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Sete Vidas Como os gatos

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Sete Vidas Como os gatos

27
Ago08

A Colónia de Santa Teresa

Rui Vasco Neto

 

Lepra. Nome feio, dos piores. Hoje já raro de ouvir, o que nem por isso significa que a doença de Hansen não existe mais. Ou, muito menos, que não existem mais leprosos, nome mais feio ainda. «Eu pensava que estas coisas só tinham acontecido em tempos bíblicos, quando muito há mais de um século, com gente sem alma no corpo e outros quase sem corpo para abrigar a alma. Creio que para muitos dos nossos amigos leitores será também uma surpresa total.» É Daniel de Sá quem me escreve e conta, em recado privado, a história por detrás da prosa que me envia. Trata-se de um texto escrito por Cristina Vianna, uma amiga comum que fala de lepra e de leprosos com uma autoridade legitimada pelo seu lidar quotidiano com essa realidade. Uma prosa do coração, mas com um rigor testemunhal. Um retrato com fotografia, esta que aqui vêem, de uma realidade tal e qual. Com estes rostos, sem tirar nem pôr.

A história de vida da Cristina, contada aqui, será um exemplo e uma inspiração, é certo, tão certo como não haver qualquer favor na reverência que se impõe. São adjectivos em permanente conquista numa luta diária com entrega total, corpo e alma, desta mulher que escolheu falar menos e fazer mais pelos outros. O seu amigo Daniel chama-lhe 'um palhaço de Deus' e é perfeito na definição. Terão sido pessoas assim, lamentavelmente poucas, que Deus terá inventado para fazer sorrir e amolecer o coração da gente, embrutecida pelo espectáculo non-stop deste circo de horrores, onde o belo mal se distingue, só à lupa, quase. Mas existe, conforme prova junta.

 

Em baixo: "A Colónia de Santa Teresa"
Sete vidas mais uma: Cristina Vianna

 

 

(Passei a fazer festas para os pacientes. Brincadeiras, música ao vivo, café colonial, bingo e muita brincadeira. A moça de cabelos longos é manicure, convidada junto com outros para cuidar dos cabelos, unhas e maquiagem para as festas", escreveu Cristina na legenda desta foto que mostra ainda na ponta direita Martinha, jovem estudante de enfermagem e ao centro, abraçada por todas, Maria, protagonista deste texto escrito pelo palhaço da foto)


 

 

A lepra roubava sonhos, e aqueles que fossem “escolhidos” certamente compartilhariam o mesmo destino sem escolhas. A colónia fora projectada para ser uma mini-cidade, um lugar só de ida, como um destino sem curvas ou bifurcações. Até o delegado, a polícia, todos eram hanseanos. Tinham uma moeda própria, assim como o comércio.
 
A primeira vez que visitei a colónia foi num sábado de primavera, numa manhã ensolarada. O lugar era tão imenso e tão belo, grandes jardins, lago com peixes, casas, algumas construções desactivadas, como teatro, delegacia, salão de festas, porém tinha guarita como num presídio e muitas grades de segurança bem antigas na cabine de visitas. Todas essas construções foram feitas por mãos hansenianas. Em alguns momentos cheguei a criar imagens em minha mente de pessoas com rostos colados nas grades tentando ver o mundo lá fora.
 
Eu, absorta naquela realidade, num mundo novo e singular, fui surpreendida por uma visão. Uma casinha azul, pequena, com janelas pintadas de branco e jardineiras floridas, e na porta a visão de um anjo, uma criaturinha pequenina e sorridente, com olhar maroto, terno, doce, traços delicados, semblante tranquilo, de alguém que venceu a vida e suas batalhas. Estava paralisada diante de Maria, e por um tempo fiquei segura dentro de seu olhar. «Bom dia. Vieste me visitar?» Eu apenas sorri, ainda não sabia que aquela era a maior verdade de nossa história. Parecia estar marcado este encontro. «Entre, fique à vontade.» Entrar naquela casa era como entrar na casa de minhas antigas bonecas, tão aconchegante, colorida, cuidada, e nas paredes recordações emolduradas que contavam uma história de amor. «Não me recordo quando contraí a doença, mas lembro-me de ir à escola, estender minha mão à professora e esta se recusar a segurar. Estava sempre isolada num canto da sala, com o passar do tempo não saía mais de casa e muitas vezes ouvi as vizinhas cochicharem: “Esta menina tem Lepra, vai morrer.”»
 
Maria arquivava seus sonhos, via o mundo por frestas entre as madeiras de sua casa, e tinha pouco contacto com gente. Contou-me que numa tarde, quando tinha vinte e dois anos, o carro da Vigilância Sanitária parou em sua porta, e ordenou que entrasse. Alguém havia denunciado. Entrou nele sem resistência, e nunca mais seus olhos encontraram novamente aquela paisagem dos jardins. Ela fora levada junto com outros infelizes até os portões da colónia, mandaram que descesse e disseram: «Vão apodrecer e morrer aí dentro.» Assim, sem escolhas, eram jogados lá dentro, sem direito a nada, sem nenhum contacto com o mundo lá fora. Lá fora ficava tudo, a juventude, a família, os sonhos, a dignidade, o copo na pia, a marca do corpo em seu colchão. Entravam naquele lugar para morrer. «Fomos amaldiçoados pela Igreja. Não podíamos ir à missa.», disse-me um dia Maria quando falávamos sobre fé.
 
A jovem Maria decidiu que não apodreceria e muito menos morreria, sem ter vivido, estava entre aqueles que partilhavam a mesma sorte, iria então tomar as rédeas de sua vida, e viver, esse fora um dos segredos confessados, o querer viver, e aprender a ser feliz com suas condições. No início do século XX ainda não existia nenhum tipo de tratamento. Os pacientes eram rejeitados por suas famílias e jogados na beira de estradas. Viviam de esmolas e ajuda de senhoras da sociedade. A partir de 1924 o Governo decidiu assumir a questão e, fortalecido pela ideia de que tirando o doente das ruas ou estradas estaria salvaguardando a sociedade sadia, decidiu pela internação compulsória. Assim, o indivíduo, com a simples suspeita da doença, já era "marcado", quando não mesmo "caçado" e isolado, compulsivamente, num hospital-colónia na época chamado de Leprosário.
 
Foi assim que aconteceu com Maria e também com José. Este chegara à Colónia aos oito anos. Transformou-se em um homem lindo, moreno, alto, olhos verdes, aprendeu a arte da carpintaria. E viria a casar-se com a costureira e bordadeira Maria na colónia. Tiveram oito filhos em 57 anos de casamento. Quando as crianças nasciam, não era dado o direito nem de serem vistas pela mãe: eram levadas para um orfanato. Os seios latejavam o desejo de amamentar, o colo materno ficava vazio. Após alguns anos algumas eram trazidas para visita, ainda assim não eram tocadas, ficavam atrás das grades para serem vistas. Muitas vezes chegava a notícia de que a criança não vingara. Assim aquele casal recebera a notícia cinco vezes.
 
Muitas vezes durante nossas conversas, Maria fechava os olhos, suspirava fundo e sorria recordando o flerte, o namoro, o primeiro beijo, os bailes, e por incrível que pareça os anos felizes que viveram juntos. Quando descobriram tratamento para a patologia, os portões foram abertos, mas poucos foram embora, a maioria havia perdido os vínculos familiares, e alguns não tinham sobrenome, sequer.
 
Cristina Vianna

 

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