Domingo, 10 de Agosto de 2008
O gato e o rato
Domingo, 10 Ago, 2008

O meu amigo Daniel de Sá tem um passado, como toda a gente. E terá um futuro, longo e brilhante, por certo. E um dia, lá muito, muito para a frente, barrado às portas do Céu pelo serviço de estrangeiros e fronteiras, ele vai poder invocar a seu favor o facto de ter sido meu amigo (pode ser que ajude, mas duvido), ou as suas reconhecidas qualidades enquanto escritor e homem recto e bom durante a sua existência terrena. Mas vai ter problemas se um qualquer Nunes da ASAE lá do sítio souber do seu passado de político, deputado à Assembleia Regional dos Açores e militante partidário. Enfim, todos temos os nossos quês, essa é que é essa. É pois a esse passado aventuroso que ele vai hoje buscar o testemunho que se segue, presencial, de um momento que fez História assim, independentemente de como ficou para a História. «A verdade histórica é esta; o juízo de cada um fica à responsabilidade de cada qual», diz-me em recado privado. Tudo isto ainda nos ecos da comunicação de Cavaco e da bicada de Soares. As conversas são como as cerejas, é o que é.

 

Em baixo: "O gato e o rato"

Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

 

Uma das coisas que me têm incomodado na relação dos Açores com Lisboa é esta espécie de jogo do gato e do rato, cujo último capítulo vai sendo o do Estatuto. Até que outro surja. E digo jogo do gato e do rato, porque umas vezes estas ilhas são apregoadas como umas coitadinhas cuja felicidade Lisboa quer destruir, outras vezes julgam-se tão importantes que imaginam que o País não pode viver sem elas e “tem de as pagar”.

 

Ora o problema dos Açores é que no porto de Angra há séculos que não ancoram os navios do comércio da Índia e das Índias; a Horta já não abastece de carvão as caldeiras dos transatlânticos nem serve de ponto de passagem das linhas do telégrafo; Ponta Delgada já não dá apoio aos transportes de tropas americanas a caminho da Europa; a era do jacto tornou o aeroporto de Santa Maria absolutamente dispensável para os voos longos; as Lajes podem ser substituídas por um porta-aviões, sem que as USAF sofram muito com isso.

 

Ora bem. A questão das bandeiras foi o acto de um drama num momento em que os Açores quiseram fazer de gato. E que hino e que bandeira são esses, de que o PSD ainda me acusa de não ter aceitado, bem como aos meus camaradas deputados regionais?

 

Resumo a história. Havia uma comissão de heráldica encarregada de estudar os símbolos da Região. Num certo dia, o Presidente do Governo Regional entrou de surpresa na sala do nosso grupo parlamentar. Trazia na mão uma cassete minúscula, com uma melodia qualquer tocada em piano pelo Teófilo Frazão. O que ele nos disse, mais palavra menos palavra, foi o seguinte: “Não sei onde acharam isto, mas é isto que vai ser aprovado amanhã como hino dos Açores.” E mostrou-nos o desenho de uma bandeira, semelhante à da FLA (Frente de Libertação dos Açores), fazendo notar que o milhafre, ou açor, não estava na posição correcta, mas que essa seria corrigida. Também era para aprovar. Quanto ao hino, não tinha letra ainda, haveria de ser feita mais tarde.

 

Deu-nos cinco minutos para apreciarmos ambos os símbolos. Do brasão, nem esboço nem sombra. O Emílio Porto, que até já recebeu uma comenda da Ordem do Infante a premiar os seus dotes musicais, tentou comigo descobrir o compasso daquela estranha melodia. Não conseguimos.

 

Ora, sem qualquer referência histórica ou outra a respeito do hino, sem uma explicação feita mais ou menos em termos de heráldica quanto à bandeira, entendemos que não havia condições para decidirmos em boa consciência. Mais ainda: a letra seria acrescentada mais tarde. Por isso avisámos de que não participaríamos numa sessão tão importante sem um mínimo de dados que nos permitissem votar com conhecimento de causa, até porque o assunto não estava agendado, e surgia à revelia do esperado parecer da comissão de heráldica.

