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Sete Vidas Como os gatos

26
Jun08

Maia (II)

Rui Vasco Neto
Ontem iniciámos esta aventura, hoje seguimos o passeio por terras açorianas pela mão de Daniel de Sá, que assim marca a cadência da passada no embalo das palavras. Recorde-se que este autor é natural e um residente desta mesma Maia de que hoje nos fala, em prosa inspirada como sempre, repleta de sons, cheiros, letras vivas que nos levam de volta à ilha como se nunca tivèssemos de lá saído. «Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela», diz-se em "Ilha Grande Fechada". Sábias palavras, digo eu. Dele, claro. 

 

Em baixo: "Maia  (II)"
Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

A vila que o não foi
 
 
Disse Gaspar Frutuoso que este lugar, de “bem compassadas e começadas ruas de casas telhadas”, “muitas vezes procurou ser vila e para isso repetia, porque moraram e moram nele homens muito honrados; era necessário ter jurisdição por si, pelo muito trabalho que passavam e passam os seus moradores em atravessar a serra, indo às audiências a Vila Franca.”
 
Nesse tempo, o lugar da Maia (o termo “freguesia” ainda não tinha conotação administrativa) abrangia toda a zona da costa, desde a ponta onde foi fundada até aos Fenais da Ajuda – que então se chamavam Fenais da Maia – e, pelo interior, até às Furnas. E uma das provas de que cedo alcançou notoriedade terá sido o facto de que Pedro Roiz da Câmara, tio do quinto capitão, Rui Gonçalves da Câmara – de quem foi lugar-tenente e em nome de quem governou a Capitania durante os sete anos da sua ausência antes da subversão de Vila Franca do Campo –, ofereceu um pontifical de damasco rosado à matriz de Nossa Senhora da Estrela e outro à igreja do Divino Espírito Santo da Maia.
 
Mas, se o desenvolvimento social e o bom aspecto do pequeno burgo estavam a favor das pretensões da Maia, os desastres naturais foram-lhe inimigos. É que, em consequência do tremor de terra de 22 de Outubro de 1522, e à semelhança do que aconteceu em Vila Franca devido a chuvas recentes e à fragilidade do solo onde predominava a pedra-pomes, a derrocada de uns montes que lhe eram sobranceiros arrasou parte do lugar, soterrando casas, bens e pessoas. E, em 1563, as cinzas do vulcão do pico do Sapateiro, trazidas pelos ventos de sudoeste, destruíram todas as culturas, tornando a terra estéril por algum tempo.
 
Melhor sorte tivera a Maia no ano de 1630, quando rebentou o vulcão no vale das Furnas – o que fez secar uma pequena lagoa, hoje conhecida como Lagoa Seca –, de tal modo que serviu de refúgio a alguns dos eremitas que ali viviam, os quais, transportando o Santíssimo que salvaram do eremitério, aqui se acolheram, enquanto que um outro grupo, que levava consigo as imagens sagradas, foi parar ao Porto Formoso.
 
Há uma referência curiosa do Dr. Gaspar Frutuoso que nos ajuda a perceber o considerável desenvolvimento social da Maia já no século XVI. Tendo sido o jogo da péla (antepassado do ténis) praticado sobretudo pelas classes mais evoluídas, diz-se nas “Saudades da Terra” que “Um Brás Dias, da Ribeira Grande, foi o melhor jogador de péla que houve em todas as ilhas dos Açores, porque, jogando de ambas as mãos, tanto lhe dava jogar com uma como com outra; e, logo após ele, António Roiz e Fernão Martins, do lugar da Maia.

 

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