

 

Após várias desavenças entre os dois, Carolina Salgado, que se recusou a abandonar a estalagem, ficou instalada num dos apartamentos, enquanto a mãe, que chegara na véspera, se alojara noutro quarto com os dois filhos da autora do livro Eu Carolina. Hoje de manhã, e após uma das empregadas do complexo turístico ter desvendado a Francisco Rolo um pedido que Carolina lhe terá feito, o proprietário expulsa-a.

 

Contactada pelo SOL, a funcionária garante que a hóspede lhe pedira em tempos «se eu arranjava uma bola de cocaína». Após a confidência, Rolo confronta a ex-namorada e depois de grande discussão coloca-a na rua. Carolina Salgado contactou então os elementos do corpo de segurança da PSP, dizendo-lhes que fora agredida por Rolo e que ele tinha uma arma ilegal em casa. Estes, por seu turno, chamaram a GNR local.»

 



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Terça-feira, 12 de Agosto de 2008
Bom dia. Hoje eu declaro-me território preocupado.
Terça-feira, 12 Ago, 2008

«Geórgia declara Ossétia do Sul e Abecássia «territórios ocupados»..O Presidente georgiano Mikhail Saakashvili anunciou hoje que o país vai passar a denominar os seus territórios rebeldes como zonas ocupadas, e as forças russas como ocupantes.»

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008
Uma confissão desdobrável
Segunda-feira, 11 Ago, 2008

Por aqui segue a conversa sobre os Açores, hinos e bandeiras, Cavaco e Soares, comunicações do Presidente, bicadas no Presidente, enfim, é Agosto. Desses pequenos nadas para os pormenores sumarentos e por contar dos bastidores da política açoriana no agitado final da década de setenta do século passado, foi um pulinho. O meu amigo Daniel de Sá faz as honras da conversa, ele é que é desse tempo, não sendo velho já é antigo. É ele a dar, nada na manga, o trunfo é contar com verdade o que a memória guardou. Os parceiros aguardam, o povo é sereno. Parece querer puxar a Escola do Magistério, mas salta-lhe de repente uma confissão feminina com muitos pecados e pouca roupa. Os parceiros estão atónitos, eu próprio estou que nem posso. Ele, impávido, nem pestaneja. Cá para mim é certo: o homem tem jogo. 

Em baixo: "Uma confissão desdobrável"

Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

 

A história da questão da Escola do Magistério, acontecida no ano de 1976, é algo entre o absurdo e o solenemente irritante. Sendo assunto fastidioso, embora cheio de interesse como análise psicológica de uma época estranha, terei de arranjar uma boa dose de paciência e de tempo para alinhavar as linhas essenciais. No entanto, avanço com um episódio marginal, tão divertido quanto estúpido, que servirá de aperitivo.

 

A certa altura da discussão de razões, o ponta-de-lança dos interesses do PPD (ele escrevia no “Açores”, e eu no “Correio dos Açores”) acusou-me de enviar de Espanha pornografia para o padre Agostinho Tavares, actual reitor do Santuário da Esperança. Foi o momento de maior imaginação do homem, que teve outros também notáveis. Eu estive em Espanha a estudar Filosofia e Teologia em Valência e Granada, e o padre Agostinho é um velho amigo, que nasceu na rua onde eu nasci e cuja casa fica a uns vinte metros da minha. A única carta que lhe mandei na vida foi há um par de anos, a acompanhar um artigo que ele me pediu para o boletim inter-paroquial de Ponta Delgada. Contra uma acusação daquelas nada mais se pode do que soltar uma boa gargalhada. Foi o que fiz, e faço ainda de vez em quando ao recordar o episódio com  Monsenhor Agostinho ou com o Tomaz Vieira.

 

A imaginação, porém, ia muito mais longe, o que depois vim a saber. Ele explicou na escola onde trabalhava em que consistia o material pornográfico que eu teria enviado ao meu amigo sacerdote. Um colega que ouviu a narração contou-me. Vejam lá se não tive razão para mais uma gargalhada das boas. (E, Deus me perdoe, alguma pena também de não conhecer tão notável impresso.) Tratar-se-ia de um desdobrável sobre a confissão de uma rapariga. Por cada pecado que ela dizia ao confessor, tirava uma peça de roupa, acabando por confessar-se toda.



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Este post é outro teste
Segunda-feira, 11 Ago, 2008

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Uma espiral sem fim
Segunda-feira, 11 Ago, 2008

«Os traficantes de droga do Rio de Janeiro estão a treinar os mais jovens para enfrentar a Polícia Militar em campos de treino onde apreendem técnicas de guerrilha, indicam os serviços secretos brasileiros. Segundo estes, o recurso a esta espécie de profissionalização deve-se à necessidade de enfrentar a eficiência do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar, conhecido como o contingente policial mais letal do mundo.


Segundo o jornal Globo, os traficantes estarão a pagar a jovens para que ingressem nas Forças Armadas para que aprendam tácticas de guerrilha urbana para depois darem formação nestes cursos clandestinos. De acordo com os serviços secretos brasileiros, os cursos clandestinos são frequentados por crianças com 10 e 11 anos e que estes são ministrados na Mata Atlântica, uma floresta que faz fronteira com várias favelas do Rio. Nestes cursos são ensinadas técnicas de tiro, de combate e de guerrilha urbana, numa estratégia que está a ser seguida por duas das principais facções do tráfico de droga desta metrópole brasileira, afirma a Agência Brasileira de Inteligência.»

 



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Bom dia. Hoje começa a semana e a guerra abriu cedinho.
Segunda-feira, 11 Ago, 2008

«A cidade georgiana de Gori está a ser "maciçamente" atacada pela artilharia e pela aviação russa e tropas terrestres preparam-se para um assalto, declarou o porta-voz do ministro do Interior georgiano, Chota Utachvili.


"Houve bombardeamentos maciços em Gori toda a noite e agora estamos a receber informações sobre um ataque iminente de tanques russos", indicou.


"Gori está a ser maciçamente bombardeada, tanto pelo ar como pela artilharia", sublinhou o porta-voz. As tropas russas "ainda não se encontram lá, mas parece que estão preparadas" para entrar em Gori, prosseguiu Utachvili.»

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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Restaurantes para fumadores
Consulte aqui a lista de restaurantes onde os fumadores também têm direito à vida.
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