 

Viemos depois a saber que aquela partitura tinha sido encontrada no espólio de uma banda filarmónica, e que a letra para que tinha sido composta era algo de quase absurdo. Ambas feitas durante a campanha política de que resultou a autonomia de 1895.

 

A letra acabaria por ser encomendada pelo Governo Regional à Natália Correia, que escreveu talvez o seu pior poema de sempre. Quer dizer que àquele hino aconteceu algo semelhante ao “Candles in the Wind”, que o Elton Johnn fez para a Marilyn Monroe e depois cantou para a Diana.

 



publicado por Rui Vasco Neto
link do post | comentar

Comentários:
De Alfredo Gago da Câmara a 12 de Agosto de 2008 às 21:22
Saci
Poderia ser, mas não é. A palavra novino ficou mal escrita. Faltou-lhe um "H" de homem, o que no caso até faz sentido e explica a própria palavra. (eh.eh.eh...)


De Daniel de Sá a 13 de Agosto de 2008 às 00:59
Boa saída, Alfredo! E eu que começava a pensar que estavas a ficar como aquelas velhinas que, só por ouvirem um palavrão, iam logo confessar-se.


Comentar post

Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
mais sobre mim
vidas passadas

Piu

Crónica do Brufen

Eu, pombinha.

Falando com o meu cão

Chove, eu sei, mas tenho ...

Maria da Solidariedade

Hum, daí o meu dói-dói...

Portugal sem acordo

Não fui eu que escrevi ma...

Um dos

Abençoados 94, Madiba!

Sôdade

Não vás as mar, Tòino... ...

Ofertas FNAC: pare, escut...

Reflexão de domingo, perg...

É preciso é calma, já se ...

Definição de sacrifício n...

A questão

E pronto, eis que descubr...

.......

Bom dia. Se bem me lembro...

O princípio do fim

E, de repente.

Um azar nunca vem só

Diz que é uma espécie de ...

Força na buzina!!

Bom dia. Hoje chove em Li...

Depois do homem que morde...

Bom dia. É hoje, é hoje!!...

Boga ou Beluga?

arquivos

Junho 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Abril 2010

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Restaurantes para fumadores
Consulte aqui a lista de restaurantes onde os fumadores também têm direito à vida.
sete vidas mais uma: Daniel de Sá
Um Nobel na Maia
Lagoa
Ribeira Grande
Vila Franca do Campo
Do Nordeste à Povoação
Dias de Melo, escritor livre
E se a Igreja se calasse?
O outro lado das tragédias
O meu Brasil português
A menina amarga (II)
A menina amarga (I)
Pelas cinzas de uma bandeira
O caso da Escola do Magistério
Uma confissão desdobrável
O gato e o rato
Contra a Inquisição
D.Diogo
Uma carta de Fradique Mendes
Acróstico
Monotonia
Maia (II)
Maia
Um nome acima de todos os nomes
Um palhaço de Deus
A ópera em Portugal - Conclusão (VIII)
A ópera em Portugal - Um novo estilo, Alfredo Keil (VII)
A ópera em Portugal - O Teatro de S.Carlos (VI)
A ópera em Portugal - Os Intérpretes: Luísa Todi e os Irmãos Andrade (V)
A ópera em Portugal - Marcos Portugal: vida e obra (IV)
A ópera em Portugal - Primeiros tempos / o triunfo (III)
A ópera em Portugal - Introdução da ópera em Portugal (II)
A ópera em Portugal - As origens da ópera (I)
Dois sonetos à maneira de Natália Correia
Duas garrafas de Macieira
As esponjas das lágrimas
Lição de Português
500 000 soldados
Depois do portão da casa
Auto da Mazurca
Auto da Barca de Bruxelas
Malino
Romance da Bicha-Fera
A Casa
Tremor de terra, temor do céu.
Cântico da mãe escrava ao filho morto
Passos Perdidos
A Lenda dos Reis
Daniel de Sá
Um sítio chamado Aqui
O protesto do burrinho
Sete vidas mais uma: Soledade Martinho Costa
Poema renascido
Sete vidas mais uma: Pedro Bicudo
RTP, Açores
As vidas dos outros
subscrever feeds
Sete vidas, sete notas