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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

03
Jun08

In Major's shoes

Rui Vasco Neto

Não é prática cá da casa a reprodução de posts de outros blogs, antes o link, claro. E salvo casos muito, muito pontuais, não vejo por regra grande interesse em fazê-lo, para além de raramente acontecer um post extraordinário ao ponto de justificar um tal arrobo. Ora eu sei que aqueles de entre vós que usam os chapéus maiores (para cérebros mais largos) já perceberam com certeza que se eu estou para aqui com este parlapié todo é porque este deve ser um dos tais casos muito muito muito especiais, será assim ou não? É pois, certíssimo, nem mais. Creio mesmo que este caso ilustra bem o que é de alguma forma a essência da blogosfera enquanto bloco-de-notas de luxo, arquivo da reflexão em estado puro e pelo puro prazer de viajar na memória, de referência em referência, em busca do sentido das coisas. Porquê? Ora, porque sim, claro. Pfff. Nuno Miguel Guedes num momento feliz.  

_________________________________________

 

Este acordar da Charlotte trouxe-me memórias pessoais interessantes e inúteis, vontade de dizer coisas e sobretudo um belíssimo motivo para procrastinar gloriosamente.

 

Para começar, fico sempre com inveja de quem descobre autores numa altura supostamente «tardia», apenas porque normalmente tem-se muito maior gozo com isso. No caso da Carla, Nietzsche, que eu «descobri» aos 16 anos. Ler o Para Além Do Bem E Do Mal com as hormonas em modo milk shake é natural. O filósofo tem um estilo galvanizante, épico e que faz levantar das cadeiras e empunhar bandeiras. Como a Carla bem diz, oscila sem meias-tintas entre a demência e a pura genialidade. Mas isso só fui descobrir muitos anos mais tarde - muito depois de ter gasto toda a minha mesada e poupanças no pavilhão da Guimarães Editores,da Feira do Livro de 1980, onde comprei todos os livros traduzidos. Levei várias vezes o Also Sprach Zaratustra para a praia, onde lia as passagens mais misóginas às minhas amigas, apenas para causar indignação e o contacto físico que se seguia. Havia, nesse outro tempo, uma mistura de força, de triunfo da vontade que se misturava com ídolos e atitudes: Nietzsche, Morrison, Curtis, Baudelaire, Oscar Wilde, o dandismo, Tristan Tzara e Dada. Miraculosamente, tudo fazia sentido, sendo os pressupostos nietzscheanos o ponto comum para estes homens revoltados (o Camus veio explicar tudo a seguir).


Nietzsche, na sua errática obra, é um filósofo quase pop, abandonado a si próprio e muitas vezes mais romântico do que Byron. Com o ainda ligeiro peso dos meus anos, aprendi a separar o que dele prevalece (que é muitíssimo) e a admirar com outros olhos as fontes onde foi beber (Schopenhauer, por exemplo). Mas na altura significava revolta. O meu professor de Filosofia do 10º ano - que sabiamente nos obrigava a levantar sempre que entrava na sala, coisa então já pouco comum mesmo no Liceu Camões - odiava Nietzsche. Era um aristotélico inflexivel, que nos dava as notas em latim (ascendere superius se subiamos a nota, manterius auto-explicativo e um olhar gélido para quem tinha negativa) e desdenhava a ausência de sistema filosófico em Nietzsche. Para um adolescente, isto era uma tentação demasiado forte.


Voltei a pegar agora n'A Origem da Tragédia, como preâmbulo ao Crepúsculo dos Ídolos. O sangue voltou a correr como nessas horas de militância decadentista púbere. Mas com a vantagem de já carregar uma vida e poder reclinar-me num prazer solitário e desafiador.

 

(MAJOR, in 'Nietzsche, confissões e televisões', aqui)

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