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Sete Vidas Como os gatos

More than meets the eye

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Sete Vidas Como os gatos

09
Jul08

Nada na manga, sinal de batota.

Rui Vasco Neto

Um casino sem nada a esconder é uma ideia imenso interessante, como um bordel de virgens, imenso peculiar, inovadora, imenso sei lá. Não é minha, credo!, claro que não, sou lírico mas não tanto. E depois não tenho essa lata toda, para ser franco, há um limite para as figuras tristes que sou capaz de fazer (mesmo que por vezes não pareça). Não, eu não seria capaz de chegar aqui e sair-me com esse copito a mais, essa fantasia a cores cujo único cenário possível seria um qualquer salão paroquial de província, talvez, com as velhinhas da freguesia a darem as cartas, o senhor pároco a cantar os números da roleta e os velhotes a venderem rifas para o sorteio do porco, a um chouriço cada uma. Maria Amélia, a divorciada, venderia os 'Kentuckys' no bufete, com vestido de decote. E aos sábados haveria acordeão para todos balharem. Talvez pudesse ser isto mais ou menos, se existisse, um casino sem nada a esconder. Ainda assim, como de resto se pode ver pelo custo das rifas, até neste casino paroquial as pessoas só dão um chouriço a quem lhes der um porco, pelo menos, e acho que nem o senhor pároco acredita em milagres. Pelo menos desses.

 

Um casino sem nada a esconder é uma tentativa grosseira de abuso da credulidade alheia. Se não há devia haver, uma lei qualquer que proíba e castigue este equivalente à venda do Cristo-Rei em prestações suaves, ou qualquer outro insulto deste calibre à inteligência dos outros. Um casino sem nada a esconder é sinal de batota, um dos piores. De uma das piores. Não, a ideia não é minha, não tenho competência para tanto. Nem tenho o gabinete a ser espiolhado e (supostamente, pelo menos) virado do avesso pelos investigadores tributários, elementos do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) e membros da brigada fiscal da GNR que desde esta manhã estão nos casinos do Estoril e Póvoa de Varzim, do grupo Estoril-Sol, alvo de buscas no âmbito da "Operação Furacão" que investiga fraude fiscal e branqueamento de capitais. O seu a seu dono. Foi Mário Assis Ferreira, administrador da Estoril-Sol, quem hoje se saiu com esse interessante conceito, em declarações aos meios de comunicação: «Os elementos da brigada fiscal e um procurador do MP estão a analisar documentação financeira e contabilista. Não temos nada a esconder e estamos à sua inteira disposição", disse aquele responsável, para a gente acreditar. Eu, lamentavelmente, passo. Os senhores estejam à vontade para apostar. Les jeuxs sont faits.

 

É caso para perguntar, a quem investiga branqueamento de capitais em Portugal, porquê só agora se lembraram destes casinos. Isto entre muitas outras coisas que apetecia perguntar, posto serem tão estranhas e difíceis de compreender, respeitantes ao jogo nos casinos da Estoril-Sol, particularmente no tocante ao branqueamento de dinheiro, supostamente prevenido por uma directriz comunitária que obriga a identificação do comprador de fichas numa sala de jogo. E que o Casino Estoril cumpre zelosamente, diga-se. Ninguém troca um euro que seja por uma ficha, na sala de jogos tradicionais, sem mostrar o bilhete de identidade ou passaporte ao caixa, é verdade sim senhor. Quem quiser trocar um milhão de euros sem se identificar tem que descer ao piso térreo, se quiser, agora transformado numa imensa sala de jogo sem o ser, mas com mini-roletas e mini-banca francesa para maxi-tansos, por toda a parte. Ou para quem queira de facto branquear dinheiro sem controlo de ninguém. Era assim até há bem pouco tempo, suponho que continuará igual hoje, tal como ontem e tal como depois destas buscas que procuram afanosamente pistas sobre branqueamento de capitais e fraude. Uma chatice. É o problema das respostas, como dos casamentos: às vezes, por mais que queiram, não encontram as perguntas certas.

 

Mas eu tenho duas boas razões para não fazer esse tipo de perguntas: em segundo lugar, não quero de todo maçar os senhores com minudências a que ninguém mais parece ligar, a começar pela própria Inspecção-Geral de Jogos que se aborrece (a sério) sempre que alguém faz perguntas incómodas sobre o jogo no Casino Estoril. Ora eu cá não quero aborrecer ninguém. E em primeiríssimo lugar, como podem ver pelo título deste blog, eu de facto só disponho de sete vidas, o que é manifestamente escasso para poder dar-me ao luxo de me meter com o Dr.Mário Assis Ferreira e com a Estoril-Sol. Chamem-me gato escaldado, se quiserem. Mas ganhei um amor tal à carnucha que enche o esqueleto que me transporta, que agora (com a idade, já se vê) uso todos os cuidados e uma alimentação saudável, que inclui os milhões de alkazei-imunitai que há nos yogurtes e uma prudência verbal feita em casa. Dizem que faz milagres, estou para ver e ir vendo, devagar.

 

Por isso não tenho quaisquer perguntas para fazer, ou sugestões para deixar, ou ideias para partilhar sobre este assunto. Tal como o resto do país, vou assistir hoje aos telejornais e à notícia das buscas, ver as imagens e ouvir todas as informações disponíveis sobre esta suspeita de branqueamento de capitais nos casinos. Depois, tal como o resto do país, vou aguardar por um eventual resultado das investigações, supondo que existirá algum. E no final, havendo um, tal como o resto do país vou comentar no café nesse dia e no outro vou à vida, obrigadinho, que se há-de fazer, é preciso é ter saudinha e tudo se resolve. E já está. Não foi assim com a polémica do Casino Lisboa/se há-de ir para o Estado olhe pronto, deixe ficar, uma atenção de Telmo Correia assinada nos estertores do seu consulado? Alguém mais fala disso? E aconteceu o quê, na prática? Falou-se, é certo, deu na televisão, veio nos jornais, mas aconteceu o quê, depois? Nada, não aconteceu rigorosamente nada. Nunca acontece nada, o herói Martini não morre, nem se despenteia. É preciso é ter calma e muita saúde e tudo se resolve, como sempre. Todos sabemos que é assim. Eu sei que é assim. O Dr. Assis Ferreira também sabe que é assim. E os senhores que estão a mexer no gabinete dele até podiam não saber que era assim quando lá entraram, mas palpita-me que agora alguém vai arranjar maneira de os informar, rapidamente, desse pequeno pormenor. Afinal, não há nada para esconder. 

 

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