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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

07
Jun08

Cidades sem coração

Rui Vasco Neto

 

Foi há pouco tempo, um mês, se tanto, no coração de Lisboa. Avenida Almirante Reis, junto à Praça do Chile, três da tarde de um dia-feira qualquer, com gente a escorrer pelas ruas a passo corrido naquele ritmo todo próprio da capital. Passeios à cunha, apertados para o cruzamento de pessoas em direcção contrária, bancas de fruta de um lado, quiosques de jornais do outro com estendal de brindes no chão, mais o pedinte que estica o coto de perna num cartão e mil outros obstáculos nesta corrida do dia-a-dia. Neste passeio apinhado de gente que se cruza, um homem tem um ataque epliléptico e cai no chão, entregue a contorções, uns bons metros à minha frente. Caiu atravessado na diagonal, pelo que só passando literalmente por cima dele é que seria possível passar, para um lado ou para o outro. Pois foi exactamente o que fizeram uns e outros, os que vinham daqui para ali e os do vice para o versa, todos alçando a perna por sobre as pernas do infeliz que estrebuchava na mais completa solidão e perante a absoluta indiferença da quase totalidade das pessoas que ali estavam naquele momento. Terá seguramente passado um pouco mais do que o minuto e tal que o homem deste video tem de igual solidão depois de atropelado, jazendo no asfalto sem que ninguém, entre condutores e transeuntes, se tenha abeirado para ver se ao menos ainda estava vivo (de resto a razão que levou a polícia de Hartford a divulgar este video a pedir a colaboração da população para identificar os culpados do acidente). São sinais preocupantes de uma sociedade doente, dirão uns com a sua razão. Eu cá vou mais longe, rural convicto que me tornei: acho que é mais grave do que isso, é o colapso de toda a decência urbana, entre seres com vidas tão diferentes que às vezes é difícil considerá-los da mesma espécie, sequer, para mais forçados a co-existir uns em cima dos outros, sob intensa pressão e em condições que já potenciam a agressividade e a revolta. Daí para a apatia social que podemos ver neste video vai um passo apressado, um passo apenas, humano, mais um passo igual aos muitos que eu vi dar, alçando a perna sobre o corpo caído, naquele dia-feira qualquer do mês passado, no coração desta Lisboa sem coração.
 

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