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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

20
Jun08

Relações e ralações: história de um arrufo.

Rui Vasco Neto

Foi de repente, como sempre, sem aviso prévio. Um dia a nossa relação estava assim, no outro já estava assado. O que se terá passado pelo meio eu não sei. Mas dei por começar a perceber que estava tudo a acontecer outra vez, que todos os sinais batiam certo e não havia espaço para grandes dúvidas. Era ponto assente, talvez final. Não existia uma segunda leitura para tamanha e indiscutível evidência: eu estava a ficar cansado dele. Pior ainda: eu já estava farto, fartinho dele e pelos cabelos com esta nova obrigação em que se tinha transformado o velho prazer da nossa vida a dois. Estava à vista, era só querer ver. Já não me esmerava, apurava, já não mais me transcendia na sua presença. Já não dava o mais e melhor de mim que considero fasquia mínima para namoro que se preze. Já não (me) entregava o máximo, como é requisito básico da paixão. Sem novidade, a notícia escrevia-se sozinha e adivinhava-se, sem grande mistério, que no passar dos dias estava a (única) questão de tempo em que tudo se tinha transformado. Eram os dias do fim.

 

Não quis perceber porquê, sequer tentar. Bastaram-me os quês que via e, sobretudo, que sentia. Fisicamente, por exemplo; o seu corpo ficou liso de todos os relevos que sempre lhe encontrei, os mesmos que, ao tempo, me guiaram na grande aventura de o descobrir, milímetro por milímetro, função por função. Assim perdeu o encanto, a sedução, a reacção ao toque que recebia e logo transformava em prodígios de criação que pareciam inventar-se sozinhos e apareciam feitos sem custo aparente. Pois agora tudo isso parecia perdido sem remédio. De repente já não rasgava, aquele érre, já não pisava o outro pê, os bês roçavam os mínimos da doçura e os às tinham uma interjeição tão escassa e miserável que me senti o ladrão daquela dignidade ausente e deixei de os usar. Mais, pior: deixei de lhe tocar, a ele no geral, de todo. Deixei de o poder ver, primeiro. E logo-logo deixei de ser capaz de sequer me aproximar dele, antecipando a frustração do vazio que era certo no final (esta parte Pavlov explica, acho, mas com cães e campainhas). Foi assim que tudo aconteceu.

 

E assim passaram os dias, com aquela fotografia do senhor ministro Mário Jamé Lino escarrapachada naquele post imutável (a foto foi uma violência, eu sei, poderão algum dia perdoar-me?). Assim nos separámos, eu e ele, eu e o meu computador. Assim nos incompatibilizámos, eu e o seu teclado. Assim murchou este manjerico. E agora, e agora, perguntam os senhores, talvez numa aflição? Bem, agora a coisa resolveu-se, enfim, mais ou menos. Digamos que estou a tentar dar uma nova chance a mais esta minha relação, mais uma que é mais uma ralação do que outra coisa, no fundo. Digamos mesmo mais: não é por acaso que este sítio se chama "Sete vidas como os gatos", ou os senhores achavam que era uma piadita, uma gracinha, um floreado de artista? Nada disso, meus amigos. Aqui é tudo à séria, vidas vividas, mais de sete como os gatos. The joke is on me.

 

 

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